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Há salvação fora da Igreja Católica?

 Uma recente polêmica que vem esquentando a rede social Facebook motivou esse texto. A polêmica ocorreu por causa de algumas declarações do vocalista da banda de rock católico Rosa de Saron, Guilherme de Sá, as quais o Padre Paulo Ricardo respondeu em forma de um vídeo condenando as frases do cantor como sendo heréticas. Em outras vezes já cometemos erros no Apostolado São Clemente Romano em julgar apressadamente as pessoas, mas é evidente que o vocalista dessa banda precisa esclarecer melhor o que ele disse porque, afinal de contas, ficou mesmo confuso, muito embora em sua defesa ele tenha citado a Encíclica Redemptoris Missio do Papa João Paulo II.
A questão polêmica é sobre o dogma, em princípio enunciado por São Cipriano de Cartago que diz “extra Ecclesiam nulla salus” (não há salvação fora da Igreja Católica). Entretanto, essa declaração forte do bispo de Cartago, um grande orador que viveu no século III, tem também que ser interpretada para que não se cometam equívocos como muitas pessoas realmente fazem. Primeiramente é mister dizer que a verdade é que a doutrina da Igreja não muda, ou seja, aquilo que era dogma há 2000 anos continua sendo dogma hoje e, portanto, a afirmação desse santo (que foi elevada a dogma) vale para os dias atuais. Também Santo Agostinho, o grande bispo e doutor de Hipona se posicionou em defesa desse dogma e assim sendo nada nos resta a não ser concordar com ele. Cabe aqui, entretanto, esclarecer 1) o que é Igreja Católica e 2) o que é o dogma em questão e o porquê das coisas serem assim.
É importante dizer que Igreja Católica não é uma mera instituição como foi difundido pela cultura moderna, especialmente após a Reforma Protestante como uma via de desmoralizar a Igreja. A Igreja antes de tudo é o Corpo Místico de Cristo, do qual Cristo é a cabeça invisível e o Papa é a cabeça visível. É bom dizer também que não é qualquer um que se salva, afinal, o homem não é redentor de si mesmo porque se assim fosse, o Sacrifício de Cristo teria sido inútil. Afirmar que o homem pode limpar a si mesmo do pecado é cair na heresia gnóstica, uma heresia primitiva irracional que prega, dentre outras coisas, a negação da matéria e a reencarnação.
O homem ao pecar comete uma ofensa infinita contra Deus, que é infinito. Ora, se o homem comete uma ofensa infinita então ele precisa reparar de forma infinita, mas o homem sendo finito é incapaz de fazer isso. Pra reparar as faltas dos homens, Deus, por misericórdia, morreu na cruz e adquiriu um sacrifício reparatório capaz de limpar qualquer pecado. Entretanto, Deus adquiriu o mérito pra todos os homens, mas nem todos os homens tomam parte desse tesouro tão facilmente. Para que tenhamos os méritos de Cristo devemos formar um corpo com Ele e esse corpo, conforme já mencionado, é a Igreja Católica, o Corpo Místico de Cristo do qual fazemos parte através do Batismo (para mais detalhes leia a obra “Por que Deus se fez homem? de Santo Anselmo de Cantuária). Ora, se Cristo possui méritos infinitos e se nós fazemos do Corpo d'Ele, então também nós, pela graça e não por nosso merecimento, tomamos parte nesses méritos. A nossa conduta de vida em evitar o pecado nos garante a comunhão com a Graça, o que nos garante a Salvação. Assim sendo, não é a conduta de vida que nos salva, ela apenas nos mantém unidos à Salvação que nós já recebemos de Deus. A salvação vem pela graça, não por nossos méritos.
Aqui já sabemos que é condição para a salvação que sejamos parte do Corpo Místico de Cristo. Entretanto, pela misericórdia Deus estende esse Corpo a pessoas que não estão fisicamente na Igreja Católica quando em vida, mas apenas espiritualmente. De fato, a Igreja Católica é muito maior do que podemos ver. Pessoas que estão em um estado de ignorância invencível, não pelos méritos próprios, mas pela misericórdia de Deus também podem se salvar.
Aqui devemos fazer alguns esclarecimentos para que não haja nenhum equívoco. 1) não é a religião que a pessoa segue fora da Igreja Católica que salva (embora todas religiões tenham elementos da verdade, apenas a Igreja Católica tem a verdade revelada plenamente), 2) não é o homem que se salva, mas a misericórdia de Deus e 3) não é por merecimento, mas por graça, misericórdia e justiça divinas que os não católicos se salvam.
Ora, se em um ponto remoto da Terra existe um povo que nunca teve entre eles um pregador, será mesmo que Deus seria justo em cobrar deles algo que não conhecem? É claro que não! Por causa disso as pessoas que tiveram uma boa conduta de vida fora da Igreja Católica serão julgadas não pela sua fé, mas pela sua conduta. Deus deixou uma lei moral sensível ao homem, isto é, há um criador (a beleza do mundo nos revela isso) e não devemos fazer com os outros o que não queremos que façam conosco (amarás o teu próximo como a ti mesmo).
Os pagãos ao morrerem se encontram com Cristo e Ele, por sua Infinita Misericórdia, concede a eles seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade para que tomem parte do riquíssimo tesouro de Cristo. Dessa maneira a Igreja crê e ensina que aqueles que não pertenceram à fé católica, a única onde está revelada integralmente a verdade divina, devem entrar em comunhão com a Igreja, o Corpo Místico de Cristo, após a morte para que sejam salvas. Para ver um belíssimo testemunho acerca disso recomendamos que o leitor procure o “Livro da Vida” que conta a história de Glória Polo, uma colombiana que teve uma experiência de quase-morte e visualizou um índio recebendo a Eucaristia antes de entrar no Céu.

Assim sendo, o dogma da Igreja permanece válido até hoje. Cristo de fato morreu por todos, a Igreja existe pra todos, qualquer um pode ser batizado e tomar parte dessa grande graça, mas sem a Igreja não há salvação. Qualquer afirmação que seja diferente dessa é herética e condenada pela Igreja e com justa razão. Esperamos que nossos leitores não sejam divagadores de heresias cujo pensamento é distinto do que ensina a Santa Madre Igreja.

O Cânon de Jâmnia

No tempo do Imperador Romano Nero, desencadeou-se a primeira revolta aberta dos judeus da Palestina contra Roma (66-70). Tito, na primavera de 70, sitiou Jerusalém, a cidade inteira foi saqueada, arrasada e o Templo foi destruído no dia 10 do mês de agosto do mesmo ano. Os fariseus de Jerusalém (16) se transferiram para a cidade de Jâmnia, onde formaram próspera escola rabínica. Aproximadamente no ano 90, este grupo de rabinos define uma lista dos livros que deveriam ser considerados sagrados pelos Judeus. O Cânon de Jâmnia (como ficou conhecida esta lista) deu origem à atual Bíblia Hebraica. O Cânon de Jâmnia excluiu os sete livros deuterocanônicos [do AT] e os acréscimos de Daniel e Ester.

Um cânon sagrado pré-existente?

Alguns afirmam que o Cânon de Jâmnia foi a confirmação de um Cânon Sagrado anterior e definido pela autêntica Tradição judaica.

Segundo esta tese, o fato de Jesus e os Apóstolos se referirem às Escrituras Sagradas disponíveis em seu tempo de forma geral (“Escrituras”), mostra que eles tinham em mente uma quantidade precisa de livros que estavam incluídos sob aqueles títulos gerais.

Apresenta-se como prova o registro do Evangelista Lucas ao diálogo entre Jesus e os discípulos na estrada de Emaús: ‘E começando por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras.”(Lc 24,27). A expressão “todas as Escrituras” demonstraria que já no tempo de Cristo, uma lista de livros canônicos já estava fixada.

Cita-se ainda João 5,39, quando Jesus manda os Fariseus, que eram os legítimos intérpretes da Lei (cf. Mt 23,1), verificarem que Nele se cumpriram todas as profecias messiânicas. Jesus ao utilizar a expressão “Escrituras” estaria se referindo a um conjunto de livros bem conhecido, tanto por Ele quanto pelos Fariseus.

Chama-se ainda a atenção à expressão “Moisés e os Profetas” (cf. Lc 24,27). “Moisés e os Profetas” ou “A Lei e os Profetas” seria a estrutura de como este cânon judeu estaria organizado, sendo que na seção “Lei”, estariam contidos também os Salmos (cf. João 10,34). Assim, se quer defender a existência de um cânon bíblico, organizado em uma tríplice estrutura: a Lei, os Profetas e os Salmos. Também se costuma fazer referência a Lc 24,44, onde Jesus ao aparecer aos apóstolos e discípulos lhes disse: “(...) era necessário que se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos”.

Estes argumentos são bastante frágeis, pois em todas as referências apresentadas, Jesus está tentando demonstrar que Nele se cumprem todas as profecias messiânicas. E onde estão estas profecias? Estão justamente nos livros de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Desta forma, dentro do contexto em questão, é bem mais certo que Jesus esteja referenciando esta triplica estrutura, porque nela se encontram as profecias messiânicas, do que Ele esteja fazendo referência a um cânon sagrado existente em seu tempo.

Há também quem apresente como prova do suposto cânon, então confirmado pelo Cânon de Jâmnia, os testemunhos históricos de Flávio Josefo e Áquila (o qual criou uma nova versão grega das Escrituras hebraicas, que leva o seu nome).

O testemunho de Áquila é reconhecidamente posterior ao Cânon de Jâmnia, e por isso, também não pode ser aceito como prova; muito pelo contrário...

Por outro lado, reproduziremos abaixo o texto de Josefo, conforme consta em sua obra “Contra Apion”:

“38. É, pois natural, ou melhor dizendo, necessário, que não exista entre nós uma multiplicidade de livros em contradição entre si, senão somente vinte e dois (17) que contém os registros de toda história e que com toda justiça são dignos de confiança. 39. Deles, existem cinco de Moisés, os quais contêm as leis e a tradição desde a criação do homem até a morte de Moisés. Compreende, mais ou menos, um período de três mil anos. 40. Desde a morte de Moisés até Artaxerxes (18), sucessor de Xerxes (19) como rei dos persas, aos profetas posteriores a Moisés foram deixados os feitos do seu tempo em treze livros, os quatro restantes contém hinos a Deus e conselhos morais aos homens. 41. Também desde Artaxerxes [tempo do Profeta Esdras] até nossos dias cada acontecimento tem sido registrado; embora estes não sejam dignos da mesma confiança dos anteriores, porque não havia uma sucessão rigorosa de profetas. 42. Os feitos provam com claridade como nós nos acercamos das nossas próprias escrituras: havendo já transcorrido tanto tempo, ninguém se atreveu a adicionar, tirar ou trocar nada nelas “ (JOSEFO, 2006, p. 21-22).

Não é possível precisar se o testemunho de Josefo é anterior ou posterior ao Cânon de Jâmnia, devido à incerteza entre as datas do Cânon e seu testemunho.

Costuma-se dizer que “Contra Apion” foi terminada pelo ano 94; e o Cânon de Jâmnia, normalmente é referido pelos especialistas como sendo do ano 90. Entretanto, nenhuma destas datas é conclusiva; sabemos apenas que ambos são os últimos anos do séc I d.C.

Com efeito, não é possível precisar se o testemunho de Josefo é anterior ou não ao Cânon de Jâmnia, devido à incerteza entre as datas do Cânon e seu testemunho. Esta incerteza compromete por completo o testemunho de Josefo, pois não se sabe com certeza se o mesmo foi influenciado ou não pelo Cânon de Jâmnia. Porém, há indícios que sim.

Josefo era fariseu e os rabinos de Jâmnia também, assim possivelmente ele esteja simplesmente defendendo a posição de sua facção religiosa.

O prólogo da tradução Grega do Eclesiástico (ou Sabedoria de Sirac), livro escrito por volta de 130 a.C., portanto anterior ao testemunho de Josefo, parece contradizê-lo. Nele lemos:

“Pela Lei, pelos Profetas e por outros escritores que os sucederam, recebemos inúmeros ensinamentos importantes (...) Foi assim que após entregar-se particularmente ao estudo atento da Lei, dos Profetas e dos outros Escritos, transmitidos por nossos antepassados [...]”.

Enquanto o testemunho de Josefo procura restringir o Cânon Sagrado ao tempo de Esdras, “porque [depois de Esdras] não houve uma sucessão precisa de profetas”, o Eclesiástico parece ser mais amplo e fiel à História ao afirmar que “por outros escritores que os sucederam [os profetas], recebemos inúmeros ensinamentos importantes”.

O testemunho do Eclesiástico refere-se a livros posteriores ao tempo dos Profetas.

Veja o que estudioso protestante Leonard Rost tem a dizer sobre isso:

“Vê-se, pelo prólogo de Sirac [Eclesiástico ou Sabedoria de Sirac], que, além dos escritos assumidos no Cânon hebraico, traduziram-se também outros que parecem ter gozado de bastente estima como obras religiosas de edificação, em círculos mais ou menos amplos, até o final do século I d.C” (ROST, 1980, p.19).

Há ainda em Josefo um trecho bem polêmico, vejamos:

“havendo já transcorrido tanto tempo, ninguém se atreveu a adicionar, tirar ou trocar nada nelas [nas Escrituras]”.

Alguns entendem que neste trecho Josefo confirma que os livros escritos depois do tempo de Esdras não estavam dispostos num mesmo volume com os livros que foram escritos antes deste mesmo período (protocanônicos), pois isto configuraria um acréscimo nos primeiros.

Ora, ele está dizendo que nada foi alterado nos textos presentes nestes livros, nenhuma sílaba a mais, nenhuma a menos. Josefo não está se referindo à adição ou retirada de livros a um conjunto pré-estabelecido de outros livros.

A tese do Cânon pré-existente apresenta sérios problemas. Primeiro, se este suposto cânon correspondia ao Cânon de Jâmnia, por que era comumente usada a Septuaginta com um catálogo bem maior, conforme é comprovado pelo testemunho do NT e as descobertas do Mar Morto e Massada?

Segundo, se este suposto cânon correspondesse aos livros da Septuaginta, logo não seria permitida a definição de qualquer outro cânon bíblico; então por que foi estabelecido o Cânon de Jâmnia?

Terceiro, os judeus alexandrinos e etíopes recusaram o Cânon de Jâmnia e até hoje guardam como sagrados os livros da Septuaginta. Se realmente este suposto cânon bíblico existisse, não haveria disputas entre os judeus sobre este tema; todos adotariam o mesmo conjunto de livros sagrados definidos pela Tradição Judaica.

Fílon de Alexandria, historiador e filósofo judeu, viveu entre os anos de 20 a 50 d.C. Em sua obra “Exposições sobre a Lei”, onde faz comentários sobre a doutrina da Torah (20), as referências ao Pentateuco são todas da Septuaginta, que possuía os livros deuterocanônicos e as partes deuterocanônicas de Daniel e Ester, não aceitas posteriormente pelos Judeus de Jâmnia.

Um dos especialistas sobre a vida de Fílon de Alexandria, o Prof. Ritter, quanto ao uso da Septuaginta pelo filósofo escreve:

“A princípio o texto que ele [Fílon] comenta é o da tradução grega dos Setenta; algumas diferenças que se assinalou com razão entre seu texto e aquele que possuímos atualmente dos Setenta se explicam de uma maneira satisfatória não pela leitura do texto hebraico, mas pelo fato de que nossa recensão é de origem posterior à da que ele usava” (RITTER, 1979).

Antes que alguém objete afirmando que a Tradição dos judeus palestinenses era diferente da Tradição dos judeus alexandrinos, devo lembrá-los que ambos os grupos manuseavam a versão grega da Septuaginta, portanto, possuíam a mesma Tradição Judaica.

A correspondência entre a Tradição Judaica Alexandrina e a Palestina é atestada pelo estudioso Wolfson:

“O judaísmo alexandrino, no tempo de Fílon, era do mesmo tronco do judaísmo farisaico, que então prosperava na Palestina, ambos tendo brotado daquele judaísmo macabeu [c. 165 a.C.] que fora moldado pelas atividades dos escribas” (WOLFSON, 1982).

Ainda segundo o estudioso Werner Jaeger:

“O grego era falado nas synagogai (21) por todo o Mediterrâneo, como se torna evidente pelo exemplo de Fílon de Alexandria, que não escreveu o seu grego literário para um público de gentios, mas para os seus compatriotas judeus altamente educados” (JAEGER, 1991).

Fílon de Alexandria, falava grego como era costume em seu tempo e utilizava as escrituras hebraicas através da Septuaginta. Isto era muito comum até entre os judeus da Palestina. Josefo defende os judeus de Alexandria de diversas calúnias, mostrando haver identidade entre eles e os judeus da palestina (JOSEFO, 2006, p. 96-102).

Se o cânon das Escrituras Hebraicas já estivesse fechado no tempo de Jesus, todos os judeus hoje (palestinos ou alexandrinos) observariam o mesmo conjunto de livros sagrados, e os fariseus de Jâmnia não precisariam se preocupar com isto no final do séc. I d.C.

Interessante é a constatação do estudioso Fedeli Pasquero:

“Na realidade, seguramente os judeus alexandrino no séc. I d.C. reconheciam como sagrados os livros deuterocanônicos [do AT]; não obstante a isso, eles estavam em plena comunhão de fé com os judeus da Palestina, coisa que não teria sido possível se houvesse divergências em relação aos livros sagrados. Com efeito, os doutores hebreus faziam uso de pelo menos alguns dos livros deuterocanônicos [do AT]; de modo especial, encontramos frequentemente citados Baruc, o Sirácida [Sabedoria de Siarc ou Eclesiástico], Tobias” (PASQUERO, 1986).

Sobre a possibilidade de um cânon de Escrituras hebraicas pré-definido, assim se manifesta Rost:

“[...] não havia um cânon oficial, ou, como diz a Mixná Yaddyim IV 6, não havia Ktby qds’, Escrituras sagradas, como grupo fechado. Mesmo na época em que se fixou a Mixná, por volta de 100 d.C., reinava ampla discussão entre os eruditos a respeito de saber se o Cântico dos Cântico ou o Eclesiastes de Salomão (Qohelet) faziam ou não parte do grupo, discussão esta que foi aplainada por uma sentença arbitral em favor da inclusão destes livros entre os escritos sagrados (Mixná Yadvim III 5 cd). As descobertas dos manuscritos do Mar Morto, provenientes do período que vai de 150 antes de Cristo até 70 da era cristã, em particular os que foram encontrados nas cavernas de Qumran, mostram-nos claramente que naquela época ainda não havia uma distinção rigorosa entre Escritura sagrada e menos sagrada [...] Mas o fato de um fragmento bastante extenso do Sirac hebraico, copiado em escrita esticométrica, vale dizer, executado com capricho e dispêndio de tempo, constituir um dos poucos restos de manuscritos descobertos em Masada, é prova da estiva que este escrito desfrutava no círculo dos zelotes, no correr do século I d.C” (ROST, 1980, p.13-14).

Durante a formação do Cânon Hebreu, alguns rabinos se opuseram também à inclusão do livro de Ester, conforme atesta o Prof. Samuel Sandmel (22):

“O livro de Ester, segundo os antigos rabinos, é o livro mais novo da Escritura. Houve, entre estes rabinos, quem não quisesse que ele fosse incluído na Escritura” (BIBLIA, 1974, Introduções Aos Livros Históricos, verb. Ester, xxiii).

Ainda conforme o Prof. Sandmel, a tradição rabínica quase excluiu do Cânon das Escritura Hebraicas, o livro do Profeta Ezequiel:

“O livro de Ezequiel foi julgado desapropriado para o cânon porque regulações dos capítulos 40 – 48 parecem contradizer regulações similares do Pentateuco. Como o sábio rabínico Hananias ben Ezequias foi capaz de resolver estas contradições com uma apurada interpretação, o livro salvou-se de ser abandonado juntamente com outros livros que não podiam circular publicamente” (Ibid.; Introduções Aos Livros Proféticos, xliii).

Além destes, também foram inicialmente contestados pelos rabinos, Jó (Ibid., xvii), Provérbios, Cântico dos Cânticos e Eclesiastes (Ibid., xxxi), concordando assim com o parecer de Rost.

Tudo isto mostra que realmente houve em Jâmnia um acordo entre os fariseus sobre os livros que deveriam ser considerados canônicos pelos judeus. Note o leitor que alguns livros do AT considerados canônicos por todos os cristãos, quase ficaram fora do Cânon Hebreu; livros estes que foram amplamente usados pelos antigos judeus. E se tivessem sido excluídos do Cânon Hebreu, isto significaria que jamais foram considerados canônicos antes? E os livros que os fariseus rejeitaram [os deuterocanônicos], será mesmo que não eram canônicos?



Notas

(16) Alguns autores identificam a Escola Rabínica em Jâmnia como o antigo Sinédrio (BERARDINO, 2002, verb. Jerusalém, p. 750). Entretanto há controvérsias entre os especialistas, já que o Sinédrio era predominantemente formado por Saduceus, que neste tempo foram desimados.

(17) Os judeus organizavam suas Escrituras conforme o número de letras de seu alfabeto.

(18) Na tradução original está Artajerjes (“j” no lugar do “x”), o que difere do uso comum em outras traduções. Por motivo de unidade textual mantive conforme o uso comum.

(19) Mesma razão da nota anterior.

(20) É como os Judeus chamam a Lei de Moisés.

(21) Sinagogas, onde os judeus se reuniam para o estudo das Sagradas Escrituras.

(22) Prof. de Bíblia e Literatura Helenística na Hebrew Union College, Cincinnati, Ohio - EUA.

Uma Breve Análise Sobre os Deuterocanônicos do AT

Muitos protestantes através de livros, folhetos e sítios na Internet, procuram defender sua posição contra os livros deuterocanônicos do AT, afirmando que estes livros contêm heresias. Segundo eles, (que eles chamam de apócrifos) não são livros canônicos porque ensinam as seguintes heresias:

1. perdão do pecado mediante esmolas: Dizem que Tobias 12,9; 4,10; Eclesiástico 3,33 e 2 Macabeus 43-47 ensinam que as esmolas apagam os pecados, negando então a redenção do sacrifício de Cristo e por isso não podem ser considerados canônicos. Primeiro estas referências são do AT, portanto não podem ter qualquer relação com o sacrifício de Cristo. Segundo, elas estão em plena conformidade com o AT, que ensina que o bem feito ao próximo será considerado em nosso julgamento. Este é o princípio das esmolas. E esta mesma doutrina se encontra em Prov 10, 12, por exemplo. Será que o Livro dos Provérbios não é canônico também? Em terceiro lugar, esta mesma doutrina é confirmada no NT, basta verificar Mc 9,41; Lc 11,41. Jesus confirma até mesmo o valor da esmola juntamente com outras formas de piedade (cf. Mt 6,2-18), veja também 1 Pd 4,8; At 10,3-4; 10,31.

2. a vingança e a prática do ódio contra os inimigos: Dizem que isto está em Eclo 12,6 e Judite 9,4 e contradiz ferozmente Mt 5,44-48. Mais uma vez Eclo diz respeito ao AT, onde valia a lei do retalião. Se o Livro do Eclesiástico não é canônico por esta razão, também não são Êxodo, Deuteronômio e Levítico, veja Ex 21,24; Lv 24,20; Dt 19,19-21.

3. prática do suicídio: Dizem que o ensino sobre a prática do suicido está em 2 Macabeus 14,41-42. Entretanto em Jz 16,28.30 Sansão se suicida e sua morte é tida como grandiosa pelo autor do Livro de Juízes. A Bíblia possui diversos casos de suicídio - principalmente entre guerreiros -basta ver: Jz 9,54; 16,28-29; 1Sm 31,4-5; 2Sm 17,23; 1Rs 16,18.

4. ensino de artes mágicas: Dizem que Tobias 6,8-9 favorece a prática de artes mágicas. Ora, em Tobias 8,3 vemos que não é Tobias quem expulsa o demônio, mas sim o Anjo Rafael. O interesse era ocultar a ação do Anjo para Tobias. Em Jo 9,6 vemos que Jesus reconstituiu os olhos de um cego com saliva e logo em Tg 5,14 há instruções para usar óleo na cura de enfermos; será que por isso estes livros também deixaram de ser canônicos?

5. prática da mentira: Dizem que Judite 11,13-17 e Tob 5,15-19 favorecem a prática de mentiras. Abrão disse ao rei Abimelec que Sara era sua irmã, e na verdade era sua esposa (Gn 20,2). Jacó, auxiliado pela mãe, mente ao pai cego, dizendo que era o filho mais velho e no entanto era o mais novo (cf. Gn 27,19), além de também enganar o sogro (cf. Gn 31,20). Será que o livro de Gênesis também não é canônico?

6. erros históricos e cronológicos: Dizem ainda que os livros de Baruc e Judite são cheios de contradições em relação aos protocanônicos do AT. Devemos nos lembrar que a Sagrada Escritura não é um livro histórico ou geográfico, nela Deus através das limitações humanas comunicou seus desígnios. Veja que II Reis 8,26 se contradiz com II Cro 22,2; II Reis 23,8 também se contradiz com I Cro 11,11. Isto também faz deles livros não canônicos?

Há citações dos deuterocanônicos do AT no NT?

Um grande motivo de disputa entre católicos e protestantes em relação ao Cânon Bíblico diz respeito a um conjunto de sete livros disponíveis na Septuaginta, além de acréscimos nos Livros de Daniel e Ester; e que se encontram no AT católico e ortodoxo e não no protestante. Estes livros são considerados apócrifos pelas confissões protestantes e deuterocanônicos pelas confissões católica e ortodoxa. São eles: Judite, Baruc, Sabedoria de Sirac, Eclesiástico, 1o. Macabeus, 2o. Macabeus e Tobias.

As confissões protestantes acreditam que este conjunto de livros apresenta erros doutrinários e até mesmo heresias; por isso seriam contrários à Fé Cristã. Porém, o fato do NT possuir tantas referências à versão da Septuaginta, que continha esses livros, pode ser um indício de que nem os judeus de Alexandria, nem os da Palestina, nem Jesus e nem os Apóstolos, tiveram qualquer restrição a esses livros, ou então por que usariam uma versão bíblica que continham livros heréticos?

Há ainda objeções que afirmam que nem Jesus e os Apóstolos citaram os deuterocanônicos. Ora, se este fosse um critério verdadeiro para determinar a conformidade de um livro com a Fé Cristã, estariam em não conformidade pelo menos os livros Juizes, Crônicas, Ester, Cântico dos Cânticos, que também não são citados por eles. Entretanto, não é verdade que falta no NT referências aos deuterocanônicos do AT.

Por exemplo, em Hebreus 11, somos animados a imitar os heróis do AT, “as mulheres [que] receberam a seus mortos pela ressurreição. Alguns foram torturados, recusando aceitar ser libertados, para poder levantar-se novamente a uma vida melhor” (Hb 11,35). Nos protocanônicos do AT (que corresponderia ao AT Protestante), encontramos vários exemplos de mulheres recebendo a seus mortos mediante ressurreição. Encontraremos Elias ressuscitando o filho da viúva de Sarepta em 1 Reis 17, encontraremos seu sucessor Eliseu ressuscitando o filho da mulher sunamita em 2 Reis 4. Mas jamais encontraremos (desde Gênesis até Malaquias) algum exemplo de alguém sendo torturado e recusando aceitar ser liberto, por causa de uma melhor ressurreição. A história, cuja referência é feita em Hebreus, se encontra em um dos livros deuterocanônicos, a saber, em 2 Macabeus. Vejamos:



“[durante a perseguição dos Macabeus] Também foram detidos sete irmãos, junto com sua mãe. O rei, flagelando-os com açoites e feixes de couro de boi, tratou de obrigá-los a comer carne de porco, proibida pela Lei. [...] Os outros irmãos e a mãe se animavam mutuamente a morrer com generosidade, dizendo: ‘o Senhor Deus está nos vendo e tem compaixão de nós...’ Uma vez que o primeiro morreu [...] levaram o suplicio ao segundo [...] também ele sofreu a mesma tortura que o primeiro. E quando estava por dar o último suspiro, disse: ‘Tu, malvado, nos privas da vida presente, mas o Rei do universo nos ressuscitará a uma vida eterna, se morrermos por fidelidade às suas leis’” (2 Mac 7,1.5-9)

Um após outro os filhos morrem, proclamando que serão recuperados na ressurreição. Vejamos ainda:

“Incomparavelmente admirável e digna da mais gloriosa lembrança foi aquela mãe que, vendo morrer a seus sete filhos em um só dia, suportou tudo valorosamente, graças à esperança que tinha posto no Senhor. Exortava a cada um deles, [dizendo] ‘Eu não sei como vocês apareceram em minhas entranhas; não fui eu que lhes dei o espírito e a vida nem fui eu que ordenou harmoniosamente os membros de seu corpo. Por conseguinte, é o Criador do universo, o que formou o homem em seu nascimento e determinou a origem de todas as coisas, quem lhes devolverá misericordiosamente o espírito e a vida, já que vocês se esquecem agora de si mesmos por amor à suas leis’, dizendo ao último: ‘Não temas a este verdugo: mostra-te digno de seus irmãos e aceita a morte, para que eu volte a encontrá-lo com eles no tempo da misericórdia’” (2 Mac 7,20-23.29).

Perceba o leitor que em Hb 11,35, o escritor sagrado, ao ensinar um artigo de Fé refere-se a um exemplo de testemunho, que se encontra somente em um dos livros deuterocanônicos. Ora, se por isto o livro dos Macabeus contivesse alguma doutrina estranha à fé, com toda certeza o autor da Carta aos Hebreus, evitaria mencioná-lo em sua pregação.

Esta informação possui mais um detalhe muito importante: a Carta aos Hebreus foi escrita para os judeus da Palestina, demonstrando mais uma vez que a versão da Septuaginta foi também aceita por eles; caso contrário, não faria sentido o escritor sagrado fazer referência a uma história que não era conhecida por seus destinatários.

Também é importante saber que em alguns dos livros deuterocanônicos do AT, há revelações divinas confirmadas no NT. Por exemplo:

“Quando tu oravas com lágrimas e enterravas os mortos, quando deixavas a tua refeição e ias ocultar os mortos em tua casa durante o dia, para sepultá-los quando viesse a noite, eu apresentava as tuas orações ao Senhor. Mas porque eras agradável ao Senhor, foi preciso que a tentação te provasse. Agora o Senhor enviou-me para curar-te e livrar do demônio Sara, mulher de teu filho. Eu sou o anjo Rafael, um dos sete que assistimos na presença do Senhor” (Tobias 12,12-15) (grifos meus).

Em nenhum lugar nos livros protocanônicos do AT, há alguma revelação dos 7 anjos que assistem na presença do Senhor e que Lhe entregam as orações dos justos. Esta revelação é confirmada no livro do Apocalipse:

“Eu vi os sete Anjos que assistem diante de Deus. Foram-lhes dadas sete trombetas. Adiantou-se outro anjo e pôs-se junto ao altar, com um turíbulo de ouro na mão. Foram-lhe dados muitos perfumes, para que os oferecesse com as orações de todos os santos no altar de ouro, que está adiante do trono. A fumaça dos perfumes subiu da mão do anjo com as orações dos santos, diante de Deus. Depois disso, o anjo tomou o turíbulo, encheu-o de brasas do altar e lançou-o por terra; e houve trovões, vozes, relâmpagos e terremotos” (Ap 8,2-5) (grifos meus).

Um outro caso intressante está no livro da Sabedoria:

“Ele se gaba de conhecer a Deus, e se chama a si mesmo filho do Senhor! Sua existência é uma censura às nossas idéias; basta sua vista para nos importunar. Sua vida, com efeito, não se parece com as outras, e os seus caminhos são muito diferentes. Ele nos tem por uma moeda de mau quilate, e afasta-se de nossos caminhos como de manchas. Julga feliz a morte do justo, e gloria-se de ter Deus por pai. Vejamos, pois, se suas palavras são verdadeiras, e experimentemos o que acontecerá quando da sua morte, porque, se o justo é filho de Deus, Deus o defenderá, e o tirará das mãos dos seus adversários. Provemo-lo por ultrajes e torturas, a fim de conhecer a sua doçura e estarmos cientes de sua paciência. Condenemo-lo a uma morte infame. Porque, conforme ele, Deus deve intervir” (Sabedoria 2,13-21).

A profecia acima se refere ao escárnio promovido pelo Sinédrio contra o Senhor Jesus. Veja o testemunho do NT sobre o seu cumprimento:

“A multidão conservava-se lá e observava. Os príncipes dos sacerdotes escarneciam de Jesus, dizendo: Salvou a outros, que se salve a si próprio, se é o Cristo, o escolhido de Deus! [...] Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo. [...] Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra ele: Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!” (Lc 23,35.37.39).

“Mas Jesus se calava e nada respondia. O sumo sacerdote tornou a perguntar-lhe: És tu o Cristo, o Filho de Deus bendito? [...] Alguns começaram a cuspir nele, a tapar-lhe o rosto, a dar-lhe socos e a dizer-lhe: Adivinha! Os servos igualmente davam-lhe bofetadas” (Mc 14,61.65)

“Querendo Pilatos satisfazer o povo, soltou-lhes Barrabás e entregou Jesus, depois de açoitado, para que fosse crucificado. [...] Davam-lhe na cabeça com uma vara, cuspiam nele e punham-se de joelhos como para homenageá-lo. Depois de terem escarnecido dele, tiraram-lhe a púrpura, deram-lhe de novo as vestes e conduziram-no fora para o crucificar” (Mc 15,15.19-20).

“salva-te a ti mesmo! Desce da cruz! Desta maneira, escarneciam dele também os sumos sacerdotes e os escribas, dizendo uns para os outros: Salvou a outros e a si mesmo não pode salvar! Que o Cristo, rei de Israel, desça agora da cruz, para que vejamos e creiamos! Também os que haviam sido crucificados com ele o insultavam” (Mc 15,30-31).

É importante dizer que nos protocanônicos do AT, há registro de coisas muito reprováveis, como as filhas de Lot engravidaram dele, depois de o embebedar (Gn 19,30-36). O Rei Saul consultou uma espírita (I Reis 28,8), Abraão arrumou um filho fora de seu casamento (Gn 16), e o Patriarca Jacó vários (Gn 30,4-5.7.9-10.12). Davi planejou a morte de um de seus soldados para ficar com sua esposa (cf. 2 Sm 11). Alguém poderia dizer ainda que o Livro de Gênesis promove a poligamia (cf. Gn 29,28-30) e todos os cristãos sobre a terra ainda o consideram canônico apesar disso. Portanto, se não é o juízo subjetivo e pessoal que coloca ou retira livros no Cânon Bíblico, o que é? Qual foi o juízo adotado pelos primeiros cristãos para receber ou não um livro como canônico?

O critério deles foi o mesmo dos cristãos que viveram na era apostólica quando aceitaram que a Lei de Moisés não era necessária para alcançar a Justiça (cf. At 15): o discernimento da Única e Verdadeira Igreja de Cristo.

Qual a importância dos apócrifos?

Escritos entre o período intertestamentário e os primeiros séculos do Cristianismo, os apócrifos sempre confundiram as primeiras comunidades cristãs por causa de algumas doutrinas estranhas e também por receberem autoria de personagens bíblicos famosos. Quando a Igreja resolve definir o cânon das Sagradas Escrituras, a partir do séc. IV, pouco a pouco os apócrifos vão caindo no esquecimento até desaparecerem. Contudo, nas últimas décadas têm sido descobertos diversos desses escritos que, mesmo não pertencendo à Bíblia, nos mostram as divergências da época e esclarecem detalhes não apresentados pelos livros canônicos.
INTRODUÇÃO

"Ele disse: 'Aquele que encontrar o significado destas palavras não provará a morte'". Estas palavras, escritas em tom desafiador, foram retiradas do Evangelho segundo Tomé o Dídimo, escrito gnóstico do séc. II, cujos manuscritos (datados do séc. IV) foram descobertos em 1945 em Khenoboskian (Egito), contendo 114 frases (lógios) atribuídas a Jesus.

Da mesma forma que o Evangelho de Tomé o Dídimo, a arqueologia tem descoberto nas últimas décadas diversos outros "Evangelhos" (atribuídos a Pedro, Filipe, Bartolomeu, Nicodemos, etc...) e outros escritos que poderiam ser classificados como do Novo Testamento (Atos de Pedro, Apocalipse de Paulo, etc...) ou do Antigo Testamento (Ascensão de Isaías, Segredos de Enoch, etc...). Mesmo tratando sobre intervenções e milagres divinos, feitos de personagens bíblicos e outras coisas do gênero, todos são considerados apócrifos, isto é, não são reconhecidos pela Igreja como escritos inspirados. Mas por que a Igreja, os críticos e pesquisadores não os aceitam. Por acaso a Bíblia estaria completa?

CANÔNICO X APÓCRIFO

A palavra apócrifo deriva do grego apocryphos. A princípio, significava algo oculto, secreto ou escondido, mas com o passar do tempo, passou a ter sentido de heresia ou de autênticidade duvidosa.

Ao contrário, a palavra canônico origina-se do grego kanon, significando regra ou medida. É a palavra que indica a lista dos livros inspirados por Deus, que compõem a Bíblia e são aceitos sem contestações pela Igreja.

A maioria dos livros apócrifos foram escritos por volta de 200 a.C. até 350 d.C, nos mais diversos locais: Palestina, Síria, Arábia, Egito... Em contraste com os livros canônicos, os apócrifos não eram lidos nas igrejas (e sinagogas), pois a grande maioria apresentava ensinamentos heréticos e doutrinas falsas; tinham a finalidade de defender idéias de certos grupos isolados como os gnósticos, os docetas e os judaizantes. Principalmente por não receberem crédito da Igreja oficial, os apócrifos foram desaparecendo juntamente com as seitas que os usavam e defendiam.

Uma observação importante: os livros canônicos estão classificados em protocanônicos, que são aqueles livros cuja autênticidade a Igreja jamais questionou, e deuterocanônicos, que são aqueles que foram aceitos pela Igreja após alguns debates que se prolongaram até o séc. IV (leia o meu artigo "Livros Deuterocanônicos" para um maior aprofundamento). É interessante saber que os protestantes chamam os livros deuterocanônicos de apócrifos e os livros apócrifos de pseudoepígrafos, que quer dizer falsa autoria. Saber isso é de suma importância para os católicos porque, como os livros deuterocanônicos contradizem algumas de suas doutrinas, foram retirados de suas Bíblias como se fossem falsos.

AS RECENTES DESCOBERTAS

As duas maiores descobertas de escritos apócrifos se deram em 1945, na região de Nag Hammadi (Alto Egito) e em Qumran (Palestina), nas grutas do Mar Morto, onde existia nas imediações uma comunidade de israelitas separados, conhecidos como essênios, que formavam um grupo à parte do judaísmo.

Vez ou outra escutamos alguma notícia relatando o descobrimento de algum outro escrito, mas nenhum, até o momento, foi tão significante quanto os achados de Nag Hammadi e Qumran.

A BÍBLIA ESTARIA INCOMPLETA?

É a primeira pergunta que se faz quando se faz nova descoberta de escritos antigos.

Seria um erro afirmar que a Bíblia está completa porque ela própria não fala isso em parte alguma. Muito pelo contrário, ela afirma que outros livros, inclusive cartas, foram escritos e temos duas passagens bem claras em Lucas e em Paulo:

"Muitos já tentaram compor a história do que aconteceu entre nós, assim como nos transmitiram os que foram testemunhas oculares e ministros da Palavra desde o princípio." (Lc 1,1)

"Uma vez lida esta carta entre vós, fazei com que seja lida também na Igreja de Laodicéia. E vós, lede a [carta] de Laodicéia" (Cl 4,16)

Portanto, vemos que a Bíblia não está completa e, como ela mesma não define quais os livros que são inspirados e que a formam, fica muito difícil determinar quando e como a Bíblia estará realmente completa.

A princípio, para provar que um livro apócrifo não é inspirado, é necessário primeiro ser totalmente traduzido e devidamente interpretado pelos pesquisadores e exegetas e, depois disso, demonstrar que ele contradiz alguma outra parte da Bíblia e a doutrina e tradição da Igreja.

APÓCRIFOS NA BÍBLIA?

O cânon da Bíblia é formado por 73 livros. Foi a Igreja Católica, sob a inspiração do Divino Espírito Santo, que determinou o cânon dos livros inspirados por Deus e, assim, podemos ter certeza que todos os livros da Bíblia são verdadeiramente inspirados. Mesmo assim, a Bíblia faz referências a passagens que se encontram somente em livros apócrifos. Dois bons exemplos podem ser vistos na epístola de São Judas:

"O arcanjo Miguel, quando discutia com o diabo na disputa pelo corpo de Moisés, não se atreveu a proferir um juízo de blasfêmia, mas disse-lhe: 'Que o Senhor te repreenda'" (Jd 1,9)

"É deles que Henoc, o sétimo patriarca desde Adão, profetizou dizendo: 'Eis que vem o Senhor com suas santas miríades, para exercer um juízo contra todos os ímpios por causa das impiedades que praticaram e por todas as palavras duras que os ímpios pecadores falaram contra Ele" (Jd 1,14-15)

As duas citações feitas por Judas não são encontradas na Bíblia, mas apenas em escritos apócrifos. A primeira passagem foi retirada do Livro da Assunção de Moisés que possui material herético, mas na carta de Judas possui o sentido canônico de que os homens não devem julgar, mas deixar o julgamento para Deus, como demonstrou o arcanjo Miguel ao dialogar com o diabo. A segunda passagem foi retirada do Livro de Henoc e ensina, conforme os livros canônicos, que Cristo voltará como juiz supremo para julgar todos os homens. Portanto, como a carta de São Judas não contradiz os outros livros da Bíblia e concorda plenamente com a ortodoxia da Igreja, logo é também um livro canônico, mesmo citando trechos de livros apócrifos na intenção de ensinar a verdadeira doutrina.

CLASSIFICAÇÃO DOS APÓCRIFOS

Assim como os livros canônicos estão classificados pelo gênero literário, também os apócrifos podem ser classificados segundo seu gênero. Já dissemos que os apócrifos foram escritos entre 200 a.C. e 350 d.C. e que eles podem ser distinguidos como pertencentes ao Antigo ou ao Novo Testamento.

Assim, os livros do Antigo Testamento podem ser classificados em:

Históricos: são os que pretendem contar certos fatos históricos sobre o povo eleito, a grande maioria expressando a esperança da vinda do Messias prometido.
Proféticos: são aqueles que falam dos acontecimentos que devem acontecer num futuro eminente ou no fim dos tempos (apocalípticos).
Exortativos: são os que falam sobre a sabedoria e dão bons conselhos.
Já os livros do Novo Testamento podem ser assim classificados:
Evangelhos: são os escritos que falam unicamente sobre a vida, as obras e os ensinamentos de Jesus Cristo.
Atos: são os que se dedicam a falar sobre os fatos, as obras e os ensinamentos de um ou mais apóstolos na missão de pregar o Evangelho.
Epístolas: são escritos atribuídos ao próprio punho dos apóstolos.
Proféticos: são apocalipses que narram os últimos acontecimentos, o juízo final e o triunfo de Cristo.
VALOR DOS APÓCRIFOS

Se, por um lado, os apócrifos não possuem a verdadeira doutrina de Cristo e de sua Igreja, por outro lado têm grande valor histórico pois demonstram as correntes ideológicas (religiosas e morais) do período em que foram escritos.

Os apócrifos do Novo Testamento apresentam diversos aspectos da era pós-Cristo. Algumas idéias são conformes com o reto ensinamento da Igreja como, por exemplo, a virgindade e a assunção de Maria, a descida de Cristo aos Infernos e a divindade de Jesus. Outros esclarecem pequenos detalhes que não foram abordados pelos Evangelhos canônicos, como o nome e número dos reis magos, os nomes dos pais de Maria, o nome do soldado que traspassou a lança em Jesus, a morte de São José na presença de Jesus, a apresentação de Maria no Templo de Jerusalém e a sua morte assistida pelos apóstolos, alguns outros milagres de Jesus, etc...

ALGUNS APÓCRIFOS

Do Antigo Testamento:

Livro dos Jubileus, Livro de Adão e Eva, Salmos de Salomão, Terceiro Livro dos Macabeus, Quarto Livro dos Macabeus, Apocalipse de Baruc, Ascensão de Isaías, Assunção de Moisés, etc...

Do Novo Testamento:

Evangelho de Pedro, Evangelho de Tomé o Dídimo, Evangelho de Filipe, Evangelho dos Hebreus, Atos de Tomé, Atos de Paulo e Tecla, Carta dos Apóstolos, Apocalipse de Paulo, Proto-Evangelho de Tiago, etc...

Onde está a Referência?

Cristãos Bíblicos, aqueles que acreditam em Sola Scriptura, ensinam que a Bíblia é completa e que ela é a única coisa necessária. Eles ensinam que todas as respostas são dadas pela Escritura. Desejo desmentir esta idéia mostrando que há muitas perguntas feitas na Escritura que não são respondidas na mesma. Então aonde devemos ir para encontrar aquelas respostas a fim de ter a verdade em plenitude e não só uma parte dela?



Mateus 11,21: "Ai de ti, Corozaim...Porque se tivessem sido feitos em Tiro e Sidônia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas se teriam arrependido sob o cilício e a cinza."

Onde estão estes milagres em Corozaim? Onde está a referência?



Mateus 23,2: "Os Escribas e os Fariseus sentaram-se na cadeira de Moisés."

Onde é que a Escritura se refere a esta "cadeira de Moisés"?



1Coríntios 10,4: "Todos beberam da mesma bebida espiritual pois todos bebiam da pedra espiritual que os seguia; e essa pedra era Cristo."

Onde está a referência a esta "pedra que os seguia"?



Atos 20,35: "Em tudo vos tenho mostrado que assim, trabalhando, convém acudir os fracos e LEMBRAR-SE das palavras do Senhor Jesus, porquanto Ele mesmo disse: "É maior felicidade dar que receber."

Mostre-me o versículo no qual Jesus disse estas palavras.



Mateus 2,23: "E Ele veio habitar na cidade de Nazaré para que se cumprisse o que foi dito pelos profetas: Será chamado Nazareno."

Em qual versículo os profetas dizem isto?



Tiago 4,5: "Ou imaginais que em vão diz a Escritura: "Sois amados até o ciúme pelo Espírito que habita em vós?"

Aonde a Escritura se refere a isto?



2Timóteo 3,8: "Como Janes e Jambres resistiram a Moisés, assim também estes, homens de coração pervertido, reprovados na fé, tentam resistir à verdade..."

Quem são Janes e Jambres? Onde está a referência? Se você sabe, de que maneira descobriu isto?



Hebreus 11,35: "Devolveram vivos às suas mães os filhos mortos. Alguns foram torturados, por recusarem ser libertados, movidos pela esperança de uma ressurreição mais gloriosa."

Quem são estes "outros", os que esperavam uma ressurreição mais gloriosa? Onde está a referência Bíblica?



Tiago 5,17: "Elias era um homem pobre como nós e orou com fervor para que não chovesse sobre a terra, e por três anos e seis meses não choveu."

Em que lugar da Escritura está dito que Elias "orou com fervor" para que não chovesse?



Judas 1,9: "Ora, quando o arcanjo Miguel discutia com o demônio e lhe disputava o corpo de Moisés..."

Onde podemos encontrar esta "disputa" na Sagrada Escritura?



Judas 1,14: "Também Enoc, que foi o oitavo patriarca depois de Adão, profetizou a respeito deles, dizendo: "Eis que veio o Senhor entre milhares de Seus santos.'"

Onde está esta profecia na Escritura? Onde está a referência?



Já que os Protestantes estão ligados à Escritura e somente à Escritura (Sola Scriptura), eles não têm o privilégio de responder a nenhum desses exemplos que mostrei aqui. Entretando, as respostas são encontradas pelos Católicos através da tradição, nos 7 livros que o Protestantismo removeu da Bíblia Sagrada, e nos livros Apócrifos. Os Católicos têm a plenitude da verdade. Eles têm todas as peças do quebra-cabeças. Falta ao Protestantismo muitas peças no quebra-cabeças da história da salvação de DEUS. Enquanto se agarrarem à falsa doutrina da sola scriptura, nunca verão a figura por inteiro. Eles nunca terão a verdade em plenitude.

Criação e Gênesis

Os fundamentalistas costumam fazer um teste de ortodoxia cristã sobre acreditar que o mundo foi criado em seis dias de 24 horas e que outras interpretações de Gênesis 1 não são possíveis. Eles afirmam que, até recentemente, essa visão do Gênesis foi a única aceitável - de fato, a única que havia.



Os escritos dos Padres, que eram muito mais próximos do que nós no tempo e cultura do público original do Gênesis, mostram que esse não era o caso. Houve grande variação de opinião sobre quanto tempo levou a criação. Alguns disseram que apenas alguns dias, outros argumentaram por um período muito mais longo, por tempo indeterminado. Aqueles que tomaram a última visão apelaram para o fato "de que com o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos como um dia" (II Pe 3:8; cf. Sl 90:4), que a luz foi criada no primeiro dia, mas o sol não foi criado até o quarto dia (Gn 1:3, 16), e que foi dito a Adão que ele iria morrer no mesmo "dia" enquanto comia da árvore, mas ele viveu até os 930 anos de idade (Gn 2:17, 5:5).



Os católicos têm a liberdade para acreditar que a criação teve alguns dias ou um período muito mais longo, segundo a maneira como eles veem a evidência, e estão sujeitos a qualquer julgamento futuro da Igreja (Encíclica Humani Generis 36-37,1950, de Pio XII). Eles não precisam ser hostis à cosmologia moderna. O Catecismo da Igreja Católica afirma: "Muitos estudos científicos... enriqueceram esplendidamente o nosso conhecimento sobre a idade e as dimensões do cosmo, o desenvolvimento de formas de vida, e o aparecimento do homem. Estes estudos nos convidam a uma maior admiração pela grandeza do Criador." (CIC 283). Ainda assim, a ciência tem seus limites (CCC 284, 2293-4). As seguintes citações dos Padres mostram como eram amplamente divergentes as visões dos primeiros cristãos.



Justino Mártir



"Porque, como foi dito a Adão que no dia em que ele comesse da árvore ele iria morrer, sabemos que ele não completou mil anos [Gn 5:05]. Percebemos, ainda, que a expressão "O dia do Senhor é como mil anos" [Sl 90:4] está relacionada a este assunto." (Diálogo com o judeu Trifão 81 [155 d.C.]).



Teófilo de Antioquia



"No quarto dia, os luzeiros vieram à existência. Visto que Deus tem presciência, ele entendeu o absurdo dos filósofos tolos que iam dizer que as coisas produzidas na terra vêm das estrelas, de modo que eles pudessem pôr Deus de lado. Portanto, a fim de que a verdade pudesse ser demonstrada, plantas e sementes surgiram antes das estrelas. Pois o que passa a existir mais tarde não pode causar o que é anterior a si." (Para Autólico 2:15 [181 d.C.]).



"Todos os anos a partir da criação do mundo [ao tempo de Teófilo] quantidade a um total de 5.698 anos e meses e dias ímpares... Ainda que um erro cronológico tenha sido cometido por nós, por exemplo, de 50 ou 100 ou até 200 anos, não houve milhares e dezenas de milhares, como Platão e Apolônio e outros autores mentirosos escreveram até agora. E, talvez, o nosso conhecimento de todo o número dos anos não seja muito preciso, porque os meses e dias ímpares não estão estabelecidos nos livros sagrados." (Ibid., 3:28-29).



Irineu



"E há alguns, mais uma vez, que relegam a morte de Adão até o ano milésimo, pois uma vez que "um dia do Senhor é de mil anos", ele não ultrapassou os mil anos, mas morreu dentro de si, corroborando, portanto, a sentença de seu pecado" (Contra as Heresias 5:23:2 [189 d.C.]).



Clemente de Alexandria



"E como poderia a criação ocorrer no tempo, vendo que o tempo nasceu junto com as coisas que existem?... Isso, então, podemos ser ensinados que o mundo se originou e não suponha que Deus o fez no tempo, a profecia acrescenta: "Este é o livro da geração, também das coisas em si mesmas, quando foram criados, no dia em que Deus fez o céu e a terra." [Gn 2:04].



Pois a expressão 'quando foram criados' sugere uma produção indefinida e sem data. Mas a expressão "no dia em que Deus os fez", isto é, em e por que Deus fez "todas as coisas" e "sem que nem mesmo uma coisa foi feita", aponta a atividade exercida pelo Filho." (Miscelâneas 6:16 [208 d.C.]).



Orígenes



"Pois quem tem entendimento vai supor que o primeiro e o segundo e terceiro dia existiram sem o sol e a lua e as estrelas, e que o primeiro dia foi, por assim dizer, também sem um céu?... Eu não suponho que alguém duvide que essas coisas indicam figurativamente certos mistérios, sendo que a história ocorreu em aparência e não literalmente." (As Doutrinas Fundamentais 4:1:16 [225 d.C.]).



"O texto diz que "houve a tarde e a manhã", não disse "o primeiro dia", mas disse que "um dia." É porque ainda não havia tempo antes que o mundo existisse. Mas o tempo começa a existir com os seguintes dias" (Homilias sobre o Gênesis [234 d.C.]).



"E uma vez que ele [o pagão Celso] faz as declarações sobre os "dias da criação", fundamento da acusação, como se ele os entendesse clara e corretamente, algumas das quais decorreu antes da criação da luz e do céu, o sol e a lua e as estrelas, e alguns deles após a criação destes, só devemos fazer esta observação, que Moisés deve ter esquecido que ele tinha dito um pouco antes", que em seis dias a criação do mundo tinha sido acabada" e que, em consequência deste ato do esquecimento ele acrescente a estas palavras o seguinte: "Este é o livro da criação do homem no dia em que Deus fez o céu e a terra [Gn 2:4]'" (Contra Celso 6:51 [248 d.C.]).



"E no que diz respeito à criação da luz no primeiro dia... e das [grandes] luzes e estrelas sobre o quarto... temos tratado com o melhor de nossa capacidade em nossas notas sobre o Gênesis, bem como nas páginas anteriores, quando encontramos a falha com aqueles que, tomando as palavras em seu significado aparente, disseram que o tempo de seis dias foi ocupado na criação do mundo" (ibid., 6:60).



"Pois ele [o pagão Celso] não sabe nada sobre o dia do sábado, e o descanso de Deus, que segue a conclusão da criação do mundo, e que dura durante a duração do mundo, e no qual todos aqueles manterão o festival com Deus, que tem feito todo o seu trabalho em seus seis dias." (ibid., 6:61).



Cipriano



"Os sete primeiros dias no arranjo divino contêm sete mil anos" (Tratados 11:11 [250 d.C.]).



Vitorino



"Deus produziu toda a massa para o adorno de sua majestade em seis dias. No sétimo dia, ele consagrou com uma bênção." (Sobre a Criação do Mundo [280 d.C.]).



Lactâncio



"Portanto, que os filósofos, que enumeram milhares de eras desde o início do mundo, saibam que o ano 6.000 ainda não está completo... Portanto, uma vez que todas as obras de Deus foram concluídas em seis dias, o mundo deve continuar em seu estado atual através de seis eras, ou seja, seis mil anos. Pois o grande dia de Deus é limitado por um círculo de mil anos, como mostra o profeta, que diz: "Na tua face, Senhor, mil anos são como um dia [Sl 90:4]'"(Institutos Divinos 7:14 [307 d.C.]).



Basílio Magno



"E foi a tarde e a manhã, o primeiro dia." Por que ele disse 'um' e não 'primeiro'?... Ele disse 'um', porque ele estava definindo a medida de dia e noite... dado que 24 horas preenchem o intervalo de um dia." (Os Seis Dias de Trabalho 1:1-2 [370 d.C.]).



Ambrósio de Milão



"A Escritura estabeleceu uma lei de que a 24 horas, incluindo o dia e a noite, deve ser dado o nome do único dia, como se fosse para dizer o comprimento de um dia é de 24 horas de extensão... As noites neste cálculo são consideradas partes componentes dos dias que são contados. Portanto, assim como há uma única revolução do tempo, há apenas um dia. Há muitos que chamam mesmo uma semana de um dia, porque ela retorna a si mesma, assim como um dia faz, e pode-se dizer que sete tempos giram sobre si mesmos." (Hexamerão [393 d.C.]).



Agostinho



"Não raro acontece que algo sobre a terra, sobre o céu, sobre outros elementos deste mundo, sobre o movimento e rotação ou até mesmo a magnitude e as distâncias das estrelas, sobre eclipses definitivos do sol e da lua, sobre a passagem do anos e estações, sobre a natureza dos animais, de frutas, de pedras, e de outras coisas parecidas, possa ser conhecido com a maior certeza pelo raciocínio ou pela experiência, até mesmo por quem não é cristão. É muito vergonhoso e desastroso, porém, e muito digno de ser evitado, que ele [o não cristão] deva ouvir um cristão falar tão estupidamente sobre estas questões, e como se de acordo com escritos cristãos, para que pudesse dizer que ele mal poderia rir quando viu como totalmente em erro eles estão. Em vista disso e em mantê-lo em mente constantemente ao lidar com o livro de Gênesis, eu expliquei, na medida em que eu era capaz, em detalhes e estabeleci para consideração os significados das passagens obscuras, tomando cuidado para não afirmar precipitadamente um significado em prejuízo de outro e talvez melhor explicação" (A Interpretação Literal do Gênesis 1:19-20 [408 d.C.]).



"Com as escrituras, é uma questão de tratar sobre a fé. Por essa razão, como já observei várias vezes, se alguém, sem entender o modo de eloqüência divina, encontrar alguma coisa sobre estas questões [sobre o universo físico] em nossos livros, ou ouvir o mesmo desses livros, de tal natureza que pareça estar em desacordo com as percepções de suas próprias faculdades racionais, que ele acredite que essas outras coisas não são de modo algum necessárias às admoestações ou contas ou previsões das escrituras. Em suma, deve-se dizer que os nossos autores sabiam a verdade sobre a natureza dos céus, mas não foi a intenção do Espírito de Deus, que falou através deles, ensinar aos homens tudo o que não seria de utilidade para eles para sua salvação" (ibid., 2:9).



"Sete dias por nosso cálculo, segundo o modelo dos dias da criação, perfazem uma semana. Pela passagem de tais semanas o tempo passa, e nestas semanas um dia é constituído pelo curso do sol a partir da sua ascensão à sua configuração, mas devemos ter em mente que esses dias de fato recordam os dias da criação, mas sem ser de forma alguma realmente semelhante a eles." (ibid., 4:27).



"Pelo menos sabemos que ele [o dia da criação do Gênesis] é diferente do dia comum com o qual estamos familiarizados." (ibid., 5:2).



"Porque nesses dias [de criação] a manhã e a noite são contadas até que, no sexto dia, todas as coisas que Deus então fez foram terminadas, e no sétimo no repouso de Deus foi misteriosamente e sublimemente sinalizado. Que tipo de dias esses foram é extremamente difícil ou talvez impossível para nós conceber, e quanto mais a dizer!" (A Cidade de Deus 11:06 [419 d.C.]).



"Nós vemos que os nossos dias normais não têm noite, mas pela fixação [do Sol] e não da manhã, mas pelo nascer do sol, mas os três primeiros dias de todos foram passados sem sol, uma vez que é relatado ter sido feito no quarto dia. E antes de tudo, na verdade, a luz foi feita pela palavra de Deus, e Deus, lemos, separou da escuridão e chamou a luz "dia" e às trevas "noite", mas que tipo de luz que era, e por qual movimento periódico fez tarde e manhã, está além do alcance dos nossos sentidos, nem podemos entender como ele era e no entanto devemos acreditar sem hesitação." (ibid., 11:7).



"Eles [os pagãos] são enganados, também, por esses documentos altamente mentirosos que professam dar a história do [homem] como a de muitos milhares de anos, embora calculando pelos escritos sagrados, descobrimos que 6.000 anos ainda não se passaram" (ibid., 12:10).