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Maria na reforma protestante

Os Reformadores conservaram muitos pontos da tradição Mariana; pontos que as gerações seguintes foram pondo de lado. Lutero, por exemplo, não negou a virgindade perpétua de Maria, mas julgava que ninguém está obrigado a aceitá-la como artigo de fé. Não hesitava em dizer que a expressão “irmãos de Jesus” deve ser entendida no sentido semita; este atribuía a irmãos o significado de “parente, familiar”; para o confirmar, Lutero apelava para a significação ampla da palavra grega adelphoi na tradução dos LXX.
Lutero também admitia a imaculada conceição de Maria, devida à prévia aplicação dos méritos de Cristo. Quanto a Assunção corporal, o reformador não ousava professá-la explicitamente, mas não excluía que o corpo de Maria tenha sido levado pelos anjos dos céus. No calendário Luterano ficaram três festas Marianas, que têm base no Novo Testamento e estão muito ligadas a Cristo: a Anunciação ou festa da Encarnação, a Visitação de Maria a Isabel ou festa da vinda de Cristo, e a Purificação de Maria aos quarenta dias após o parto, também tida como festa da Apresentação de Jesus no Templo.
Calvino foi mais radical. Suprimiu as festas Marianas, aceita o título “Mãe de Deus” definido pelo Concílio de Éfeso em 431 mas prefere a expressão “Mãe de Cristo”. Sustenta a perpétua virgindade de Maria, afirmando que “os irmãos de Jesus” citados em (Mateus 13,55) não são filhos de Maria, e sim parentes. Professar o contrário, segundo Calvino, significa “ignorância”, louca sutileza e “abuso da Sagrada Escritura”.
Zuínglio, o reformador em Zurich, conservou três festas Marianas e a recitação da Ave Maria durante o culto sagrado. É interessante notar que Lutero, Calvino e Zuínglio, autores da Reforma protestante no século XVI, deixaram belas expressões de estima e louvor a Maria Santíssima. Martinho Lutero em seu comentário sobre o Magnificat (Lucas 1,46 – 55) escreve: “Ó bem-aventurada Mãe, Virgem digníssima, recorda-te de nós e obtém que também em nós o Senhor faça essas grandes coisas”.
Ao referir-se a (Mateus 1,25) observa: “Destas palavras não se pode concluir que, após o parto, Maria tenha tido consórcio conjugal. Não se deve crer nem dizer isto” (Obras de Lutero, edição Weimar, tomo 11 pg. 323).
Disse ainda: “Os irmãos de Jesus, mencionados no Evangelho, são parentes do Senhor” (Edição Weimar, tomo 46 pg. 723, Tischreden 5, nº 5839). O Reformador prometia cem moedas de ouro aquem lhe provasse que a palavra almah em (Isaías 7,14) não significa virgem (Edição Weimar, tomo 53, pg. 640)
No fim de sua vida, aos 17/01/1546, Lutero exclamou num sermão muito agitado: “Não se deve adorar somente a Cristo? Mas não se deve honrar também a Santa Mãe de Deus? Esta é a mulher que esmagou a cabeça da serpente. Ouve-nos, pois o Filho te honra; Ele nada te nega”. Vê-se que até os últimos dias Lutero guardou devoção à Maria.
No tocante às imagens, Lutero não as proibia; afirmava que as proibições feitas no Antigo Testamento não afetavam os Cristãos ( Edição Weimar, tomo 7 pg. 440 – 445). Considerava as imagens como a Bíblia dos pobres e iletrados.
SOBRE A VIRGINDADE DE MARIA
Os Artigos da “doutrina Cristã” elaborados por Lutero em 1537 professam: “O Filho de Deus faz-se homem, de modo a ser concebido do Espírito Santo sem o concurso de varão e a nascer de Maria pura, Santa e sempre virgem”.
Calvino publicou em 1542 o “Catecismo da Igreja de Genebra”, onde se lê: “O Filho de Deus foi formado no seio da Virgem Maria…Isto aconteceu por ação milagrosa do Espírito Santo sem consórcio de varão”.
Zwingli por sua vez, escreveu:”Firmemente creio, segundo as palavras do Evangelho, que Maria, como virgem pura, nos gerou o Filho de Deus e que no parto e após o parto permaneceu para sempre virgem pura e íntegra” (Corpus Reformatorum: Zwingli Opera 1 424)
Declarou ainda: “Estimo grandemente a Mãe de Deus, a virgem Maria perpetuamente casta e imaculada” (ZO 2,189). Os “irmãos do Senhor” eram, para Zwínglio, “os amigos do Senhor” (ZO 1,401). Podemos observar que até mesmo o Corão de Maomé, que reproduz certas proposições do Cristianismo, professa a virgindade de Maria (cf. Sura 19).
OUTRAS PALAVRAS DOS REFORMADORES
Amman, discípulo e contemporâneo de Zwínglio, declarou: “Maria foi preservada de toda mancha e culpa do pecado original, do pecado mortal e do pecado atual”.
Heinrich Bullinger, sucessor de Zwínglio, testemunhou: “Cremos que o corpo puríssimo da Virgem Maria, Mãe de Deus e templo do Espírito Santo…foi levado pelos anjos ao céu”.
Lutero escreveu: “Não há honra, nem beatitude, que sequer se aproxime por sua elevação da incomparável prerrogativa superior a todas as outras, de ser a única pessoa humana que teve um filho em comum com o Pai Celeste”. (Deustsche Schriften, 14,250).
Calvino escreveu: “Não podemos reconhecer as bençãos que nos trouxe Jesus, sem reconhecer ao mesmo tempo quão imensamente Deus honrou e enriqueceu Maria, ao escolhê-la para ser mãe de Deus”.(Comm.Sur I`harm.Evang.20)
Zwínglio: “Quanto mais crescem a honra e o amor de Cristo entre os homens, tanto mais crescem também a estima e a honra de Maria, que gerou para nós um tão grande e propício Senhor e Redentor” (ZO 1,427s).
CONCLUSÃO
Como se vê, os mestres da Reforma foram muito mais fiéis a Maria do que seus discípulos. Estes testemunhos, aos quais outros se poderiam acrescentar, dão suficientemente a ver como a crença em Maria ocupa lugar eminente no conjunto das verdades que a fé cristã sempre professou.
Fonte: Escola Mater Ecclesiae

A Compaixão de Deus e a Compaixão de Maria.

Maria no mistério da cruz e da ressureição. Uma breve meditação de Joseph Ratzinger- Papa Emérito Bento XVI- no livro “Maria, a Igreja nascente” de grande interesse teológico e espiritual.
A passagem começa meditando as palavras do velho Simeão: “Ele será motivo de queda e elevação de muitos em Israel, e será sinal de contradição… quanto a ti, uma espada te atravessará a alma” (Lucas 2,34).
A espada atravessará seu coração: isso faz referencia á Paixão de seu Filho, que se tornará também a Paixão da Mãe. Essa paixão já começa na visita ao templo: Maria deve aceitar a vontade do Pai, deve aprender a deixar livre aquele que Ela deu a luz.
Deve levar até o fim o “sim” dito para fazer a vontade de Deus que a tornou Mãe de seu Filho: se retirar e coloca-lo em liberdade para a sua missão. Do inicio da vida pública de Jesus até sua Paixão, foi dado um passo importante que será consumido na cruz com as palavras “Eis aí o teu filho”: desse momento em diante, seu filho já não é somente Jesus, mas também o discípulo. A aceitação e a disponibilidade é o primeiro passo que se exige dela, o deixar e dar a liberdade é o segundo. Só aqui se faz completa a sua maternidade: “Bendito o seio que te criou” só se faz verdadeiro quando se trona parte de outra bem aventurança. “Mais benditos são os que ouvem a Palavra de Deus e as guardam” (Lucas 11,27).
Assim, Maria está preparada para o mistério da cruz, que não termina simplesmente no Gólgota. Seu Filho continua sendo sinal de contradição, e assim ela segue submersa na dor da tal contradição, na dor da maternidade messiânica.
Especialmente querida para a piedade cristã, ele se tornou de modo preciso a imagem da Mãe sofredora, convertida totalmente em compaixão, com seu Filho morto em seus braços. Na Mãe que compadece, encontramos nos sofrimentos de todos os tempos o reflexo mais puro de compaixão divina que é o único consolo verdadeiro. Pois toda dor, todo padecer é, em sua ultima essência, isolamento, perca de amor, algo que não está bem e alguém que não se aceita. Só o “com” pode curar a dor.
Em Bernardo de Claraval se encontra esta palavra maravilhosa: Deus não pode padecer, mas pode compadecer (1). Bernardo coloca um certo ponto final á disputa dos Padres acerca da novidade do conceito do cristão de Deus. No pensamento antigo, a essência de Deus pertencia a impassibilidade da pura razão. Para os Padres era difícil rejeitar esta ideia e conceber alguma “paixão” de Deus, mas pela Bíblia vinham, perfeitamente, porem, que a “revelação da Bíblia” “faz estremecer… [tudo] o que o mundo havia pensado sobre Deus”. Viam que em Deus há uma paixão muito intima que inclusive é a sua essência genuína: o amor. E porque ama o padecimento não Lhe é distante na sua forma de compaixão. “Em seu amor ao homem, o Impassível sofreu a compaixão misericordiosa”, escreve Orígenes a esse respeito (2). Se poderia dizer que a cruz de Cristo é a compaixão de Deus pelo mundo. No Antigo Testamento Hebreu, o compadecer de Deus não se expressa como um âmbito psicológico, mas também corresponde à modalidade correta do pensamento semítico, se designa como um vocábulo que em seu significado básico denota um órgão corporal, a saber «rahamim», que no singular significa o claustro do seio materno. O mesmo que “coração” equivale a sentimento, e “lombos” e “rins”, ao desejo e a dor, assim o seio materno se converte na palavra que denota a solidariedade com o outro, em referencia muita profunda á faculdade do ser humano existir para o outro, se assumir-se em si mesmo, de suportar-se e suportando-se, lhe dar a vida. O Antigo Testamento nos diz, com uma palavra de linguagem do corpo, como Deus nos contem em si, nos leva em si com um amor que compadece (3).
As línguas nas quais o Evangelho entrou no mundo pagão, não eram conhecidas por eles em sua forma de expressão.  Mas a imagem da Pietá, a Mãe que padece pelo Filho morto, se tornou a tradução viva dessa palavra: nela fica patente o padecer materno de Deus. Nela se fez visível, tangível. Ela é a “compaixão” de Deus, representada por um ser humano que se deixou implicar plenamente no mistério de Deus. Mas, visto que a vida humana é em todos os tempos padecer, a imagem da Mãe que padece, a imagem dos «rahamim» de Deus, chegou a ser muito importante para a cristandade.
Só nela tem fim a imagem da cruz, porque Ela é a cruz assumida, que se partilha em amor, aquela que nos permite experimentar em sua compaixão a compaixão de Deus. Assim, a dor da Mãe é a dor pascal que manifesta a transformação da morte em solidariedade redentora do amor.
Assim, só aparentemente nos teríamos afastado do “Alegra-te” com o qual começa a história de Maria. Pois a alegria que lhe foi anunciada não é a alegria banal que se concreta no esquecimento do abismo do nosso ser, e por isso, está condenada a cair no vazio. É a verdadeira alegria que nos faz arriscar sair do amor para adentrar no interior ardente da santidade de Deus. Essa é a verdadeira alegria, que com a dor não se destrói, mas sim, chega a sua maturidade. Só a alegria que se mantem firme entre a dor e é mais forte que a dor é a verdadeira alegria.
 (1) “In Cant ‘s. 26, n. 5, PL 183, 906: “impassibilis est Deus, sed non incompassibilis”. Cf. H. de Lubac, “Geist aus der Geschichte. Das Schriftverständnis des Origens, Einsiedeln 1968 (original em francês 1950), p. 285. O capítulo inteiro “Veja Gott des Origens ‘, p. 269-289, é importante para este problema. H. U. von Balthasar tentou adjacente repetidamente esta questão da “dor de Deus” last in: ID 5, “The Last Act”, Madrid, 1997, p. 210-243).
(2) H. de Lubac, op. cit., p. 286.
(3) Por isso, é importante ver a nota 52 da encíclica do grande João Paulo II “Dives in Misericordia” (Sobre a misericórdia divina) Ver também nota 61.

Traduzido por Tiago Rodrigo da Silva – Apostolado Spiritus Paraclitus, do original em espanhol “COM-PASIÓN DE DIOS COM-PASIÓN DE MARÍA” da web site arvo.net.

Onde nasceu Nossa Senhora?

Essa pergunta, versando sobre tema muito caro aos católicos, por diversas razões não encontra fácil resposta. A natividade da Virgem Santíssima é comemorada no dia 8 de setembro.



Para entender a escassez de informações nos primeiros séculos da Igreja, sobre a vida de Nossa Senhora, convém levar em conta as particularidades daquela época.


O mundo pagão, por efeito da decadência em que se encontrava, era politeísta, ou seja, os homens adoravam simultaneamente vários deuses. Os pagãos não achavam ilógico nem absurdo que houvesse várias divindades, ou que elas não fossem perfeitas. Pior ainda. Consideravam normal que os deuses dessem exemplo de devassidão moral, sendo, por exemplo, adúlteros, ladrões ou bêbados. Obviamente, nem todos os deuses eram apresentados como subjugados por esses vícios, mas o fato de haver vários deles nessas condições tornava imensamente árduo para os pagãos entender a noção católica do verdadeiro e único Deus, de perfeição infinita.


Por isso a primitiva Igreja teve muito cuidado ao apresentar Nossa Senhora como Mãe de Deus, pois aqueles povos, com forte influência do paganismo, rapidamente tenderiam a transformá-la numa deusa. Somente após a queda do Império Romano do Ocidente e a sucessiva cristianização dos povos começou a Igreja ? que nunca negou a importância fundamental da Virgem Santíssima na história da salvação ? a colocar Nossa Senhora na evidência que lhe compete e a exaltar suas maravilhas. E com isso, a fazer um bem indescritível às almas dos fiéis.


É fácil compreender por que nesse longo período, cerca de 400 anos, muitas informações a respeito da Santíssima Virgem tenham se perdido e outras se encontrem em fontes não inteiramente confiáveis. Não obstante, a Tradição da Igreja conservou fielmente aqueles atributos d?Ela que eram necessários para a integridade da fé dos católicos. O essencial foi transmitido, e, para um filho que ama sua Mãe, qualquer dado a respeito d?Ela é importante.


Entre esses dados, sobre os quais um véu de mistério permaneceu, está o local em que nasceu Nossa Senhora.


Belém, Seforis, ou Jerusalém


Três cidades disputam a honra de ter sido o local de nascimento da Mãe de Deus.(1)


A primeira é Belém. Deve-se essa tradição ao fato de Nossa Senhora ser de estirpe real, da casa de Davi. Sendo Belém a cidade de Davi, foi essa a razão pela qual São José e a Virgem Santíssima ? ambos descendentes do Profeta-Rei ? dirigiram-se àquela localidade, por ocasião do censo romano que ordenava a todos registrarem-se no lugar originário de suas famílias. Por isso, o Menino Jesus nasceu em Belém, e é aclamado, no Evangelho, como Filho de Davi. O principal argumento dos que sustentam a tese de que Nossa Senhora nasceu em Belém encontra-se num documento intitulado De Nativitate S. Mariae, incluído na continuação das obras de São Jerônimo.


Outra tradição assinala a pequena localidade de Seforis, poucos quilômetros ao norte de Belém, como o local do nascimento da Virgem. Tal opinião tem como base que, já na época do Imperador Constantino, no início do século IV, foi construída uma igreja nessa localidade para celebrar o fato de ali terem residido São Joaquim e Santa Ana, pais de Nossa Senhora. Santo Epifânio menciona tal santuário. Os defensores de outras hipóteses assinalam que o fato de os genitores da Virgem Santíssima terem morado lá não indica necessariamente que Nossa Senhora haja nascido naquela localidade.


A hipótese que congrega maior número de adeptos é a de que Ela nasceu em Jerusalém. São Sofrônio, Patriarca de Jerusalém (634-638), escrevendo no ano 603, afirma claramente ser aquela a cidade natal de Maria Santíssima.(2) São João Damasceno defende a mesma posição.


A festa da Natividade


Na Igreja católica celebramos numerosas festas de santos. Havendo, felizmente, milhares de santos, comemoram-se milhares de festas. Ocorre que não se celebra a data de nascimento do santo, mas sim a de sua morte ? correspondendo ao dia da entrada dele na vida eterna. Somente em três casos comemoram-se as festas no dia do nascimento: Nosso Senhor Jesus Cristo (Natal); o nascimento de São João Batista; e a natividade da Santíssima Virgem.


A festa da Natividade era celebrada no Oriente católico muito antes de ser instituída no Ocidente. Segundo uma bela tradição, tal festa teve início quando São Maurílio a introduziu na diocese de Angers, na França, em conseqüência de uma revelação, no ano 430. Um senhor de Angers encontrava-se na pradaria de Marillais, na noite de 8 de setembro daquele ano, quando ouviu os anjos cantando no Céu. Perguntou-lhes qual o motivo do cântico. Responderam-lhe que cantavam em razão de sua alegria pelo nascimento de Nossa Senhora durante a noite daquele dia.(3)


Em Roma, já no século VII, encontra-se o registro da comemoração de tal festa. O Papa Sérgio tornou-a solene, mediante uma grande procissão.


Posteriormente, Fulberto, Bispo de Chartres, muito contribuiu para a difusão dessa data em toda a França. Finalmente, o Papa Inocêncio IV, em 1245, durante o Concilio de Lyon, estendeu a festividade para toda a Igreja.


Comemoração na atualidade


Por uma série de motivos curiosos, a festa da Natividade é celebrada muito especialmente na Itália e em Malta. Sendo o povo italiano muito vivo e propenso a celebrações familiares, não surpreende esse fato.


Em Malta, a principal comemoração da festa consiste numa solene procissão na localidade de Xaghra.(4)


Na cidade de Florença, no dia da festa, numerosas crianças dirigem-se ao rio Arno levando pequenas lanternas, que são colocadas na água e lentamente vão atravessando a cidade.


Na Sicília, na localidade de Mistretta, a população celebra a festa representando um baile entre dois gigantes. À primeira vista, pareceria que isto nada tem a ver com o fato histórico. Mas ele corresponde a uma tradição: foi encontrada uma imagem de Santa Ana com Nossa Senhora ainda menina. Levada à cidade, a imagem misteriosamente retornou ao local onde havia sido achada, e os habitantes julgaram que só poderia ter sido levada por gigantes. Proveio dessa lenda o costume.


Em Moliterno, ao contrário, existe o lindo e pitoresco costume de as meninas da localidade fixarem pequenas candeias nos chapéus de seus trajes típicos. Em determinado momento desaparecem as outras luzes e só permanecem as das meninas, que executam uma dança regional.


Curiosamente, em muitas localidades as luzes desempenham papel determinante na festa. Podemos conjeturar uma razão para o fato: a Natividade de Nossa Senhora representou o prenúncio da chegada ao mundo da Luz de Justiça, Nosso Senhor Jesus Cristo.


E-mail do autor: valdisgrinsteins@catolicismo.com.br

O papel singular de Maria na economia da Salvação

É bom dizer antes de tudo que o “Evangelho Secreto da Virgem Maria” não é um texto divinamente inspirado e tampouco aceito como verdadeiro ou canônico. Sua autoria ainda é incerta, além de em muitos trechos existirem equívocos teológicos. Certamente ele é apenas uma composição literária dos primeiros séculos do cristianismo onde o autor tenta mostrar o mundo através dos olhos da Imaculada de maneira bastante ousada. Entretanto, o Evangelho Secreto da Virgem Maria já traz consigo a concepção da intercessão dos justos, mortos para este mundo, mas vivos para Cristo pelos vivos, confirmando assim que há o céu logo após a morte, há também a ideia de que Maria era de fato a graça em plenitude, e que Maria é pra sempre virgem, além da fervorosa narração relacionada a São José, lhe acompanhando nessa virgindade perpétua, temática defendida por vários teólogos modernos, a concepção imaculada de São José.
O escrito peca, entretanto, ao tentar de maneira ousada mostrar como era o olhar da Virgem Santíssima, bem como ao mostrar um Cristo que muitas vezes não sabia de sua divindade, além de cometer erros como não distinguir Maria Madalena de Maria irmã de Lázaro.
É claro que erros como esses já eram esperados, pois se trata de um texto apócrifo, e não de um texto inspirado, mas há um grande grau de elementos comuns entre esse texto e o Catolicismo. É comum observar a verdade mesmo em meio às heresias, e essas verdades nos dão luz, de como era o olhar para Maria entre os primeiros cristãos.
Essa introdução nos ajuda a ver que mesmo pessoas de crença duvidosa nos primeiros séculos do cristianismo já tinham um carinho especial pela Mãe de Deus, título que já aparece também nesse “evangelho” assim como aparece no Evangelho Segundo São Lucas (cf. Lc 1, 43).
Maria, graça plena, medianeira junto a Cristo
Maria é chamada pelo anjo Gabriel de “cheia da graça” (cf. Lc 1, 28). Esse termo designa Nossa Senhora como a graça em plenitude. É um vocativo grego de difícil tradução, um termo atemporal que exprime aquela que era, que é e que sempre será agraciada. Seria equivalente a dizer tecida na graça, coroada pela graça. Desse pequeno trecho tiramos em partes o dogma da Imaculada Conceição.
Nossa Senhora certamente, se era, é e sempre será graça em plenitude, nasceu coroada pela graça, sem a mancha do pecado original. Mas Nossa Senhora teve de ser salva por seu filho pelo sacrifício na cruz, que é atemporal. O Sacrifício não existiu apenas para os que viviam naquela época, mas sim para os que viveram antes, depois e durante a primeira vinda de Jesus. A Salvação é para todos, mais percebida por poucos a morte de Cristo foi um sacrifício infinito, pois foi o sacrifício do filho de Deus que é Deus com o Pai e com o Espírito este sacrifício foi eterno, pois o Deus trino que professamos é eterno.
Maria foi concebida sem o pecado original, isso é ensinado de forma implícita por São Lucas nesse pequeno trecho do Evangelho, São Lucas que é um mariólogo destacado e rico em detalhes quando em seu Evangelho registrou os eventos relacionados à Virgem. Maria é superior aos anjos, é a criatura mais perfeita que pode existir, pois nunca se observa um anjo maravilhado com um ser humano em toda a Sagrada Escritura a ponto de saudá-la com termo tão majestoso “Cheia de graça”. Entretanto o anjo ao ver Maria a saúda “graça em plenitude” [termo que corresponde de forma mais perfeita as palavras originais do evangelho] e ela, por sua humildade se perturba com semelhante saudação.
Os anjos como mensageiros de Deus levaram essa saudação à Maria, saudação essa que partiu do Altíssimo. Nunca em toda a Sagrada Escritura aconteceu episódio similar, apesar de vários anjos mensageiros terem sido enviados por Deus a homens sábios no Antigo Testamento, em nenhuma destas narrações um anjo reconhece a graça em um ser humano. Nossa Senhora não podia ter o pecado original, pois sendo esse pecado passado de pai para filho, se Nossa Senhora o tivesse, ela o teria passado a Jesus, e é pelos méritos de Cristo que ela foi preservada por Deus, pois ali naquele Tabernáculo, o santo ventre de Maria, gerou-se a Salvação na pessoa de Jesus. Deus quis que a Rainha nascesse sem o pecado para que Jesus não o tivesse.
Maria, Mãe de Deus
Eis outro grande enigma. Jesus enquanto plenamente Deus não era descendente de ninguém, pois procede do Pai e com o Pai e o Espírito Santo, forma apenas um. Entretanto, negar a maternidade divina de Maria é negar a redenção. Se as naturezas humana e divina de Jesus fossem separadas, então o sacrifício na cruz não teria servido para nada. Nosso Senhor teria morrido em vão.
Os sacrifícios do Antigo Testamento não limpavam a mancha do pecado, que é uma ofensa infinita a Deus. Eles apenas limpavam parcialmente. Ora, se o pecado é uma ofensa infinita a Deus, então há necessariamente que ter um sacrifício infinito capaz de limpar os pecados da humanidade.
Se a natureza humana de Jesus é distinta da natureza divina, como alegaram diversas correntes heréticas no decorrer da História, quem morreu na cruz foi um homem, pois a divindade não morre. Se quem morreu na cruz é um homem, então o pecado não foi remido, pois se assim fosse, qualquer homem que fosse oferecido em sacrifício teria sido suficiente para redimir os pecados da humanidade. Tomando este raciocínio os concílios da Igreja, condenaram tais teses.
Muito diferente, entretanto, foi o Santo Sacrifício de Cristo. Ele, morrendo na cruz, de uma vez por todas venceu o pecado através de sua morte e ressurreição. Então, quando Maria gerou Jesus, ela gerou de fato um ser plenamente homem e plenamente Deus, cujas naturezas são inseparáveis és a doutrina sempre professada pela Igreja.
Dessa maneira, o Sacrifício de Cristo foi um sacrifício infinito, pois foi um sacrifício de um Deus que se fez homem em tudo, exceto no pecado. Sendo infinito, esse sacrifício lavou nossas culpas e nos fez filhos de Deus.
Portanto, se Nossa Senhora não é Mãe de Deus, as naturezas humana e divina de Nosso Senhor têm que ser distintas e certamente o sacrifício teria sido inútil, tomando este raciocínio o Arianismo, negou a maternidade divina de Maria e o uso do título, Mãe de Deus. No entanto o Concílio de Éfeso em 431 d.C. confirmou dogmaticamente a Maternidade divina de Maria. Assim as naturezas humana e divina de Jesus estão unidas, foram geradas no corpo de Cristo no ventre de Maria Santíssima, tornando possível a redenção.
As mães de todos nós não são capazes de gerar almas, pois a alma quem gera é Deus. Entretanto, essa incapacidade não tira delas o título de mães nossas. De forma semelhante, Maria por não ser Mãe de Cristo enquanto Deus anterior a Maria; não tira dela o título de Mãe de Deus, pois Jesus Cristo é ao mesmo tempo tão humano que teve de ser gerado por uma mulher e tão Deus que nos remiu de nossos pecados. A encarnação é, portanto, um mistério insondável aos olhos humanos.
Maria, medianeira de todas as graças
Na Bíblia em momento algum fala-se que é inútil a oração da Igreja para a conversão dos fiéis. Através do batismo somos todos unidos ao Corpo Místico de Cristo (I Cor 12,12), remidos do pecado original. Assim, somos um só corpo no amor de Deus.
Se somos uns só corpo, não há diferença entre mortos e vivos no que se refere à capacidade de orarmos uns pelos outros, pois nosso tesouro escondido está no alto. Ora, se assim é, então todos os membros se beneficiam com a oração dos membros da Igreja e por isso, Nossa Senhora como Mãe da Igreja também ora por seus filhos.
Maria é medianeira de todas as graças, pois conforme já mostrado e também afirmado por diversos santos, doutores e papas; é Mãe de Cristo e como somos parte do corpo d’Ele, Maria é nossa mãe. Se a graça provém do Verbo, logo a graça passa por Maria, mãe do Verbo. Dessa maneira a Igreja crê que as graças obtidas pelos fieis, chegam também pelas mãos imaculadas da Virgem Santíssima, pois que a ela pode-se recorrer, ante a mediação única que exerce o Senhor Jesus junto ao Pai (I Tm 2,5).
O fato da Palavra de Deus, citar Jesus como único mediador entre Deus e os homens não acaba com a co-mediação de outros, inclusive Maria. Como somos parte do Corpo de Cristo que é a Igreja, assim somos todos comediadores e por isso a intercessão tem valor. Muito mais valor e muito mais força tem a oração dos que já estão em comunhão plena com Deus na visão beatifica. Maria sempre esteve em comunhão, pois jamais conheceu o pecado e por isso, a intercessão de Maria é a intercessão que excede a petição de todos os demais bem aventurados.

História do Dogma da Imaculada Conceição

a) Os dogmas da Igreja evoluem? Esta poderia ser a pergunta formulada pelo leitor. Sim e não. Não evoluem em seu conteúdo, isto é, o que é verdadeiro hoje, daqui a um século não virá a ser falso; porém, sem evoluir no que afirmam ou negam, podem evoluir - e evoluem - na consciência que deles vai adquirindo a própria Igreja. Para fazer uma comparação, cada dogma (que vale o mesmo que uma verdade relevada por Deus) é uma sementinha que o próprio Cristo semeou no campo fecundo da sua Igreja; semente que germina, cresce e se desenvolve quando as circunstâncias o favorecem. Em nosso caso, o tempero é dado pelo próprio Espírito Santo, aquele Espírito da Verdade sobre quem Cristo dizia aos Apóstolos: "Quando eu tiver ido, Ele vos guiará e vos ensinará toda a verdade, recordando-vos tudo o que Eu vos disse". Nem tudo o que Jesus fez ou disse foi colocado por escrito, nem tampouco o que ensinaram os Apóstolos que Dele receberam o depósito da fé. Porém, nada foi perdido. Parte dos seus ensinamentos não-escritos ficaram como que no subconsciente da Igreja e aflora quando chega a hora da Providência, de forma tão clara e patente que muitas vezes não pode ser afogada nem mesmo pela autoridade dos Doutores, como no caso do dogma que ora abordamos.

b) O dogma da Imaculada Conceição de Maria é um daqueles clássicos que serve para demonstrar a força imanente que carrega toda doutrina divina depositada na parcela de Deus, que é a reunião dos fiéis com seus Pastores e o Sumo-Pontífice romano, que os preside.

c) Vamos analisar a História desse dogma. Não sendo este um daqueles que a Sagrada Escritura consignou com clareza absoluta, foi necessário, para se chegar à definição do mesmo, investigar o que ensinou a Tradição e recorrer ao "sentir comum" da Igreja.

I. A IMACULADA CONCEIÇÃO NOS PRIMEIROS SÉCULOS

Nos primeiros séculos do Cristianismo, os Santos Padres não propuseram o problema da Imaculada Conceição de Maria. (...) Porém, a doutrina sobre o privilégio de Maria está contida, como a árvore na semente, nos ensinamentos dos mesmos Padres ao contrapor a figura de Maria à de Eva em relação à queda e reparação do gênero humano; ao exaltar, com palavras sumamente encomiásticas, a pureza admirável da Virgem; e ao tratar sobre a realidade de sua maternidade divina. Dois princípios da ciência sobre Maria que deixaram firmemente assentados os primeiros Doutores da Igreja foram:

1º) O Princípio da Recapitulação

a) Com estas palavras, "princípio da recapitulação, recirculação ou reversão" é conhecida a doutrina patrística sobre o plano divino da salvação do gênero humano.

b) Aos Padres primitivos chamou à atenção, fortemente (e não menos que a nós), o belo vaticínio sobre a Redenção humana contido no Protoevangelho. E tendo escrito São Paulo que Cristo é o novo Adão, completaram o paralelismo, sem nenhum esforço, contrapondo Maria a Eva. É raro encontrar um Santo Padre que não tenha empregado este recurso ao tratar da Redenção. E é tão constante a doutrina, tão universal o princípio, que não é possivel deixar de admitir que tenha provindo da própria Tradição Apostólica.

c) Citemos, por todos, Santo Ireneu: "Assim como aquela Eva, desobediente, tendo Adão por varão, porém permanecendo ainda virgem, foi a causa da morte, assim também Maria, tendo já um varão predestinado e, no entanto, virgem obediente, foi causa de salvação para si e para todo o gênero humano (...) Desta forma, o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria. O que a virgem Eva amarrou por sua incredulidade, foi desamarrado pela fé da Virgem Maria". Com efeito, assim como um nó não é desamarrado enquanto não se passam os cabos pelo mesmo lugar, mas de modo inverso, assim também a Redenção operou de forma idêntica, mas de modo inverso ao da queda.

d) Este paralelismo, que contém dois aspectos - semelhança e contraposição - encontra-se repetido, segundo acabamos de dizer, como um princípio básico ao se referir a Maria. E como é fácil de se compreender, não alcança toda sua força senão colocando os extremos da contraposição em igualdade de circunstâncias: Eva, virgem e inocente, é a causa da ruína do gênero humano; Maria, virgem e inocente também, a causa de sua salvação. Eva, adornada de graça desde o momento de sua existência, reclama, por comparação, a Maria, possuidora da graça desde o primeiro momento de seu ser.

e) A legitimidade do princípio da recapitulação foi declarada pelo Papa Pio IX em sua Bula Dogmática sobre a Imaculada.

2º) A Exaltação da Pureza de Maria

a) Um coro unânime de vozes proclama Maria como puríssima, sem mancha, a mais sublime das criaturas etc. Nesta aclamação universal da pureza de Maria deve haver, necessariamente, um princípio geral que a impulsiona. Os Santos Padres da Antigüidade não estavam muito mais informados do que nós sobre a vida da Virgem. O que lhes move, portanto, a afirmar com tanta ênfase, com tanta segurança, que Maria não admite comparação com qualquer outra criatura em sua grandeza e elevação moral? Sua Maternidade divina! Evidentemente, seus louvores partem do princípio que mais tarde é formulado por Santo Anselmo: "A Mãe de Deus deveria brilhar com tal pureza, que não é possível imaginar [pureza] maior exceto a de Deus". Pois bem; para admitir sua Conceição Imaculada, caso se propusesse a pergunta, não precisavam mudar de rumo: bastava tirar as conseqüências do princípio assentado e admitido.

b) Leiamos alguns destes louvores dedicados à Virgem:

1. Santo Hipólito, mártir, diz: "Certamente, a arca de madeiras incorruptíveis era o próprio Salvador. E por esta arca, isenta de podridão e corrupção, se significa seu tabernáculo, que não gerou corrupção de pecado. Pois o Senhor estava isento de pecado e estava, enquanto homem, revestido de madeiras incorruptíveis, isto é, da Virgem e do Espírito Santo, por dentro e por fora, como de ouro puríssimo do Verbo de Deus". Em outra parte, chama Maria de "toda santa, sempre Virgem, santa, Virgem imaculada".

2. Nas atas do martírio de Santo André, o Apóstolo, se lêem estas palavras ditas pelo Santo ao procônsul: "E visto que da terra foi formado o primeiro homem, que pela prevaricação da árvore trouxe a morte ao mundo, foi necessário que, de uma Virgem imaculada, nascesse o homem perfeito, o Filho de Deus, para que restituísse a vida eterna que os homens perderam por Adão". Ainda que estas atas - como alguns opinam - não sejam genuínas (isto é, contemporâneas de Santo André), possuem uma venerável antigüidade e nos atestam o que se pensava então a respeito da Santíssima Virgem.

3. Santo Efrém da Síria, apelidado "Harpa do Espírito Santo", canta assim à Virgem: "Certamente Tu (Cristo) e tua Mãe sois os únicos que haveis sido totalmente formosos; pois em Ti, Senhor, não há defeito, nem em tua Mãe mancha alguma". E em outras partes chama Maria de "imaculada, incorrupta, santa, alheia a toda corrupção e mancha, muito mais resplandescente que o sol" etc.

4. Santo Ambrósio põe nos lábios do pecado: "Vem, pois, Senhor Jesus e busca tua ovelha cansada; busca-a não pelos servos, nem pelos mercenários, mas por Ti mesmo. Recebe-me, não naquela carne em que caiu Adão, nem de Sara, mas de Maria: virgem incorrupta, íntegra e limpa de toda mancha de pecado".

5. E aponta São Jerônimo: "Propõe-te por modelo a gloriosa Virgem, cuja pureza foi tal que mereceu ser a Mãe do Senhor".

c) A lista poderia se estender muitíssimo mais. Mas a conclusão é a seguinte: os Santos Padres não propõem a pergunta sobre a Imaculada Conceição, no entanto, os louvores que dirigem à pureza de Maria são tais que, caso se propusesse a questão, teriam alcançado à verdade pelo próprio caminho que seguiam. E desde logo, o que lhes impulsiona a louvar, de maneira tão unânime e fervorosa, a pureza de Maria é a existência de uma Tradição que pode ser qualificada como Apostólica, derivada dos ensinamentos dos Apóstolos.

II. A IMACULADA CONCEIÇÃO ATÉ A IDADE MÉDIA

A partir do século IV, a Igreja ocidental não corre em paralelo com a oriental em professar a Imaculada Conceição de Maria. A heresia nestoriana, única na História que atacou diretamente a prerrogativa máxima da Virgem - sua divina Maternidade - e que ia se expandindo no século V, ofereceu a melhor ocasião e também a necessidade de se exaltar a soberana figura da Bem-Aventurada Mãe de Deus. Enquanto isso, no Ocidente, o herege Pelágio desfigurava o conceito de pecado original e suas funestas conseqüências sobre os homens, razão pelas quais os Padres [latinos] se viram constrangidos a tratar primeiramente da universalidade do pecado do que da gloriosa exceção concedida à Virgem.

Leiamos alguns testemunhos de uma e de outra [parte da] Igreja:

1º) A Igreja Oriental

a) Na Igreja oriental encontramos o esforçado defensor da maternidade divina de Maria, São Cirilo, escrevendo: "Quando se ouviu alguma vez que um arquiteto edifique uma casa e a deixe ser ocupada por seu inimigo?". Não se pode expressar mais claramente a idéia da Imaculada Conceição.

E Teodoro de Ancira, escreve: "Virgem inocente, sem manhca, santa de corpo e alma, nascida como o lírio entre os espinhos". E, em outro lugar: "Maria, na sua pureza, leva vantagem sobre os serafins e querubins".

Proclo, secretário de São João Crisóstomo, no mesmo século V, diz que Maria foi formada "de barro límpido", ou seja, é de natureza humana, porém, incontaminada.

b) No século VI, lemos um hino composto por São Tiago Nisibeno: "Se o Filho de Deus tivesse encontrado alguma mancha em Maria, um defeito sequer, sem dúvida escolheria [outra] mãe isenta de qualquer imundície". E qualifica a santidade de Maria como "justiça jamais rompida".

São Teófanes louva Maria assim: "Ó, incontaminada de toda mancha". E, em outra parte: "O puríssimo Filho de Deus, como encontrasse somente a ti puríssima de toda mancha, ou totalmente imune do pecado, foi gerado de tuas entranhas e limpa dos pecados todos os crentes".

Santo André de Creta: "Não temas! Encontraste graça diante de Deus: a graça que Eva perdeu (...) Encontraste a graça que nenhum outro [ser humano] como tu jamais encontrou".

E na Carta a Sérgio, aprovada pelo IV Concílio Ecumênico, Sofrônio diz acerca de Maria: "Santa, imaculada de corpo e alma, livre totalmente de todo contágio".

A seguir, as palavras "imaculada" e "puríssima" já não se referem diretamente e apenas à virgindade de Maria. À medida que vão avançando os séculos, se vai percebendo, com maior precisão, a idéia da Imaculada Conceição.

E, assim, no século VIII, podemos ler estas palavras tão claras de São João Damasceno: "Neste paraíso (=Maria) não teve entrada a serpente, por cujas ânsias da falsa divindade fomos feitos semelhantes a feras".

Nos séculos IX e X se percebe com maior clareza a concepção sem mancha de Maria. São José, o Hinógrafo, escreve sobre a Virgem: "Imune de toda mancha e queda, a única Imaculada, sem mancha, a única sem mancha".

E São João, o Geometra, em um formoso verso: "Alegra-te, tu que deste a Cristo o corpo mortal. Alegra-te, tu que foste livre da queda do primeiro homem".

c) Não é necessário prosseguir, porque a palavra "Imaculada", a partir daí, entre os orientais, ganha um significado preciso e concreto: a isenção de Maria do pecado original. Ademais, desde o século VII, a Igreja oriental passou a celebrar a festa da Imaculada Conceição, ainda que não universalmente. Sobre o significado dessa festa, ouçamos São João de Eubea: "Se se celebra a dedicação de um novo templo, como não se celebrará, com maior razão, esta festa, tratando-se da edificação do templo de Deus, não com fundamentos de pedra, nem erguido pela mão do homem? Celebra-se a concepção no seio de Ana, porém, o próprio Filho de Deus a edificou com o beneplácito de Deus Pai e com a cooperação do santíssimo e vivificante Espírito".

Como se observará, nestas palavras se menciona a criação de Maria e, assim mesmo, sua santificação, como insinua a alusão ao Espírito Santo que dela se apropria.

2º) Na Igreja Ocidental

a) Na Igreja ocidental, o processo até chegar à confissão clara e paladina da Imaculada Conceição de Maria resultou mais lento devido a circunstâncias especiais que o suspenderam. Contudo, o conceito que os Santos Padres mostram ter da grandeza espiritual e moral da excelsa Mãe de Deus não desmerece nem cede em nada ao dos orientais. A admissão de alguma mancha em Maria produziu no Ocidente - da mesma forma que no Oriente - um escândalo entre os fiéis e se chocou com a idéia que se professava sobre a santidade máxima da Bem-Aventurada Virgem. Com efeito, disso lançou mão o herege Pelágio para atacar seu adversário Santo Agostinho, na discussão sobre o pecado original que Pelágio negava. Juliano, discípulo do herege, escreveu, dirigindo-se ao bispo de Hipona: "Tu entregas Maria ao diabo em razão do nascimento"; em outras palavras: se se afirma que o pecado original é transmitido pela geração natural, Maria então foi súdita do diabo porque desta maneira descendeu e deste modo foi concebida por seus pais.

O Santo Doutor, porém, contestou: "A condição do nascimento é destruída pela graça do renascimento". Discute-se se, com estas palavras, o santo bispo admitiu a Imaculada Conceição. Porém, o que é certo é que o nosso Doutor ensina que os pecados atuais têm sua origem no pecado original; diz: "Ninguém está sem pecado atual, porque ninguém foi livre do [pecado] original". Entretanto, opina que Maria não teve qualquer pecado atual: "Exceção feita à Virgem Maria, da qual não quero, pela honra devida ao Senhor, suscitar qualquer questão quando se trata de pecado (...) Se pudéssemos congregar todos os santos e santas (...) quando aqui viviam, não é verdade que unanimemente teriam exclamado: 'Se dissermos que não temos pecado, nos enganamos e não há verdade em nós'?". Portanto, segundo o princípio assentado pelo mesmo Santo Doutor, temos que concluir que Maria careceu do pecado original.

Nesta mesma época, por volta do ano 400, encontramos o máximo poeta cristão Prudêncio interpretando a fé da Igreja segundo a pureza sem mancha de Maria. Canta nestes versos: "A víbora infernal jaz, esmagada pela cabeça sob os pés da mulher. Por aquela Virgem que foi digna de gerar a Deus, é dissolvido o veneno e, retorcendo-se sob suas plantas, vomita, impotente, seu tóxico sobre a verde erva".

b) No século V, São Máximo escreve estas palavras: "Maria, digna morada de Cristo, não pela beleza do corpo, mas pela graça original".

Ao contrário do que ocorre no Oriente, no Ocidente, à medida que vão avançando os séculos, se fala com maior reserva a respeito deste assunto. Não que se esqueça por completo a crença na Imaculada Conceição de Maria, pois sabemos que logo começou a ser celebrada sua festa, mas porque os autores eclesiásticos, influenciados pela autoridade de Santo Agostinho - cuja opinião sobre este mistério é duvidosa - e diante da necessidade de defender o dogma certo da universalidade do pecado original e suas conseqüências, se vêem forçados a tratar antes desta questão do que em estabelecer e ilustrar a exceção que Maria constitui à lei universal do pecado.

Boa prova de que a fé neste glorioso privilégio de Maria não foi ofuscada nos fornece a Liturgia. Afirma-se que no século VII, por obra de Santo Ildefonso, arcebispo de Toledo, já era celebrada a festa da Imaculada Conceição na Espanha. Alguns, contudo, duvidam da autenticidade do documento em que se apóiam aqueles que o defendem.

Porém, sabe-se com toda segurança, que essa festa já era celebrada no século IX, como aponta o calendário de mármore de Nápoles, que diz: "Dia 9 de dezembro: a Concepção da Santa Virgem Maria". A data da celebração (a mesma em que celebravam os orientais) indica que a festa foi trazida do Oriente, com o qual Nápoles mantinha intensa relação comercial. Mas esta não é a única constância que se tem da celebração litúrgica. Por calendários dos séculos IX, X e XI, sabemos que era celebrada também na Irlanda e Inglaterra.

c) Porém, apesar da celebração litúrgica, o significado da solenidade não estava teologicamente fixado. E não deixa de chamar a atenção o fato de que talvez o Santo mais devoto de Maria foi quem reduziu os impulsos do povo cristão, suscitando a discussão mais inflamada da história dos dogmas. Refiro-me a São Bernardo.

Tendo chegado aos seus ouvidos que os monges de Lião, em 1140, tinham introduzido a festividade, o Santo Abade escreveu-lhes uma carta veementíssima, reprovando o que chama uma inovação "ignorada pela Igreja, não aprovada pela razão e desconhecida da antiga Tradição". A carta é um dos melhores documentos para provar a profunda devoção do Santo a Maria. Cada vez que a nomeia, o faz com grandiosíssimo respeito e com a inimitável força de estilo que o caracteriza, convencendo o leitor de que todo o raciocínio não possui nem um pouco de paixão. Impugna o privilégio porque crê que assim deva fazê-lo.

Apesar do enorme prestígio do Santo Doutor, sua carta não ficou sem resposta. O primeiro que refutou a mesma, Pedro Comestor, fez logo notar a confusão que São Bernardo tinha do assunto e distingue entre a concepção de quem concebe (isto é, o ato dos pais) e a concepção de quem é concebido, ou seja, entre a concepção ativa e a concepção passiva, que já mencionamos anteriormente. Não faltou tampouco - como em toda polêmica - a frase dura e contundente do contraditor; assim, escreve Nicolas, monge de São Albano: "Duas vezes foi transpassada a alma de Maria: na Paixão de seu Filho e na contradição de sua Concepção".

Embora a carta do Douto Melífluo não tenha conseguido impedir a expansão da festa, que a cada dia aumentava sempre mais, projetou inegável influência nas discussões teológicas dos séculos seguintes.

III. A CONTROVÉRSIA DOS ESCOLÁSTICOS ATÉ O BEATO ESCOTO

a) Os séculos XIII e XIV são os de máximo esplendor da ciência divina denominada "Teologia". Os que a cultivaram nessa época foram chamados "Escolásticos". Surgiram diversos centros de importância, sendo os mais ilustres a Sorbona de Paris e a Universidade de Oxford, na Inglaterra. Ao comentar o "Livro das Sentenças", de Pedro Lombardo, que servia como Manual e Guia para ministrarem suas lições, os Escolásticos encontraram a questão da Concepção de Maria. Os doutores de Paris se inclinaram pela corrente maculista enquanto que os de Oxford pela imaculista, isto é, excluíam Maria da queda comum do pecado original. A vitória final foi dada a estes últimos, concretamente pelo Beato Escoto, seu mais alto expoente e representante.

b) Em Paris, os mestres reduziram a questão nestes termos: Quando a Virgem Maria foi santificada? "Santificada" aqui equivaleria - como se verá pelo contexto de toda a questão - a "purificada". Com efeito, na própria colocação do problema já se tem algo como pressuposto e seguro: que em Maria havia algo que necessitava de purificação. A razão de se propor o problema nestes termos estava no erro contido no "Livro das Sentenças" que comentavam. O erro consistia em afirmar que o pecado original se identifica com a concupiscência da carne, que corrompe e mancha a alma. E propunham um exemplo: como a imundície do recipiente faz com que a doçura do vinho se converta em vinagre, assim a concupiscência da carne, que se transmite pela geração natural, mancha a pureza da alma. Em seu conceito, o pecado original tinha dois elementos: um material (a concupiscência da carne) e outro formal (o pecado propriamente dito, que é a carência da graça).

Partindo, pois, do princípio que a carne, manchada pela geração natural, mancha também a alma, os Doutores de Paris se perguntavam: quando Maria foi santificada, isto é, purificada desta mancha inerente à carne?

c) O primeiro a propor a questão nestes termos foi o frade Alejandro de Halés. Assentou o princípio de que "a Maria lhe foi outorgada quando se pôde dar", porém, não percebeu todas as conseqüências que daí derivavam. E seguindo a opinião que acabamos de expor sobre o pecado original, pergunta se Maria foi santificada em seus pais, respondendo que não, pois ainda que eles fossem santíssimos, sua santidade não podia ser transmitida à carne que conceberam. Continuou investigando se a carne de Maria foi purificada antes que sua alma entrasse e fosse infundida na mesma e entendeu que tampouco, pois a carne não pode ser sujeito de santidade alguma, nem de nenhuma graça. Prosseguiu interrogando se ela foi santificada no próprio momento de se infundir a alma no corpo, mas se inclina também pela negativa. A conclusão é que foi santificada após a concepção, ainda que antes de nascer, porque se isto também fora concedido a Jeremias e a [João] Batista, "não poderia ser negado à tão excelsa Virgem o que fora concedido a outros".

d) Segue pelo mesmo caminho e com uma conclusão mais enérgica, o Doutor Santo Alberto Magno. Este crê ser de fé que Maria foi concebida no pecado original, pois a Bíblia, no célebre texto de São Paulo, ensina "que em Adão todos pecaram"; e "todos" inclui também a ela.

e) Os dois colossos da ciência teológica, São Tomás [de Aquino] e São Boaventura, que continuaram a obra de ensino dos dois doutores acima citados, prosseguiram, embora mais cautelosos, no mesmo caminho.

O Doutor Angélico, São Tomás, afirma e repete com insistência, em várias partes de suas obras, escritas em diversas épocas. que Maria contraiu o pecado original. Citemos apenas o que escreveu em sua obra maior, a "Suma Teológica": à primeira pergunta, "se Maria foi santificada antes de receber a alma", responde que não, porque a culpa não pode ser apagada senão pela graça, cujo sujeito é tão somente a alma. À segunda pergunta, isto é, "se o foi no momento de receber a alma", responde que deve-se dizer que "se a alma de Maria não tivesse jamais sido manchada com o pecado original, isto derrogaria a dignidade de Cristo, que está no fato de ser o Salvador universal de todos. E assim, sob a dependência de Cristo, que não necessitou de salvação alguma, foi máxima a pureza da Virgem, pois Cristo de modo algum contraiu o pecado original, mas foi santo em sua própria concepção, segundo aponta São Lucas: 'Aquele que nascerá de Ti, Santo, será chamado Filho de Deus'. Porém, a Santíssima Virgem contraiu certamente o pecado original, ainda que tenha sido limpa dele antes de ter nascido". Em outra parte, pergunta quando foi santificada e responde: "Pouco depois de sua concepção".

A estas palavras tão claras alguns têm querido dar ultimamente um significado diferente, fazendo mil acrobacias para que signifiquem que São Tomás não negou o privilégio de Maria, como se a negação supusesse algum defeito. O Santo e ponderadíssimo Doutor riria bastante dos malabarismos intelectuais de alguns de seus comentaristas...

Por outro lado, São Boaventura insinua timidamente a verdadeira solução da questão, embora se declare explicitamente partidário da corrente maculista. Após expor a opinião comum, escreve: "Alguns dizem que na alma da Santíssima Virgem a graça da santificação se adiantou à mancha do pecado original (...) Isto significa, segundo eles, o que Santo Anselmo disse sobre a Santíssima Virgem: que Maria foi pura, com pureza tão pura, que maior - excluída a pureza de Deus - não se pode imaginar. Isto não repugna a fé cristã, porque a própria Virgem foi liberada do pecado original pela graça que dependia e tinha sua origem em Cristo, assim como as demais graças dos Santos. Estes foram levantados depois de caídos, mas a Virgem foi amparada durante o ato de cair, para que não caísse, segundo a referida opinião". Ninguém havia ainda exposto em Paris tão claramente, nem insinuado com tanta precisão, os argumentos a favor da Imaculada. Porém, São Boaventura ainda se inclinava pela corrente contrária: tirania da razao que se impôs sobre os anseios do amor.

d) Não estava reservado para os Doutores de Paris o empreendimento de defender o privilégio de Maria. Quando a doutrina contrária à Imaculada Conceição era comum entre os teólogos, corroborada pela autoridade dos grandes mestres, "surgiu o Doutor providencial que Deus mandou à Igreja para resolver esta questão", dizia o antigo Ofício da Imaculada: o beato Juan Duns Escoto.

IV. A INTERVENÇÃO DO DOUTOR MARIANO

a) O beato Juan Duns Escoto nasceu em Maxton (Escócia), da nobre família Duns. Formou-se na Universidade de Oxford e aqui mesmo e em Paris lecionou Teologia. Ao chegar a Paris, a questão sobre a Concepção de Maria estava definitivamente encerrada e resolvida em sentido negativo. Sua doutrina sobre a isenção de Maria de todo pecado bateu de frente com o ambiente reinante na Universidade e, segundo o estilo da época, precisou defender sua opinião em uma disputa pública com os doutores da mesma. O esmagador triunfo que alcançou, medindo forças e conhecimento com os mestres mais renomados, fez com que aquela celebérrima discussão científica entrasse para os anais da Universidade e da Igreja. A lenda e a tradição, como costumam fazer com os fatos transcendentais, a adornaram com mil detalhes formosos. As crônicas eclesiásticas asseguram que, ao passar o Doutor pelos clautros da Universidade para a discussão, prostrou-se diante de uma imagem de Maria, implorando o seu auxílio, e que a imagem de mármore inclinou sua cabeça. Para a aula magna da Universidade, aguardavam o Doutor todos os mestres; presidiam a assembléia os legados do Papa, presentes em Paris para tratar de outros assuntos com o rei. Seja como for, a tradição nos relata que opuseram duzentos argumentos ao Doutor Mariano; ele os refutou e pulverizou após ter recitado cada um de memória. A quantidade de argumentos (ainda que não tenha chegado aos duzentos) foi enorme, pois dos fragmentos que restaram do debate e que chegaram até nós, pode-se listar cinqüenta. A nobríssima Assembléia se levantou e o aclamou unanimemente como vencedor. Uma defesa similar desse privilégio mariano ocorreu ainda em Colônia, onde o triunfo alcançado pelo Defensor de Maria foi tamanho que até as crianças o aclamavam: Vencedor Escoto!

Todos estes detalhes da lenda demonstram a impressão que causou a defesa escotista na imaginação dos contemporâneos que viam irremediavelmente perdida a causa no campo intelectual. Porém, se os detalhes são lendários, continua em pé a historicidade do fato conhecido como "Debate da Sorbona", como provou em seus estudos o mariólogo pe. Carlos Balic, conhecido em todos os centros teológicos.

b) Passemos a expor a doutrina do Doutor Mariano. Observemos antes de mais nada que o beato Juan Duns Escoto propõe a questão de maneira completamente diferente dos que o precederam: "Maria foi concebida em pecado original?". Este modo de formular a pergunta não pressupõe nem prejudica nada, mas tem um sentido claro e determinante: teve ou não teve o pecado original? Isto vem da idéia que o nosso Doutor possui do pecado original, hoje comum a todos os teólogos: para o beato Escoto, o pecado original não consiste em algo mais que a negação da graça que se deveria possuir. Com efeito, não se deve perguntar nada sobre a carne, como faziam os teólogos anteriores.

Portanto, à pergunta se Maria foi concebida em pecado, responde: Não! Razões? A perfeitíssima Redenção de seu Filho e a honra do mesmo. Ou seja: à dificuldade que os adversários apresentam, ele combate com um argumento quase único. Em suma: "Afirma-se que em Adão todos pecaram e que em Cristo e por Cristo todos foram redimidos. E nestes 'todos', inclusive ela (=Maria). E respondo que sim, ela também, mas ela de modo distinto. Como filha e descendente de Adão, Maria deveria contrair o pecado de origem, mas perfeitamente redimida por Cristo, não incorreu nele. Quem atua mais perfeitamente? O médico que cura a ferida do filho caído ou o que, sabendo que seu filho irá passar por determinado local, se adianta e tira a pedra que provocará o tropeço? Sem dúvida alguma, o segundo. Cristo não seria perfeitíssimo redentor se, pelo menos em um caso, não redimisse da maneira mais perfeita possível. Pois bem; é possível prevenir a queda de alguém no pecado original. E se devia fazê-lo em algum caso, o fez no caso de sua Mãe".

O beato Escoto vai aplicando o argumento ora a partir do ponto de vista de Cristo como Redentor perfeitíssimo, ora a partir do ponto de vista do pecado, ora a partir do ponto de vista de Maria, chegando sempre à mesma conclusão. Seu argumento restou sintetizado para a posterioridade com aquelas quatro celebérrimas palavras: Potuit, decuit, ergo fecit, - podia, convinha, logo fez! - Podia fazer sua Mãe Imaculada, convinha fazê-lo por sua própria honra, logo fez!

De tudo o quanto se deduz, escreve o Doutor Alastruey, em sua conhecida "Mariologia":

1. Que o Doutor Mariano distingue perfeitissimamente entre a lei universal do pecado original, que abrange Maria, e a queda real. Isto é, entre o débito (como falam os teólogos) e a contração do pecado. Maria deveria contraí-lo por ser descendente de Adão, mas não o contraiu porque foi preservada. Por isso, sua preservação chama-se "privilégio".

2. Que o Doutor Mariano concilia perfeitamente a preservação de Maria e sua dependência da Redenção de Cristo. Isto consegue fazer distinguindo entre a Redenção curativa e a preservativa. Esta última é, na sua opinião e diante do testemunho da razão, a redenção mais perfeita. Assim, Maria, em seu privilégio, longe de menosprezar a honra de Cristo, como se escapasse do seu influxo (como temiam os antigos), depende Dele de uma maneira mais brilhante e mais efetiva.

3. Finalmente, Escoto conseguiu pulverizar os principais argumentos da opinião contrária e esclarecer que nada podia ser deduzido dos dogmas da fé que fosse contrário à Imaculada Conceição de Maria.

As páginas do Doutor Mariano tornaram-se o arsenal para se buscar armas e argumentos em defesa deste privilégio mariano. Ao longo de tantos séculos de discussões científicas, chegou-se à definição dogmática sem que se pudesse acrescentar às suas páginas qualquer outra idéia, argumento ou distinção.

E para que não faltasse um testemunho contrário ao aguerrido defensor da Virgem, citamos o padre Gerardo Renier, que de inimigo doutrinal passou (como muitos ao longo da história do dogma) a adversário pessoal do beato Escoto, escrevendo a propósito de seus ensinamentos em Paris: "O primeiro semeador desta herética maldade (=a Imaculada Conceição) foi Juan Duns Escoto, da Ordem Franciscana". Qualificação teológica que, como é evidente, foi profética. Nunca se viu jamais um punhado de lama atirado contra o adversário se transformar, durante o trajeto, num buquê de rosas e lírios...

V. ATÉ A DEFINIÇÃO DOGMÁTICA

a) Seguiram o beato Escoto, como é fácil de se supor, todos os franciscanos que o adotaram por mestre. Entre seus discípulos, podemos citar nomes ilustríssimos como Francisco Mayrón, Andrés de Neuchateu, Juan Basols etc. Toda a Ordem Franciscana em geral - escreve Campana em "Maria no Dogma Católico" - aceitou a doutrina de seu mestre, de forma que, em pouco tempo, a Imaculada Conceição foi chamada de "opinião franciscana", nome com que foi designada até a definição dogmática.

b) Perdido o prestígio na Universidade de Paris, a corrente contrária apelou ao Papa João XXII em sua corte de Avignon. E apesar de o Pontífice estar em grave controvérsia com a Ordem Franciscana, em virtude das interpretações sobre a pobreza, através de um debate entre um franciscano e um dominicano, o Papa se enclinou pela corrente imaculista; como conclusão, ordenou celebrar a festividade na capela papal. A determinação de João XXII significou um passo decisivo para o triunfo da Imaculada. E aqui nos encontramos ainda em 1325, isto é, cerca de 20 anos depois da defesa de Escoto.

c) Um incidente que revela os sentimentos e a conduta de toda uma geração se deu em 1335. João de Monzão recebeu a investidura de Doutor. Em sua primeira lição magisterial sustentou quatro proposições contrárias à Imaculada Conceição. A Universidade as reprovou e confiou [a investidura] ao franciscano João Vital, que as refutara, como fez em sua "Defensorium pro I. M. Conceptione". Confirmada a sentença ou qualificação da Universidade pelo bispo de Paris, o dominicano apelou para o Papa, perante o qual triunfou novamente a corrente imaculista. "Porém, a luta tinha chegado ao seu auge" - escreve o pe. Sola, sj, em seu livro "A Imaculada Conceição". Como Escoto tinha arrastado atrás de si toda a sua escola, Monzão arrastou também toda a escola tomista. E se os discípulos de Escoto formularam o voto de defender o privilégio até o sangue, os seus adversários formularam defender da mesma forma a doutrina de São Tomás sobre este tema.

d) Não é necessário prosseguir adiante no curso das discussões científicas, pois a seguir a corrente maculista vai perdendo terreno cada vez mais e sua atuação vai deixando de atrair interesse. Sabe-se que no Concílio da Basiléia travou-se um longo debate entre maculistas e imaculistas, triunfando estes últimos. Contudo, a decisão tomada pelo Concílio não teve valor, pois quando foi tomada o Concílio já não era canônico.

Perante Sisto IV (nos encontramos agora no século XV), se sustentou outro debate entre o dominicano Bandelli e o franciscano Francisco de Bréscia. A vitória deste último foi tão esmagadora, que a Assembléia se levantou aclamando-o como "Sansão", nome com que ficou conhecido na História.

E de triunfo em triunfo chegamos ao Concílio de Trento que, ao falar da universalidade do pecado original, ainda que não defina o dogma da exceção de Maria, apresentou a doutrina nestas palavras: "Declara, no entanto, este Santo Concílio, que ao falar do pecado original não tenta compreender a bem-aventurada e imaculada Virgem Maria, devendo-se observar, quanto a isto, o que foi estabelecido por Sisto IV".

e) As palavras do Concílio foram decisivas para a expansão da doutrina imaculista e não tardou muito para se tornar opinião universal.

Não se encontrará uma Ordem religiosa que não tenha apresentado nomes ilustres de teólogos favorecendo a prerrogativa da Virgem, contribuindo para o seu triunfo. A Companhia de Jesus pôde apresentar Diego Laínez, Alfonso Salmerón, Toledo, Suárez, São Pedro Canísio, São Roberto Belarmino e muitos outros. A gloriosa Ordem Dominicana, o célebre Ambrosio Catarino, Tomás Campanella, João de Sâo Tomás, São Vicente Férrer, São Luís Beltrão e São Pio V papa etc. A Ordem Carmelita, já em 1306, determinou a celebração da festa no Capítulo Geral reunido na França. Os Agostinianos defenderam também a prerrogativa da Virgem logo em 1350.

f) A contribuição da Espanha no triunfo do dogma da Imaculada Conceição mereceria um capítulo à parte, certamente bem longo e glorioso, mas isto nos afastaria do caráter puramente doutrinário que possui estas breves notas históricas. Recordemos apenas, como significativos, os pedidos dos reis aos Sumos Pontífices requerendo a definição do dogma. Por isso, Pio IX quis que o monumento à Imaculada, após seu definitivo oráculo, fosse erguido na praça romana de Espanha.

VI. A DEFINIÇÃO DOGMÁTICA DA IMACULADA

a) O Papa Pio IX, de saudosa memória, decidiu dar o último passo para a suprema exaltação da Virgem, definindo o dogma de sua Imaculada Conceição. Conta-se que nas tristíssimas circunstâncias pelas quais atravessava a Igreja, em um dia de grande abatimento, o Pontífice disse ao Cardeal Lambruschini: "Não encontro solução humana para esta situação", ao que o Cardeal respondeu: "Pois busquemos uma solução divina: defina Sua Santidade o dogma da Imaculada Conceição".

Mas, para dar este passo, o Pontífice quis conhecer a opinião e o parecer de todos os bispos; porém, ao mesmo tempo, parecia-lhe impossível reunir um Concílio para formular a consulta. A Providência forneceu-lhe a solução. Uma solução simples, porém eficaz e definitiva. São Leonardo de Porto Maurício tinha escrito uma carta ao Papa Bento XIV insinuando que era possível conhecer a opinião do episcopado consultando-o por correspondência epistolar... A carta de São Leonardo foi descoberta nas circunstância em que Pio IX tentava solucionar o problema e foi como que o "ovo de Colombo" (desculpem a frase!), de modo que o Papa pôde exclamar: "Encontrei a solução!". Em pouco tempo pôde conhecer o parecer de toda a hierarquia. Um certo bispo hispano-americano respondeu-lhe: "Nós, americanos, com fé católica recebemos a crença na preservação de Maria". Formoso louvor à ação e zelo da nação espanhola.

b) E no dia 8 de dezembro de 1854, rodeado solenemente por 92 bispos, 54 arcebispos, 43 cardeais e uma imensa multidão, Pio IX definiu como dogma de fé o grande privilégio da Virgem:

"A doutrina que ensina que a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada imune de toda mancha de pecado original no primeiro instante de sua concepção, por singular graça e privilégio de Deus todo-poderoso, em atenção aos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, é revelada por Deus e por isso deve-se crer firme e constantemente por todos os fiéis".

Estas palavras, embora pareçam tão simples, foram selecionadas uma a uma, mantendo sintonia com os séculos. São eco autorizado e definitivo da voz-solo que cantava o "comum sentir" da Igreja ainda durante os quentes debates dos teólogos da Idade Média.

Há base bíblica para afirmar que Maria é rainha do universo?

Nossos irmãos protestantes ficam chocados quando ouvem que nós católicos nos referimos à Maria como "Rainha do Universo". E para tentar justificar a sua oposição, citam referências bíblicas, em relação ao culto proibido por Deus à "rainha dos céus":

"Os filhos apanham a lenha, os pais acendem o fogo, e as mulheres amassam a farinha para fazerem bolos à rainha do céu, e oferecem libações a outros deuses, para provocarem minha ira" (Jeremias 7,18).

Segundo eles, isso seria argumentar em seu favor que Deus está contra nós consideramos Maria como "Rainha do Universo". Mas se você tomar um pouco mais de tempo e analisar a palavra de Deus com cuidado e sem preconceito anti-católico, o aviso e a condenação para esse culto foram para deusas pagãs: Astarte, Ishtar, Afrodite, entre outros nomes. Por outro lado, essas "deusas" eram adoradas - como sabemos e ensina a Igreja Católica, devemos adorar somente a Deus - e, por isso, era óbvio que o Senhor proibiu. Além disso, o amor que nós dedicamos à Maria, Mãe de Deus e Rainha do Universo, é de veneração, que é apenas um especial respeito e amor, mas nunca adoração, como argumentam alguns irmãos protestantes erroneamente mal informados. Vale destacar que o culto de veneração é diferente, como demonstrado em um artigo anterior (1).

Vamos ver que se nós católicos consideramos Maria como "Rainha do Universo" não é para tirar a honra, glória e honra de nosso Senhor Jesus "Rei do Universo", mas apenas o fato de que Jesus é Rei, é precisamente o que confere o título de Rainha à Maria, pois é sua mãe. Sabemos que tudo está sujeito ao Rei, e que Rainha não tira qualquer poder ou domínio do rei. O título de Maria é um título de honra por ser a Mãe do Rei, o Senhor Jesus.

Amigos protestantes vão pensar que esta afirmação é uma invenção ou capricho, que é apenas uma discussão inútil sem o apoio bíblico. Só para eles e para os meus irmãos católicos é que, em seguida, cito referências bíblicas para justificar o título de Rainha que tem a mãe de Jesus.

Quando o anjo Gabriel anunciou à Maria que ela vai conceber Jesus, por sua vez faz com que ela saiba que seu filho receberá o trono de Davi, seu pai, e ele reinará sobre Jacó para sempre.

"O anjo disse:" Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus, que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi , o reinado de seu pai sobre a casa de Jacó para sempre, e o seu reino não terá fim "(Lucas 1,30-33).

Se Deus Pai deu a Jesus o trono de Davi – que segundo o anjo é trono de seu pai -, é óbvio que esta regra vai manter as suas disposições habituais, manter a sua estrutura, de modo que foi chamado pelo anjo de "trono de Davi", porque não simplesmente dizer vai ser Rei, mas esclarece que esta regra vai estar no "trono de Davi". Lembre-se também que o próprio Senhor havia prometido a Davi que seu reino ficaria para sempre, que seu trono manter-se-ia firme para sempre.

"Tua casa e teu reino serão firmados para sempre diante de mim, o seu trono será firme, para sempre "(2 Samuel 7,16).

Agora, se nós concordamos que o reino de David vai durar para sempre - a promessa do próprio Deus - e Jesus é agora o rei do reino de Davi como aquele que recebeu este trono, vemos que o reino de David, a mãe do rei, veio a ser a rainha, é por isso que quando a Bíblia fala do início do reinado de cada um dos reis de Judá - a dinastia de Davi - mencionado automaticamente o nome de sua mãe, uma vez que eram as rainhas e esposas. Em outras palavras, o reino de Davi teria como rainha a Mãe do Rei:

"E Roboão, filho de Salomão, reinava em Judá. Roboão tinha quarenta e um anos quando começou a reinar ... nome de sua mãe era Naamá , amonita "(1 Reis 14,21).

"No décimo oitavo ano do rei Jeroboão, filho de Nebate, Abias tornou-se rei de Judá. Reinou três anos em Jerusalém e nome de sua mãe era Maaca , filha de Absalão "(1 Reis 15,1-2).

"Acazias tinha vinte anos quando começou a reinar, e reinou um ano em Jerusalém. E o nome de sua mãe era Atalia , neta de Onri, rei de Israel "(2 Reis 8:26, 2 Crônicas 22,02).

"No sétimo ano de Jeú que Joás começou a reinar, e reinou quarenta anos em Jerusalém, e do nome de sua mãe era Sebia de Beersheba (2 Reis 12:1, 2 Crônicas 24,1).

"No vigésimo sétimo ano de Jeroboão, rei de Israel, começou a reinar Azarias, filho de Amazias, rei de Judá ... O nome de sua mãe era Jecolia e Jerusalém "(2 Reis 15,1-2).

"No segundo ano de Peca, filho de Romelia, rei de Israel, Jotão, filho de Uzias, rei de Judá ... e nome de sua mãe era Jerusa a filha de Zadok "(2 Reis 15:32-33 , 2 Crônicas 27,1).

"No décimo oitavo ano do rei Jeroboão, Abias tornou-se rei de Judá ... e nome de sua mãe era Micaías , filha de Uriel de Gibeá (2 Crônicas 13:1-2).

"E Jeosafá reinou sobre Judá. Ele tinha trinta e cinco anos quando começou a reinar, .... E o nome de sua mãe era Azuba , filha de Sili "(2 Crônicas 20,31).

"Amazias tinha vinte anos quando começou a reinar, e reinou 29 anos em Jerusalém. O nome de sua mãe era Jeoadã e Jerusalém "(2 Crônicas 25,1).

"Tinha Uzias dezesseis anos quando começou a reinar, e reinou cinqüenta e dois anos em Jerusalém. O nome de sua mãe era Jecolia e Jerusalém "(2 Crônicas 26,3).

"Ezequias começou a reinar quando tinha 20 anos de idade, e reinou 29 anos em Jerusalém. nome de sua mãe era Abia , filha de Zacarias "(2 Crônicas 29,1).

Talvez me dirão meus irmãos protestantes que as citações referidas não mencionam especificamente que as mães de reis, rainhas são, no entanto, vale lembrar que, quando Bate-Seba, mãe de Salomão - na verdade, que era o rei no trono do David - veio falar com ele, Salomão imediatamente prostrou-se diante de sua mãe como um sinal de veneração e também depois de se sentar no seu trono, ele colocou outro trono à sua direita, para se sentar neste trono sua mãe. Não é à toa: quem se senta em um trono? A resposta é óbvia: só um rei ou rainha, por isso é um trono, caso contrário seria apenas um lugar, nada mais. E se o rei faz com que sua mãe se sentar em um trono, é porque sua mãe é uma rainha:

“Betsabé foi, pois, ter com o rei para falar-lhe em favor de Adonias. O rei levantou-se para ir-lhe ao encontro, prostrou-se diante dela e sentou-se no trono. Mandou colocar um trono para a sua mãe, e ela sentou-se à sua direita: Tenho um pequeno pedido a fazer-te, disse ela; não mo recuses. Pede, minha mãe, respondeu o rei, porque nada te recusarei.” (1 Reis, 2,19-20).

Diante do exposto, é possível que todavia, alguém não queria aceita que no reino de Davi, a mãe do rei é a rainha, pois alguns querem a citação textual, quando não se dão conta da incoerência de se pedir uma citação bíblica para tudo o que crêem. Pois, verão, caríssimos irmãos que, sim existe essa citação. No primeiro livro dos Reis e segundo de Crônicas, podemos encontrar que o rei Asa tirou de sua mãe Maaca o título de rainha, pois esta praticou a idolatria. Nota-se claramente que o título não foi negado à sua mãe, mas tirado dela. Ora, se foi tirado é porque o possuía.

“O rei Asa destituiu até de sua posição de rainha sua mãe Maaca, por ter feito um ídolo de asserá. Asa destruiu a imagem, deixou-a em pedaços e a queimou no vale de Cedron.” (2 Cron 15,16; 1 Reis 15,13).

Como podemos notar, está claramente demonstrado que no reino de Davi - o quel tem a Nosso Senhor Jesus Cristo como Rei - a mãe do rei tinha por sua vez, o título de rainha. Sendo assim, não havendo nada que diga ao contrário em relação a mudança a essa prerrogativa que a mãe do rei possui, é natural que nós católicos consideremos Maria, mãe do Senhor, como Rainha do Universo, posto que Jesus é o Rei do Universo.

De agora em diante, irmão protestante, eu te peço que antes que tu me solicites uma citação bíblica que diga que Maria é Rainha, me dê você uma citação bíblia que afirme que Jesus retirou de Sua Mãe, o título de Rainha. Onde a Escritura diz que Jesus retirou essa prerrogativa de Maria? Se Jesus reina no trono de Davi, por consequência Sua mãe é Rainha.

Por último, eu peço que reflita, amigo protestante. A Sagrada Escritura nos ensina que os que pertencem a Cristo reinarão com Ele. Tu crês nele, claro que sim, estou certo disso. Em outras palavras, não te escandalizas pensando e crendo que serás rei junto ao Senhor, pois sua palavra diz que sim, sem embargo, te escandalizas porque nós católicos cremos que Maria, a Mãe do Senhor, é Rainha. Não te parece uma incoerência?

“Se pelo pecado de um só homem reinou a morte (por esse único homem), muito mais aqueles que receberam a abundância da graça e o dom da justiça reinarão na vida por um só, que é Jesus Cristo!” (Romanos 5,17).

“Se soubermos perseverar, com ele reinaremos.” (2 Timóteo 2,12).

Por acaso, não se manteve Maria firme junto a Jesus, aceitando ser sua mãe (Lucas 1,38), em sua viagem ao Egito (Mateus 2,13-14), buscando-o quando se perdeu em Jerusalém (Lucas 3,43-48), acompanhando-o durante sua vida pública (Marcos 3,32), ao é da cruz (João 19,25), junto no princípio da Igreja (Atos 1,14)? Acaso Maria não recebeu em abundância a graça de Deus, tanto que assim o anjo a chamou de "cheia de Graça" (Lucas 1,28)? E se para aqueles que perseveram firme com o Senhor, Ele promete quer são reis para reinar ao seu lado, por que você se escandaliza, irmão protestante, se Maria que melhor cumpriu todas essas promessas, ser considerada e reconhecida como Rainha?

Traduzido por Alessandro Lima, para o Veritatis Splendor, do original em espanhol "¿Existe base bíblica para afirmar que María es reina del universo?", do site http://www.apologeticacatolica.org.



O Nascimento da Nova Eva

Alegra-te, Adão, nosso pai, e sobretudo tu, Eva, nossa mãe. Fostes ao mesmo tempo os nossos pais e os nossos assassinos; vós que nos destinastes à morte ainda antes de nos terdes dado à luz, consolai-vos agora. Uma das vossas filhas – e que filha! – vos consolará… Vem então, Eva, corre para junto de Maria. Que a mãe recorra à sua filha; a filha responderá pela mãe e apagará a sua falta… Porque a raça humana será agora elevada por uma mulher.

Que dizia Adão outrora? “A mulher que me deste ofereceu-me o fruto da árvore e eu comi.” (Gn 3,12) Eram palavras más, que agravavam a sua falta em vez de a apagarem. Mas a divina Sabedoria triunfou sobre tanta malícia; aquela ocasião de perdoar que Deus tinha tentado em vão fazer nascer, ao interrogar Adão, eis que agora a encontra no tesouro da sua inesgotável bondade. A primeira mulher é substituída por outra, uma mulher sábia no lugar da insensata, uma mulher humilde tanto quanto a outra era orgulhosa.

Em vez do fruto da árvore da morte, ela apresenta aos homens o pão da vida; substitui aquele alimento amargo e envenenado pela doçura dum alimento eterno. Muda então, Adão, a tua acusação injusta em expressão de agradecimento e diz: “Senhor, a mulher que tu me deste apresentou-me o fruto da árvore da vida. Comi dele e o seu sabor foi para mim mais delicioso do que o mel (Sl 18,11), porque por este fruto me devolveste a vida.” Eis porque é que o anjo foi enviado a uma virgem. Ó Virgem admirável, digna de todas as honras! Ó mulher que temos de venerar infinitamente entre todas as mulheres, tu reparas a falta dos nossos primeiros pais, tu dás vida a toda a sua descendência.

Trecho retirado da obra de S. Bernardo (1091-1153), Louvores da Virgem Maria - homilia 2.

Sermão da Glória de Maria, Mãe de Deus

Por Pe. Antônio Vieira.

Pregado na igreja de Nossa Senhora da Glória, em Lisboa, no ano de 1644.

Bem se concordam, neste dia e neste lugar, o título da casa com o da festa e o da festa com o da casa: a casa da Senhora da Glória e a festa da glória da Senhora. O Evangelho, que deve ser o fundamento de tudo que se há-de dizer, também eu o quisera concordar com essa glória; mas o que dele e dela se tem dito atè agora não concorda com o meu desejo, nem com o meu pensamento. O Evangelho diz que « escolheu Maria a melhor parte» : Maria optimam partem elegit; e os santos e teólogos, que mais se alargaram, aplicando essa escolha e essa parte á glória da senhora, se alargaram, aplicando esta escolha e esta parte à gloria da Senhora, só dizem que verdadeiramente foi a melhor; porque a glória a que a Senhora hoje subiu e está gozando no Céu, é melhor e maior glória que a de todos os bem-aventurados. Os bem-aventurados da Glória, ou são homens ou anjos, e não só em cada uma destas comparações, senão em ambas, dizem que é maior a glória de Maria que a de todos os homens e a de todos os anjos, e não divididos, mas juntos.

Grande glória! grande, incomparável, imensa! O Sol não só excede na luz a cada uma das estrelas, e a cada um dos planetas, senão a todas e a todos incomparavelmente. Por isso a Senhora neste dia se chama «escolhida como o Sol»: Quae est ista quae ascendit, electa ut Sol? O mar não só excede na grandeza a cada uma das fontes e a cada um dos rios, senão a todas e a todos imensamente; por isso a Senhora se chama Maria, que quer dizer mar, e só por este nome (que não tem outra cousa no Evangelho) se lhe aplicam as palavras dele: Maria optimam partem elegit. Isto é, como dizia, tudo o que dizem os santos e teólogos; mas nem o Evangelho assim entendido, nem a glória da Senhora assim declarada, nem a comparação dela assim deduzida, concordam com o meu pensamento. O Evangelho, dizendo: optimam partem, parece-me que quer dizer muito mais. A glória de Maria, sendo de Maria Mãe de Deus, parece-me que é muito maior, e a comparação com os outros bem-aventurados sòmente, parece-me muito estreita e quase indigna. O meu pensamento é (Deus me ajude nele!) que a comparação de glória a glória, não se deve fazer só entre a glória de Maria com a glória do todas as outras criaturas humanas e angélicas, senão com a glória do mesmo Criador delas, a quem Maria criou. O texto e a palavra optimam a tudo se estende, porque sendo superlativa, põe as cousas no sumo lugar, do qual se não exclui Deus, antes se inclui essencialmente. Neste tão remontado sentido, pretendo provar e mostrar hoje que, comparada a glória de Maria com a glória do mesmo Deus e fazendo da glória de Deus e da glória de Maria duas partes, a melhor parte é a de Maria: Maria optimam partem elegit. Até não me ouvirdes, não me condeneis. E espero que me não haveis de condenar, se a mesma Senhora da Glória me assistir com sua graça. Ave Maria.

II

Maria optimam partem elegit. Suspensos considero todos os que me ouvem, na expectação do assunto que propus: os curiosos com indiferença, os devotos com alvoroço, os críticos com a censura já prevenida, e todos com razão. É certo e de fé que, por grande e grandíssima que seja a glória de Maria Senhora nossa, a glória de Deus é infinitamente maior, assim como ele ( que só se compreende ) é por natureza infinito. Pois se a glória de Maria, como glória de pura criatura, posto que criatura a mais excelente de todas, é glória finita, e infinitamente menor que a glória de Deus; como me atrevo eu a afirmar, e como se pode entender que, ainda em comparação da glória do mesmo Deus, se verifiquem as palavras do Evangelho na glória de Maria, e que goze Maria a melhor parte? Maria optimam partem elegit?

Para inteligência desta verdade, nas mesmas palavras do Evangelho temos outra dúvida não menos dificultosa, que se deve averiguar primeiro. Esta, que o texto chama a melhor parte, diz o mesmo texto que Maria a escolheu: Maria optimam partem elegit; e também esta escolha não tem lugar nem se pode verificar na glória da Senhora. A eleição para a glória é só de Deus: Deus é o que elegeu e escolheu para a glória todos os bem-aventurados, que por isso se chamam escolhidos; e ainda que entre todos os escolhidos a Senhora tenha o primeiro e mais sublime lugar, ela também foi escolhida, e não a que escolheu. Assim o canta a Igreja, quando canta a mesma entrada da Senhora no Céu: Elegit eam Deus et præ elegit eam, in tabernáculo suo habitare facit eam.

Pois se Maria foi a escolhida para a glória que tem no céu, e a escolha foi de Deus e não sua; como diz a mesma Igreja, nas palavras que lhe aplica, que a Senhora foi a que escolheu e elegeu esta melhor parte? Maria optimam partem elegit?

__ Na inteligência desta segunda dúvida consiste a solução da primeira. Ora vede e com atenção.

É certo que a Senhora foi escolhida por Deus para a glória e também é certo que a glória de Deus é infinitamente maior que a glória da Senhora; e contudo diz o Evangelho que Maria foi a que escolheu e que escolheu a melhor parte, uma e outra cousa com grande mistério e energia. Diz que Maria foi a que escolheu; porque ainda que a eleição não foi da Senhora, a grandeza de sua glória é tão imensa, que não parece que foi a glória escolhida para ela, senão que ela foi a que a escolheu para si. E diz que Maria escolheu a melhor parte; porque ainda que a glória de Deus é infinitamente maior que a sua, a melhor parte que pode escolher uma mãe é que a glória de seu Filho seja a maior. Como Maria é mãe de Deus, e Deus Filho de Maria, mais se gloria a Senhora de que seu Filho goze esta infinidade de glória, e de ela a gozar em seu filho, do que se a gozara em si mesma. E daqui se segue que considerada a glória de Deus e a glória de Maria em duas partes, porque a parte de Deus é a máxima, por isso a parte de Maria é a óptima: Maria optimam partem elegit.

Para todos os que sois pais e mães, não hei mister maior, nem melhor prova do que digo, que os vossos próprios afectos e o ditame natural dos vossos corações. Dizei-me: se houvera neste mundo uma dignidade, uma honra, uma glória maior que todas, e se pusera na vossa eleição e na vossa escolha querê-la para vós ou para vosso filho, para quem a havíeis de querer? __ Não há dúvida que para vosso filho. Pois isto mesmo é o que devemos considerar na glória da Senhora. É verdade que a glória de Deus é infinitamente maior que a de sua Mãe; mas como todo esse excesso de glória é de seu Filho e está em seu filho, ela a possui e goza em melhor parte, que se a gozara em si mesma. Assim entendo e suponho que o entendem todos os que são pais e mães. Mas porque muitos dos que me ouvem não têm esta experiência, e porque em algum coração humano, ainda que paterno ou materno, pode estar este mesmo afecto menos bem ordenado; para glória da Senhora da Glória, e para maior evidência de que mais gloriosa é pela glória de seu Filho que pela sua, e que gozando nele toda essa glória, a goza na melhor parte, ouçamos e provemos esta mesma verdade, pelo testemunho universal e concorde de todas as letras sagradas, eclesiásticas e profanas. No primeiro lugar ouviremos os filósofos, no segundo os Santos Padres da Igreja, no terceiro as Escrituras divinas, e no último ao mesmo Deus na pessoa do Pai; e veremos quão conforme foi o seu afecto com o desta Soberana Mãe, pois ambos são Pai e Mãe do mesmo Filho.

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III

Comecemos pelos filósofos. Põe em questão Séneca e disputa subtilìssimamente no Livro III dos cinco que intitulou De Beneficiis, se pode um filho vencer em algum benefício a seu pai? A razão de duvidar é porque o primeiro e maior benefício é o ser, e havendo o pai dado o ser ao filho, o filho não pode dar o ser a seu pai. Mas esta diferença não tem lugar no nosso caso, porque falamos de um Pai, e de uma Filha, em. que o Pai é juntamente Pai e Filho da mesma Mãe e a Mãe é juntamente Mãe e Filha do mesmo Pai. Abstraindo, porém deste impossível da natureza, que os filósofos gentios não conheceram, resolve o mesmo Séneca que bem pode um filho vencer no maior benefício a seu pai, e o prova com o exemplo de Eneias, o qual, por meio das lanças dos Gregos e do incêndio e labaredas de Tróia, levando sobre seus ombros ao velho Anquises, deu mais heròicamente a vida a seu pai do que dele a recebera . À vista deste famoso espectáculo de valor e de piedade, não há dúvida que venceu o filho ao pai. Mas qual foi então mais glorioso: o filho vencedor ou o pai vencido? A este exemplo ajunta o mesmo filósofo o de Antíloco e de outros que deram a seus pais mais ainda que o ser e a vida que lhes deviam, e conclui assim: Felices qui vicerint, felices qui vincentur: quid autem est felicius quam sic cedere? Quando os filhos vencem aos pais e se ostentam maiores que eles, « felizes são os que vencem e felizes os vencidos; mas muito mais felizes os pais vencidos que os filhos vencedores, porque não pode haver maior gosto, nem maior glória para um pai, que ver-se vencido de seu filho.» Grande glória é do filho que vença ao pai, que lhe deu o ser; mas muito maior glória é do mesmo pai, ver que deu o ser a um tal filho que o vença a ele.

Isto que disse Séneca, falando dos benefícios, corre igualmente, e muito mais em todas as outras acções ou grandezas, em que os pais se vêem vencidos dos filhos. Ouçamos a. outro filósofo, que: melhor ainda que Séneca, conheceu os afetos naturais, e não só em mais harmonioso estilo, mas com mais profunda especulação que todos, penetrou a anatomia do coração humano.

Faz paralelo Ovídio entre os dois primeiros Césares, Júlio e Augusto, aquele pai, e este filho; e depois de assentar que « a maior obra de Júlio César foi ter um tal filho como Augusto: Nec enim de Cæ saris actis ullum maius opus, quam quod pater extitit hujus, supõe com a comum opinião de Roma, que um cometa que na morte de Júlio César apareceu, era a alma do mesmo Júlio colocada entre os deuses como um deles. E no meio daquela imaginada bem-aventurança, qual vos parece que seria a maior glória de um homem que nesta vida tinha logrado todas as que pode dar o Mundo? __ Diz o mesmo Ovídio, (tão falso na. suposição como poeta, mas tão certo no discurso como filósofo) que o que fazia lá de cima. Júlio César era olhar para sen filho Augusto, e que, « considerando as grandezas do mesmo filho e reconhecendo e confessando que eram maiores que ar suas, o seu maior gosto e a sua maior glória era ver-se vencido dele» : Natique videns benefacta, fatetur esse suis maiora, et vinci gaudet ab illo.

Ah Virgem gloriosíssima, no Céu estais verdadeiramente, como crê e adora a nossa Fé, mas nas sombras escuras e falsas deste fabuloso pensamento, que consideração haverá que não reconheça quais são lá os mais intensos afectos e as maiores glórias do vosso? Estais vendo e contemplando, como em um espelho claríssimo, o infinito ser, os infinitos atributos, a infinita e imensa majestade de vosso Unigénito Filho; conheceis e « confessais que as suas grandezas excedem, e são também infinitamente maiores que as vossas» : Fatetur esse suis maiora; mas a mesma evidência de que vosso Filho vos vence e excede na glória, é a melhor parte da mesma glória vossa, e a de que mais vós gozais e gozareis eternamente com ele: Et vinci gaudet ab illo.

Quem pudera imaginar que Júlio César, vencedor de Cipião e de Pompeu __ e de tantos outros capitães famosos, que junto a estes perdem o nome __ triunfador da África, do Egipto, das Gálias e das Espanhas e da mesma Roma; aquele enfim, de tão altivo coração que ninguém sofreu lhe fosse superior ou igual no Mundo; quem pudera imaginar, digo, que havia de gostar e gloriar-se de ser vencido de outro? Mas como Augusto que o vencia era filho seu, o ser vencido dele era a sua maior vitória, este o maior triunfo de seus triunfos, esta a maior glória de suas glórias: Et vinci gaudet ab illo.

Mas porque neste exemplo nos não fique o escrúpulo de ser adulação poética, posto que tão conforme ao afecto natural, confirmemo-lo com testemunho histórico e verdadeiro, em nada menor que passado, e porventura mais notável.

Celebra Plutarco, tão insigne historiador como filósofo, o grande extremo com que Filipe, rei de Macedónia, amava a seu filho Alexandre, já digno do nome de Grande em seus primeiros anos, pela índole e generosidade real que em todos seus pensamentos, ditos e ações resplandecia. E para prova deste extremado afecto, refere uma experiência que nos vassalos pudera ser tão arriscada, como do rei mal recebida, se o amor de pai a filho a não interpretara de outra sorte. Foi o caso que os Macedónios, sem embargo da fé que deviam a Filipe, pùblicamente chamavam a Alexandre o rei e a Filipe o capitão. Mas como castigaria Filipe este agravo? __ Não há ciúmes mais impacientes, mais precipitados e mais vingativos que os que tocam no ceptro e na coroa. Apenas tem havido púrpura antiga nem moderna, que por leves suspeitas neste género se não tingisse em sangue. E que sofra Filipe, aquele que tanto tinha dilatado o império de Macedónia, que seus próprios vassalos em sua vida, e em sua presença lhe tirem o nome de rei e o dêem a Alexandre!

Muito fora que o sofresse, mas muito mais foi, que não só o sofria., senão que o estimava e se gloriava muito disso. Ouvi a Plutarco: Hinc filium non immerito Philippus dilexit, ut etiam gauderet, cum Alexandrum Macedones regem, Philippum appellarent Ducem. Era Filipe pai e Alexandre filho, e tão fora estava o pai de sentir que lhe antepusessem o filho, que antes o tinha por lisonja e glória, e esse era o seu maior gosto: Ut etiam gauderet. quando lhe tiravam a coroa para a darem a. seu filho, então se tinha Filipe por mais coroado; quando já faziam a Alexandre herdeiro do reino, antes de lhe esperarem pela morte, então se tinha por imortal; quando o apelidavam com menor nome, então se tinha por maior. E quando lhe diziam que ele só era capitão, então aceitava esta gloriosa injúria, como os vivas e aplausos da mais ilustre vitória; porque a maior glória de um pai é ser vencido de seu filho: Et vinci gaudet ab illo.

A razão e filosofia natural deste afecto é porque ao maior desejo, quando se consegue, segue-se naturalmente o maior gosto; e o maior desejo que têm e devem ter os pais, é serem tais seus filhos, que não só os igualem, mas os vençam e excedam a eles. Assim o disse ou cantou ao Imperador Teodósio Claudiano, tão insigne na filosofia como na poética. Descreve copiosamente as virtudes imperiais, militares e políticas com que seu filho Honório se adiantava admiràvelmente aos anos, e não só igualava, mas excedia a seu pai; e fazendo uma apóstrofe a Teodósio, lhe diz confiadamente assim: Aspice nunc quacumque micas, seu circulus austri, magne parens, gelidi seu te meruere Triones, aspice, completur votum, jam natus adæ quat te meritis, et quod magis est optabile, vincit: « De lá onde como estrela, de Marte ilustrais o Mundo com vossas vitórias, ou seja no círculo do astro, ou no frio Setentrião, olhai, felicíssimo César, para Honório vosso filho, e se como imperador tendes conseguido o nome de Grande, chamando-vos a voz pública Teodósio o Magno, a minha (diz Claudiano) não vos invoca com o nome de grande imperador, senão com o de grande pai: Magne parens; e o que celebro mais entre todas as glórias de vossa felicidade e o que tenho por mais digno do emprego de vossa vista, é que vejais e torneis a ver: Aspice, aspice; que chegastes a ter um filho, o qual não só vos iguala, que é o que desejam os pais, mas que já vos excede e vence, que é o que mais devem desejar: Et quod magis est optabile, vincit» .

Notai muito as palavras: Quod magis est optabile, e aplicai-as ao nosso caso. O que mais se deve desejar é o melhor que se pode escolher; e como o que mais devem desejar os pais é que os filhos os vençam e os excedam, bem se conclui que, se entre a glória de Deus e a de sua Mãe fora a escolha da mesma Mãe, o que a Senhora havia de escolher para si é que seu Filho a excedesse e vencesse na mesma Gloria, como verdadeiramente a excede e vence: Et quod magis est optabile, vincit. Vence Deus incomparàvelmente a sua Mãe na glória infinita que goza, mas como este mesmo excesso é o mais que Maria podia desejar e o melhor que devia escolher como Mãe, por isso se diz com razão que Maria escolheu hoje a melhor parte: Maria optimam partem elegit.

IV

Temos ouvido os filósofos, que falam pela boca da natureza; ouçamos agora os santos padres, que falam pela da Igreja.

São Sidónio Apolinar, bispo arvernense e padre do V Século, escrevendo a Audaz, prefeito dos reis godos no tempo em que dominaram Itália, promete-lhe suas orações e conclui com estas palavras: Deum posco, ut te filii consequantur, et quod magis decet velle, transcendant: « Rogo a Deus por vós e por vossos filhos, diz o eloquentíssimo Padre, e o que peço para eles é que vos imitem; o que peco para vós é que vos excedam, porque vos imitem, porque isso é ~ que eles devem fazer; que vos excedam, porque isto é o que vós deveis desejar: Et quod magis decet velle, transcendant» .

Oh quisesse Deus que fossem hoje tais os pais, e tal a criação dos filhos, que por uns e outros lhes pudéssemos fazer esta oração! Mas é tanto pelo contrário que podemos chorar da nossa idade o que o outro gentio lamentava da sua: Æ tas parentum peior avis tulit nos nequiores, mox daturos progeniem vitiosiorem: « Os avós foram maus, os filhos são piores, os netos serão péssimos» . Haviam-se de prezar os pais, não só de ser bons, mas de dar tal criação aos filhos, que se pudessem gloriar de serem eles melhores. Mas deixadas estas lamentações, que não são para dia tão alegre, continuemos a ouvir os Santos Padres, e sejam os dois maiores da Igreja grega e latina __ Nazianzeno e Agostinho.

Faz duas elegantes epístolas S. Gregório Nazianzeno, uma a Nicóbulo, famoso letrado, em nome de um seu filho, em nome do mesmo Nicóbulo; e na primeira, pedindo o filho ao pai que lhe dê licença para frequentar as escolas e seguir as letras, diz assim: Gratia quam posco, genitor charissime, patris est mage, quam nati: « a graça que vos peço, pai meu, é mais para vós que para mim, e mais é vossa que minha» . Se isto dissera o moço, que ainda não tinha mais que o desejo de saber, não me admirara o dito; mas falando por boca dele o grande Nazianzeno, do qual com singular elogio elogia a Igreja, que em nenhuma cousa da que escreveu, errou; como pode ser que a glória do filho seja mais do pai que do mesmo filho: Patris est mage quam nati? E se esta preposição é verdadeira, segue-se dela, aplicada ao nosso intento, que a glória de Deus é mais de Maria que do mesmo Deus, porque Deus é filho e ela é Mãe. E porque não faça dúvida o falarmos da glória de um de outro, com a mesma palavra explica o santo Padre nas que logo acrescenta: Glória namque patris natorum est fama, decusque, ut rursus natis est glória fama parentum. Como pode ser logo neste caso, ou em algum outro, que a glória do filho seja mais do pai que do filho: Patris est mage, quam nati ?

Não há dúvida que falou nesta sentença Nazianzeno como quem tão altamente penetrava e distinguia a subtileza dos afectos humanos, entre os quais o amor paterno, como é o mais eficaz e muito forte, é também o mais fino. Diz que a glória do filho é glória do pai, que do mesmo filho; porque mais se gloriam os pais de a gozarem seus filhos ou de a gozarem neles, que se a gozaram em si mesmos. E neste sentido se pode dizer com verdade e propriedade natural que a glória de Deus em certo medo é mais de Maria que do mesmo Deus; porque, não sendo sua, como não é, é do filho ùnicamente seu, em quem ela mais estima, e da qual mais se gloria que se pudera ser, ou fora sua.

Isto é o que o disse Nazianzeno ao pai por boca do filho; vejamos agora o que diz e responde ao filho por boca do pai: Sis sane præ stantior ipse parente: Queres, filho, seguir-me na profissão e ser grande, como o mundo e a fama diz que sou, na ciência e nas letras? Sou contente; mas não me contento só com isso: o que peço a Deus é que « saias tão eminente nelas, que me faças grandes vantagens, e sejas muito maior que teu pai: « Sis sane præ stantior ipse parente» . Assim diz Nicóbulo, ou Nazianzeno por ele, e dá a razão tão própria no nosso caso, como se eu a dera: « Gaudet enim genitor, cum palmam præ ripit ipsi virtutis sua progenies: maiorque voluptas hinc oritur, quam si reliquos præ verteret omnes: Desejo, filho, que sejas maior que eu; porque « não há gosto para um pai, como ver que seu filho lhe leva a palma, e de se ver assim vencido dele, se gloria muito mais que se vencera, e se avantajara a todos quantos houve no Mundo» .

Mudai, agora o nome de Genitor em Genitrix, e entendei que falou Nazianzeno da glória de Maria no Céu, onde tão gloriosamente se vê vencida da glória de seu Filho: Gaudet enim Genitrix, cum palmam præ ripit virtutis sua progenies. Vê-se Maria, quando vê a Deus, infinitamente vencida da imensidade de sua glória; mas como é glória, não de outrem, senão de seu Filho: Sua progenies, o ver-se vencida dele é a sua vitória e a sua palma: Cum palmam præ ripit ipsi. Nas outras contendas a palma é do vencedor, mas quando contende o filho com o pai ou com a mãe, a palma é do pai ou da mãe vencida; porque a sua maior glória é ter um filho que a vença nela.

Este dia da Senhora da Glória chama-se também da Senhora da Palma; porque, como é tradição dos que assistiram a seu glorioso trânsito, o anjo embaixador de seu Filho, que lhe trouxe a alegre nova, lhe meteu juntamente na mão uma palma, com a qual, como vencedora da Morte e do Mundo, entre as aclamações e vivas de toda a corte beata, entrasse triunfante no Céu. Subi, Senhora, subi, subi ao trono da glória que vos está aparelhado sobre todas as jerarquias, que lá vos espera outra palma infinitamente mais gloriosa. E que palma? Não aquela com que venceis em glória a todos os espíritos bem-aventurados, senão aquela com que na mesma glória sois vencida de vosso filho: Cum palmam præ ripit ipse sua progenies. Grande glória da Senhora é, como lhe canta a Igreja, ver-se exaltada no Céu sobre todos os coros e jerarquias dos espíritos angélicos; grande glória que os principados e potestades que os querubins e serafins lhe ficam muito abaixo, e que no lugar, na dignidade, na honra, na glória excede incomparàvelmente a todos; porém o ver que neste mesmo excesso de glória é excedida infinitamente de seu Filho; isso é o de que naquele mar imenso de glória mais se gloria, isto é o de que naquele verdadeiro paraíso dos deleites eternos mais a deleita: Maiorque voluptas hinc oritur, quam si reliquos præ verteret omnes.

Mas ouçamos já a Agostinho, que mais subtilmente ainda penetrou os efeitos e causas desta tão verdadeira, como racional complacência. Escreve Santo Agostinho em seu nome e no de Elvídio a Juliana, mãe da virgem Demetríade, bem celebrada nas epístolas de S. Jerónimo; e porque esta senhora romana de nobreza consular, desprezadas as grandezas, riquezas e pompas do Mundo, se tinha dedicado toda a Deus no estado mais sublime da perfeição evangélica, dá o parabém Agostinho à mãe com estas ponderosas palavras: Te volentem, gaudentemque vincit: genere ex te, honore supra te: in qua etiam tuum esse cæ pit, quod in te esse non potuit: « Vossa filha Demetríade, ó Juliana, vence-vos, sim, na alteza do estado, a que a vedes sublimada; mas muito por vossa, vontade e muito por vosso gosto vos vence» : Volentem, gaudentemque vincit; « porque é filha vossa aquela de quem vos vedes vencida» : Genere ex te, honore supra te. « A honra que goza é muito sobre vós, mas como a geração que tem é de vós, também esta mesma honra é vossa; porque o que não podeis ter, nem alcançar em vós e por vós, já o tendes e gozais nela por ser vossa filha»: In qua etiam tuum esse cæ pit, quod in te esse non potuit. Vai por adiante Agostinho, ainda com mais profundo pensamento: Illa carnaliter non nupsit ut non tantum sibi, sed etiam tibi, ultra te, spiritualiter augeretur, quoniam tu ea compensatione minor illa es, quod ita nupsisti, ut nasceretur: « Demetríade, vossa filha, é maior que vós, e vós menor que ela; mas se ela vos excedeu a vós no que tem de maior, não vos excedeu só para si, senão também para vós; porque esse excesso se compensa com nascer de vós: Non tantum sibi, sed etiam tibi, ultra te, ea compensatione ut nasceretur.

Em uma só cousa não vem própria a semelhança, porque Maria pode ser Mãe como Juliana e Virgem juntamente como Demetríade; mas em tudo o mais especulou e ponderou a agudeza de Agostinho, quanto se pode dizer no nosso caso.

Te volentem, gaudentemque vincit. « Venceu-nos vosso Filho na glória, Virgem Mãe, mas muito por vossa vontade e por vosso gosto» ; porque « esse mesmo excesso de glória por ser sua, é o que mais quereis e de que mais vos gozais»: Genere ex te, honore supra te. A sua honra, a sua grandeza, a sua majestade, a sua glória imensa e infinita, é muito sobre vós, porque ele é Deus, e vós criatura: Honore supra te; mas a geração desse mesmo Deus, que é tanto sobre vós, é de vós: Genere ex te. E que se segue de aqui? Segue-se que « tendes o que não podíeis ter, e que toda a glória sua, começa também a ser vossa» : Etiam tuum esse cæ piet, quod in te esse non potuit. Vós não podíeis ser Deus, mas como Deus pode fazer que fôsseis sua Mãe, tudo o que não podíeis ter em vós, tendes nele. Ele é maior que vós, e vós menor: Minor est: mas tudo o que tem de maior, (que é tudo) « não só o tem para si senão também para vós»: Non tantum sibi, sed tibi, ultra te.

Oh quem pudera declarar dignamente a união destes termos, ultra te et tibi! Enquanto a glória de Deus é infinita e imensa, estende-se muito «além de vós»: Ultra te; mas em quanto é glória de vosso Filho, toda se contrai e reflecte a vós: Tibi. Para os raios do sol fazerem reflexão, é necessário que tenham limite onde parem; mas a glória da Divindade de vosso Filho, que não tem nem pode ter limite, por isso se limitou à Humanidade que recebeu de vós, para reflectir sobre vós, nascendo de vós: Ea compensatione, ut nasceretur. E chama-se este nascer de vós compensação ou recompensa com que Deus vos compensou toda a grandeza e glória, que tem mais que vós; porque, nascendo de vós, é vosso verdadeiro Filho; e sendo toda essa glória de vosso Filho, também é vossa, e vossa naquela parte onde a tendes por melhor: Optimam partem elegit.

V

Parece que não podia falar mais concordemente ao nosso intento, nem a filosofia dos Gentios, nem a teologia dos Santos Padres. Vejamos agora o que dizem as Escrituras Sagradas.

O primeiro exemplo que elas nos oferecem, é o famoso do Barcelay. No tempo em que Absalão se rebelou contra David, (que tão mal pagam os filhos a seus pais o amor que lhes devem) um dos senhores que seguiram as partes do rei foi este Barcelay, o qual o assistiu sempre tão liberal e poderosamente, que ele só, como refere o texto, lhe sustentava os arraiais. Restituído pois David à coroa e lembrado deste serviço ou gentileza, de que outros príncipes se esquecem com a mudança da fortuna, qui-lo ter junto a si na corte e fazer-lhe a mercê e honra que sua fidelidade merecia; e para o vencer na liberalidade ou não ser vencido dele, disse-lhe que ele mesmo se despachasse, porque « tudo quanto quisesse lhe concederia» : Quidquid tibi placuerit, quod petieris a me, impetrabis. Generoso rei! Venturoso vassalo! Mas para quem vos parece que quereria toda esta ventura? Era Barcelay pai, tinha um filho que se chamava Caimam, escusou-se de aceitar o lugar e mercê que o rei lhe oferecia, e o que só lhe pediu foi que a fizesse a seu filho: Est servus tuus Caimam, ipse vadat tecum, et fac ei quidquid tibi bonum videtur.

Dirão os que têm lido esta história, que se escusou Barcelay porque se via carregado de anos, como ele mesmo disse; mas isso só foi um desvio e modo de não aceitar cortêsmente, e não é razão que satisfaça, pois vemos tantas velhices decrépitas, tão enfeitiçadas das paredes de palácio, que, tropeçando nas escadas, sem vista e sem respiração, as sobem todos os dias, bem esquecidos dos que lhes restam de vida. E quando Barcelay não fosse tocado deste contágio, ao menos podia dividir a mercê entre si e o filho, e aparecerem ambos na corte, como vemos muitos títulos com duas caras (a modo do Deu), uma com muitas cãs e outra sem barba. Mas a verdadeira razão por que este honrado pai não aceitou a mercê do rei para si e a pediu para seu filho, nem a dividiu entre ambos, podendo, pois estava na sua eleição, foi (como dizem literalmente Lira e Abulense) porque era pai, e entendeu que tanto lograva aquela honra em seu filho, como em si mesmo, porque nele era mais sua, como acima disse S. Gregório Nazianzeno. E porque o santo não deu a razão da sua sentença, nós a daremos e provaremos agora como outro mais notável exemplo da. Escritura.

Quando Abraão sacrificou seu filho Isaac, é cousa mui notável e mui notada que, sendo Isaac a vítima do sacrifício, os louvores desta ação e desta obediência, todos se dêem a Abraão e não a Isaac. Isaac, não se ofereceu com grande prontidão ao sacrifício? Não se deixou atar? Não se inclinou sobre o altar e se lançou sobre a lenha? Não viu sem horror desembainhar a espada? Não aguardou sem resistência o golpe? Que mais fez logo Abraão, para que a obediência de Isaac se passe em silêncio e a de Abraão se estime, se louve, se encareça com tanto excesso? Nenhuma diferença houve no caso, senão ser Abraão pai e Isaac filho. Amava Abraão mais a vida de Isaac que a sua, e vivia mais nela que Em si mesmo; e posto que ambos sacrificaram a vida e a mesma vida, o sacrifício de Abraão foi maior e mais heróico que o de Isaac, porque se Isaac sacrificou a sua vida, Abraão sacrificou a vida que era mais que sua, porque era de seu filho.

Atèqui está dito e bem dito; mas eu passo àvante e noto o que, a meu ver, é digno ainda de maior reparo: Premiou Deus esta famosa ação de Abraão, e como a premiou, e em quem? Não a premiou no mesmo Abraão, senão em Isaac: Quia fecist rem hanc, benedicentur in semine tuo omnes gentes: in Isaac vocabitur tibi semem. Pois se a ação do sacrifício foi celebrada em Abraão e não em Isaac, porque foi premiada em Isaac e não em Abraão? __ Por isso mesmo. A ação foi celebrada em Abraão e não em Isaac, porque Isaac sacrificou a sua vida e Abraão sacrificou a vida que estimava mais que a sua, porque era de seu filho; e da mesma maneira foi premiada em Isaac e não em Abraão, para que o prémio, sendo de seu filho, fosse também mais estimado dele do que se fora seu. A vida que sacrificastes era mais que vossa, porque era de vosso filho? Pois seja o prémio também de vosso filho, para que seja mais que vosso. E como os pais estimam mais os bens dos filhos que os seus próprios, e os logram e gozam mais neles que em si mesmos, vede se escolheria ou quereria a Senhora a imensa glória de seu Filho antes para ele que para si, se a terá por sua e mais que sua, e se as mesmas vantagens de glória, em que infinitamente se vê excedida., serão as que mais gloriosa a fazem e de que mais se gloria!

O mesmo Filho de Maria, por ser Filho seu, se chama também Filho de David; e na história do mesmo David nos dá a Escritura Sagrada o maior e mais universal testemunho, que para prova desta verdade, se pode desejar nem ainda inventar. Chegado David ao fim da vida, quis nomear sucessor do reino, e mandou ungir a seu filho Salomão por rei. Deu esta ordem a Banaias, capitão dos guardas da pessoa real, o qual lhe beijou a mão pela eleição, que não era pouco controversa, e o cumprimento com que falou ao rei, foi este: Quomodo fuit Dominus cum Domino meo rege, sic sit cum Salomone, et sublimius faciat solium ejus a solio Domini mei regis David: « Assim como Deus assistiu sempre e favoreceu a Vossa Majestade, assim assista e favoreça o reinado de Salomão, e sublime e exalte o seu trono muito mais que o trono de Vossa Majestade» . Executou-se prontamente a ordem, ungirarn a Salomão no monte Gion com todas as cerimónias que então se usavam em semelhante celebridade; entrou o novo rei por Jerusalém a cavalo, com trombetas e atabales diante, entre vivas e aclamações de todo o povo e exército; vieram todos os príncipes e ministros maiores dos doze tribos congratular-se com David, e as palavras com que lhe deram o parabém, foram outra vez as mesmas: Amplificet Deus nomen Salomonis super nomen tuum, et magnificet thronum ejus super thronum tuum: « Seja maior o maior o nome de Salomão, Senhor, que o vosso nome, e mais alto e glorioso o seu trono, do que foi o vosso.

O que me admira sobretudo neste caso, é que todos dissessem a mesma cousa. Estas são as ocasiões em que a discrição, o engenho e a cortesania dos que dão o parabém aos reis, se esmera em buscar cada um novos modos de congratulação, novos motivos de alegria, e ainda novos conceitos de lisonja, e mais os que fazem a fala em nome dos seus tribunais ou repúblicas. Como logo em tantos tribos, tantos ministros, tantos príncipes e senhores, (que, como diz o texto, vieram todos) não houve quem falasse por outro estilo, nem dissesse outra cousa a David, senão que Deus fizesse a seu filho maior que ele e sublimasse e exaltasse o trono de Salomão, mais que o seu trono? Isto disseram todos. porque a um rei tão famoso e glorioso corno David, nenhuma outra felicidade nem glória lhe restava para desejar, senão que tivesse um filho que em tudo se lhe avantajasse e o excedesse, e que o trono do mesmo filho fosse muito mais levantado e sublimado que o seu. A David, em quanto David, bas- tava-lhe por glória ter sido David; mas em quanto pai, não lhe bastava. Ainda lhe restava outra maior glória que desejar, e esta era ter um tal filho, que na majestade, na grandeza, na glória e no mesmo trono, o vencesse e excedesse muito: Et magnificet thronum ejus super thronum tuum.

Dois tronos há no Céu mais sublimes que todos: o de Deus e o de sua Mãe; o de Deus infinitamente mais alto que o de sua Mãe, e o de sua Mãe infinitamente mais alto que o de todas as criaturas. Mas a maior glória. de Maria, não consiste em que o seu trono exceda o de todas as jerarquias criadas, senão em ter um Filho cujo trono exceda infinitamemte o. Este é o parabém que no Céu lhe estão dando hoje e lhe darão por toda a, eternidade todos os espíritos bem-aventurados, sem haver em todos os coros de homens e anjos quem diga nem possa. dizer outra cousa, senão: Thronus ejus super thronum tuum. Vence Maria no Céu a. todas as Virgens, na glória que se deve à pureza.; a todos os confessores, na que se deve à humildade; a todos os mártires, na que se deve à paciência; todos os apóstolos, patriarcas e profetas, na que se deve à Fé, à Religião, ao zelo e culto da honra de Deus. Mas assim os confessores como as virgens, assim os mártires como os apóstolos, assim os patriarcas como os profetas, deixadas todas essas prerrogativas em que gloriosamente se vêem vencidos, os louvores e euges eternos com que exaltam a Gloriosíssima Mãe, é ser inferior o seu trono ao de seu Filho: Thronus ejus super thronum tuum. Vence Maria a todos os, anjos e arcanjos, a todos os principados e potestades, a todos os querubins e serafins, na virtude, no poder, na ciência, no amor, na graça, na glória. Mas todos estes espíritos angélicos, passando em silêncio os outros dons sobrenaturais que tocam a cada urna das jerarquias, em que veneram e reconhecem a soberana superioridade com que a Senhora, como rainha de todas, incomparàvelmente as excede; todos, como tão discretos e entendidos o que só dizem e sabem dizer; o que sobre tudo admiram e apregoam, é: Thronus ejus super thronum tuum. Assim que, homens e anjos, unidos no mesmo conceito e enlevados no mesmo pensamento, o que cantam, o que louvam, o que celebram, prostrados diante do trono da segunda Majestade da Glória, e os vivas que lhe dão concordemente, é ser Mãe de um Filho que, excedendo ela a todos em tão sublime grau na mesma glória, ele a vence e excede infinitamente. E isto é o que, divididos em dois coros de inumeráveis vozes e unidos em urna só voz, aplaudem, aclamam, festejam, e tudo o mais calam, conformando-se nesta eleição com a parte da mesma glória que a Senhora elegeu por melhor: Optimam partem. elegit.

VI

E porque a preferência desta eleição não fique só no juízo dos entendimentos criados, subamos aos arcanos do entendimento divino, e vejamos como o Eterno Pai, em tudo o que teve liberdade para eleger e escolher, também escolheu esta parte e a teve por melhor.

Para inteligência. deste ponto havemos de supor que tudo quanto tem e goza, o Filho de Deus o recebeu de seu Padre, mas por diferente modo. O que pertence à natureza e atributos divinos recebeu o Verbo Eterno do Eterno Padre, não por eleição e vontade livre do mesmo Padre, senão natural e necessàriamente. E a razão é porque a geração do Divino Verbo procede por acto do entendimento, antecedente a todo acto da vontade. sem o qual não há eleição. É verdade que, ainda que a geração do Verbo não procede por vontade nem é voluntária, nem por isso é involuntária ou contra vontade. E daqui se ficará entendendo a energia e propriedade daquelas dificultosas palavras de S. Paulo, onde diz: que a igualdade que o Filho tem com o Padre na natureza e atributos divinos, não foi furto, nem o mesmo Verbo o reputou por tal: Non rapinam arbitratus est esse se æ qualem Deo. E porque declarou S. Paulo o modo da geração do Verbo pela semelhança ou metáfora do furto, dizendo que não foi furto, nem como furtado ou roubado o que recebeu do Padre? __Divinamente, por certo, e não se podia declarar melhor. O furto é aquilo que se toma ou se retém e possui, invito domino __ « contra vontade de seu dono. E a Divindade que o Verbo recebeu do Padre, ainda que da parte do mesmo Padre não fosse voluntária, contudo não foi invita; não foi voluntária, sim, mas não foi contra vontade. E como o Padre não foi invito na geração do Verbo e na comunicação da sua Divindade (posto que fosse necessária e não livre, por isso a igualdade que o Verbo tem com ele, é verdadeiramente sua e não roubada: Non rapinam arbitratus est esse se æ qualem Deo.

Atèqui o que o Filho recebeu do Padre necessariamente, e sem eleição sua. E que é o que recebeu por vontade livre e por verdadeira e própria eleição? __ O que logo se segue e acrescentou o mesmo S. Paulo: Sed semetipsum exinanivit, formam servi accipiens, in similitudinem hominum factus, et habitu inventus ut homo, propter quod et Deus exaltavit illum et donavit illi nomen, quod est super omne nomen: Recebeu o Filho do Padre; por verdadeira e própria eleição, o ofício e dignidade de Redentor do género humano, « fazendo-se juntamente homem, e com esta nova e inefável dignidade recebeu um nome sobre todo nome» , que é o nome: de Jesus, mais sublime e mais venerável, pelo que é e pelo que significa, que o mesmo nome de Deus: Ut in nomine Jesus omne genu flectatur. Recebeu a potestade judiciária que o Padre demitiu de si, « competindo ao Filho privativamente o juízo universal e particular de vivos e mortos» : Pater non judicat quemquam, sed omne judicium dedit filio. Recebeu o primeiro trono entre as três Pessoas da Santíssima Trindade, assentando-se à mão direita do mesmo Padre: Dixit Dominus Domino meo: sede a dextris meis. Tudo isto, e o que disto se segue, com imensa exaltação e glória recebeu o Filho de seu de seu Eterno Padre, por vontade livre e própria eleição.

Mas se toda esta nova exaltação e toda esta nova glória não era devida à Pessoa do Filho por força ou direito da geração eterna, em que sòmente era igual ao Padre na natureza e atributos divinos, e a eleição livre de dar ou tomar a mesma exaltação e glória estava e dependia da vontade do mesmo Padre, porque a não tomou para si? Assim como encarnou a Pessoa do Filho, assim pudera encarnar a Pessoa do Padre; e no tal caso a nova dignidade de Redentor, o nome sobre todo o nome, a maior veneração e adoração de homens e anjos, e todas as outras prerrogativas e glórias que pelo mistério da Encarnação e Redenção sobrevieram e acresceram ao Filho, não haviam de ser do Filho, senão do mesmo Padre. Pois se a eleição voluntária e livre de tudo isso estava na mão do Padre e podia tomar para si toda essa exaltação e glória; porque; a quis antes para a Pessoa do Filho? Por nenhuma outra razão, senão porque era Filho e ele Pai: Ego autem constitutus sum rex ab eo super Sion montem sanctum ejus. Dominus dixit ad me: Filius meus es tu. Assim como o Eterno Padre, para encarecer o amor que tinha aos homens, não se nos deu a si, senão a seu Filho: Sic Deus dilexit mundum, ut Filium suum Unigenitum daret; assim para manifestar o amor que tinha ao mesmo Filho, não tomou para si estas novas glórias, senão que todas as quis para ele e lhas deu a ele, entendendo que, quando fossem de seu Filho, então eram mais suas, e que mais e melhor as gozava nele que em si mesmo.

E que Filho é este, Virgem Gloriosíssima, senão o mesmo Filho vosso, Filho Unigénito do Eterno Padre e Filho Unigénito de Maria? E se o Eterno Padre, em tudo o que pode ter eleição própria., escolheu os excessos de sua glória para seu Filho, essa mesma glória, que ele goza em si e vós nele, em que infinitamente vos vedes excedida, quem pode duvidar, se tem inteiro juízo, que seria também vossa a mesma eleição? Toda a Igreja Triunfante no Céu e toda a Militante na Terra, reconhece e confessa que entre todas as puras criaturas, ou sobre todas elas, nenhuma há mais parecida a Deus Padre, que aquela singularíssima Senhora, que ele criou e predestinou ab æ terno para Mãe do seu Unigénito Filho; porque era justo que o Pai e a Mãe de quem ele recebeu as duas naturezas de que inefàvelmente é composto, fossem, quanto era possível, em tudo semelhantes. E se o amor do Pai, por ser amor de Pai, e Pai sem Mãe, escolheu para seu Filho e não para si as glórias que cabiam na sua eleição, não há dúvida que o amor da Mãe, e Mãe sem Pai, escolheria para o mesmo Filho também, e não para si, toda a glória infinita que ele goza. E esta é a eleição que teria por melhor: Maria optimam partem elegit.

Assim o entendeu da mesma Mãe o mesmo Pai; e o provou maravilhosamente o juízo e amor da mesma Senhora para com seu Filho, onde a eleição foi pròpriamente sua. Quando o Eterno Padre quis dar Mãe a seu Unigénito, foi com tal miramento e atenção à grandeza e majestade da que sublimava a tão estreito e soberano parentesco, que não só quis que fosse sua, isto é, do mesmo Pai, a eleição da Mãe, senão que também fosse da Mãe a eleição do Filho. Bem pudera o Eterno Padre formar a Humanidade de seu Filho nas entranhas puríssimas da Virgem Maria, sem consentimento nem ainda conhecimento da mesma Virgem, assim como formou a Eva da costa de Adão, não acordado e estando em si, senão dormindo. Mas para que o Filho que havia de ser seu, posto que era Deus, não só fosse seu, senão da sua eleição, por isso (como diz S. Tomás) lhe destinou antes por embaixador um dos maiores príncipes da sua corte, o qual de sua parte lhe pedisse o sim e negociasse e alcançasse o consentimento, e o aceitasse em seu nome. Este foi, como lhe chamou São Paulo, o maior negócio que nunca houve nem haverá entre o Céu e a Terra, dificultado primeiro pela Senhora, e depois persuadido e concluído por S. Gabriel. Mas quais foram as razões e os motivos de que usou o anjo para o persuadir e concluir? __ É caso digno de admiração, e que singularmente prova da parte de Deus, do anjo e da, mesma Virgem, qual é na sua eleição a melhor parte.

Repara Maria na embaixada, insta o célebre embaixador, e as promessas que alegou para conseguir o consentimento, foram estas: Ecce concipies et paries Filium, et vocabis nomem ejus Jesum; hic erit magnus, et Filius Altissimi vocabitur; dabit illi Dominus Deus sedem David patris ejus, et regnabit, in domo Jacob, et regni ejus non erit finis: « O filho de que sereis Mãe, terá por nome Jesus, que quer dizer, o Redentor do Mundo; este será grande, chamar-se-á Filho de Deus, dar-lhe-á o mesmo Deus o trono de David seu pai; reinará em toda a casa de Jacob; e seu reino e império não terá fim» .

Não sei se advertis no que diz o anjo e no que não diz; no que promete e no que não promete. Tudo o que promete, são grandezas, altezas e glórias do Filho; e da Mãe, com quem fala, nenhuma cousa diz; e à mesma a quem pretende persuadir nada lhe promete. Não pudera Gabriel dizer à Senhora com a mesma verdade, que ela seria a florescente vara de Jessé; que nela ressuscitaria o ceptro de David; que a sua casa se levantaria, e estenderia mais que a de Jacob; que seria rainha sua e de todas as jerarquias dos anjos, Senhora dos homens, Imperatriz de todo o criado; e que esta majestade e grandeza também a lograria sem fim? __Tudo isto, e muito mais, podia e sabia dizer o anjo. Pois porque diz e promete só o que há-de ser o Filho, e não diz nem promete o que há-de ser a Mãe? Porque falou como anjo, conforme a sua ciência; e como embaixador, conforme as suas instruções; por isso, nem ele diz, nem Deus lhe manda dizer senão o que há-de ser seu Filho; porque nas matérias onde Maria tem a eleição livre, o que mais pesa no seu juízo e o que mais move e enche o seu afecto, são as grandezas e glórias de seu Filho e não as suas. As de seu Filho, e não as suas, porque as tem mais por suas, sendo de seu Filho; as de seu Filho e não as suas, porque as estima mais nele e as goza mais nele que em si mesma.

Isto é o que, segundo o conhecimento de Deus, e o do anjo, e o seu, elegeu Maria, na terra; e isto é o que na presença de Deus, dos anjos e de todas os bem-aventurados tem por melhor no Céu: Maria optimam partem elegit.

VII

E nós, Senhora, que, como filhos de Eva, ainda gememos neste desterro, e como filhos, posto que indignos, vossos, esperamos subir convosco e por vós a essa bem-aventurança pátria, o que só nos resta depois desta consideração de vossa glória, é dar-vos o parabém dela. Parabém vos seja a eleição, que, ainda que não foi nem podia ser vossa, na predestinação com que fostes escolhida para a glória de Mãe de Deus, foi vossa no consentimento voluntário e livre que se vos pediu e destes para o ser. Parabém vos seja a parte que compreende aquele todo incompreensível de glória, que só pode abarcar e abraçar o ser imenso, e conter dentro em si o infinito, que vós também com maior capacidade que a do Céu tivestes dentro em vós. Parabém vos seja finalmente a melhoria, por melhor vos está como Mãe, que toda essa imensidade e infinidade de glória seja de vosso Filho, e melhor a gozais por este modo, segundo as leis do perfeito amor, que se a gozáreis em vós mesma. E assim como vos damos o parabém e nos alegramos com todo o afecto de nossos corações, de que a estejais gozando e hajais de gozar por toda a eternidade; assim vos pedimos, humildemente postados ao trono de vossa gloriosíssima Majestade, que, como Senhora da Glória e liberalíssima dispensadora de todas as graças de vosso benditíssimo filho, alcançadas e merecidas pelo sangue preciosíssimo que de vós recebeu, nos comuniqueis, aumenteis e conserveis até o último dia, em que passarmos, como vós hoje, desta vida àquela graça que nos é necessária para vos louvarmos eternamente na Glória.

Fonte: Sermões , Padre Antônio Vieira, Erechim: Edelbra, 1998.