O Sentido e o Significado das Chagas de São Francisco.

Mais do que desvendar o caráter histórico das Chagas de São Francisco, importa refletir sobre a experiência de vida que se esconde sobre este fato. O que significa a expressão de Celano “levava a cruz enraizada em seu coração”? O que isso significou para o próprio Francisco? Há um significado para nós hoje, naquilo que com ele ocorreu?
Um erro comum é o de ver São Francisco como uma figura acabada, pronta, sem olhar para a caminhada que ele fez até chegar à semelhança perfeita (configuração) com o Cristo. O que ocorreu no Monte Alverne é o cume de toda uma vida, de uma busca incessante de Francisco em “seguir as pegadas de Jesus Cristo”. Francisco lançou-se numa aventura, sem tréguas, na qual deu tudo de si: a vontade, a inteligência e o amor. As chagas significam que Deus é Senhor de sua vida. Deus encontrou nele a plena abertura e a máxima liberdade para sua presença.
O segundo significado das chagas é o de que Deus não é alienação para o ser humano, ao contrário, é sua plena realização e salvação. Colocando-se como centro da própria vida é que o homem se aliena e se destrói; torna-se absurdo para si mesmo no fechamento do seu ‘ego’. O homem só encontra sua verdadeira identidade, sua própria consistência e o sentido de sua existência em Deus. E Francisco fez esta descoberta: Jesus Cristo foi crucificado em razão de seu amor pela humanidade – “amou-os até o fim” – , e ele percorre este mesmo caminho.
O terceiro significado: as chagas expressam que a vivência concreta do amor deixa marcas. A exemplo de Cristo, Francisco quis suportar/carregar e amar os irmãos para além do bem e do mal (amor incondicional). Essa atitude o levou a respeitar e acolher o ‘negativo’ dos outros mantendo a fraternidade apesar das divisões. Esse acolher e integrar o negativo da vida é a única forma de vencer o ‘diabólico’, rompendo com o farisaísmo e a autosuficiência, aniquilando o mal na própria carne. Só assim, o homem é de fato livre, porque não apenas suporta, mas ama e abraça o negativo que está em si e nos outros.
O quarto significado: seguir o Cristo implica em morrer um pouco a cada dia: “Quem quiser ser meu discípulo, tome a sua cruz a cada dia e me siga” (Lc 9,23). Não vivemos num mundo que queremos, mas naquele que nos é imposto. Não fazemos tudo o que desejamos, mas aquilo que é possível e permitido. Somos chamados a viver alegremente mesmo com aquilo que nos incomoda, vencendo-se a si mesmo e integrando o ‘negativo’, de modo que ele seja superado. Nós seremos nós mesmos na mesma medida em que formos capazes de assumir nossa cruz. As chagas de São Francisco são as chagas de Cristo, e elas nos desafiam: ninguém pode conservar-se neutro, sem resposta diante da vida.
São Francisco não contentou-se em unicamente seguir o Cristo. No seu encantamento com a pessoa do Filho de Deus, assemelhou-se e configurou-se com Ele. Este seu modo de viver está expresso na “perfeita alegria”, tema central da espiritualidade franciscana: “Acima de todos os dons e graças do Espírito Santo, está o de vencer-se a si mesmo, porque dos todos outros dons não podemos nos gloriar, mas na cruz da tribulação de cada sofrimento nós podemos nos gloriar porque isso é nosso”.

O significado das dores de Nossa Senhora.

As dores de Nossa Senhora têm seu sentido mais profundo no mistério pascal de Jesus Cristo.
Para entender o sofrimento e as dores de Nossa Senhora e a dureza com a qual ela é tratada por seu Filho Jesus Cristo nas narrativas bíblicas, é necessário compreender o sentido da constante iniciação à fé pura e o estar de pé junto à cruz. Maria esteve com Jesus, junto à cruz1, “não sem desígnio de Deus, sofrendo com o seu Filho único, e associando-se com coração de mãe ao Seu sacrifício, consentindo com amor no sacrifício da vítima por ela mesma gerada. Finalmente, pelo próprio Cristo Jesus moribundo na cruz foi dada como mãe ao discípulo com estas palavras: ‘mulher, eis aí o teu filho’”2, e depois ao lado daquele a quem Ele amava: “Eis a tua mãe!”3Todo o sofrimento da Mãe do Senhor, especialmente as dores pela crucifixão e morte do seu Filho, tem seu sentido mais pleno no mistério pascal, na obra da salvação do mundo.

Ficamos surpresos, sem saber a razão das palavras e do tratamento de Jesus para com a sua Mãe, tanto em Caná como no Calvário4, nos quais ela é tratada por “mulher”. Seu próprio Filho Jesus Cristo é “o primeiro a empunhar a espada que a deve trespassar”5. Maria estava sendo preparada, desde a profecia de Simeão6, passando pela forma dura com a qual Jesus a tratou em Caná7 e em outras narrativas bíblicas, para o momento decisivo aos pés da cruz. A providência divina usou dessa dura pedagogia com a Virgem Maria para o seu amadurecimento na fé, para que ela estivesse de pé junto à cruz de Cristo8.
No Calvário, manifestam-se o aparente fracasso do Filho e o seu abandono pelo Pai, aos quais a Mãe precisa dizer “sim”, pois ela havia aceitado todo o destino de seu Filho9. “E como para encher totalmente o cálice amargo, o Filho, ao morrer, abandona explicitamente sua mãe, na medida em que se lhe retira e lhe atribui um outro filho: ‘Mulher, eis o teu filho’”10. Nesta passagem bíblica, vemos o cuidado de Jesus com a sobrevivência de sua Mãe, e se “torna evidente que Maria manifestamente não tinha outros filhos segundo a carne, pois, senão, a sua entrega ao discípulo amado seria supérflua e inadmissível”11.
Entretanto, há um outro motivo para essa passagem, que não deve passar despercebido: “Tal como o Filho é abandonado pelo Pai, também ele abandona sua mãe, de forma que ambos estão unidos no mesmo abandono. Só assim ela está intimamente preparada para assumir a maternidade eclesial relativamente a todos os novos irmãos e irmãs de Jesus”12.
A obediência da Mãe do Salvador, a sua abertura à vontade do Pai, a fez livre para assumir esta maternidade espiritual sobre os crentes. O engrandecer Deus13, que está presente em Maria, significa tornar-nos livres para Ele, significa um verdadeiro êxodo, uma saída do ser humano de si mesmo, a passagem da oposição para a união das duas vontades, a vontade humana e a divina, que passa pela cruz da obediência. Este aspecto crucificante da graça, da profecia e da mística, encontramos referido em Lucas, no que diz respeito a Maria, em primeiro lugar no encontro com o velho Simeão. Ele diz profeticamente a respeito da Mãe de Jesus: “Uma espada traspassará a tua alma!”14. Esta profecia de Simeão nos remete à profecia de Natã a Davi, que havia mandado matar Urias: “A espada jamais se afastará de tua casa”15. “A espada que impende sobre a casa de Davi fere agora o coração de Maria. No verdadeiro Davi, que é Cristo, e em sua mãe, a Virgem pura, a maldição é executada e superada”16. A espada que transpassará o coração de Maria está ligada à paixão do Filho, que se tornará a sua própria paixão.
A paixão da Virgem Maria começa na sua visita ao Templo17. Nossa Senhora deve aceitar a primazia do verdadeiro Pai e do Templo, renunciando Àquele a quem deu à luz. Ela leva às últimas consequências o “sim” à vontade de Deus à medida que se retrai e liberta o Filho para sua missão. Nos momentos em que é repelida por Jesus, durante a sua vida pública, neste retraimento de Maria dá-se um passo importante, que se cumprirá na cruz com a palavra: “Mulher, eis o teu filho”18. Já não é Jesus, mas sim o discípulo amado que é seu filho. “A aceitação e a disponibilidade é o primeiro passo que lhe é pedido; o abandono e a renúncia é o segundo. Só assim a sua maternidade se torna perfeita”19: a bem-aventurança segundo a qual é dito “Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram”20 só se realiza, verdadeiramente, quando se torna outra bem-aventurança: “Felizes, sobretudo, são os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”21. Dessa forma, “Maria é preparada para o mistério da cruz, que não termina simplesmente no Gólgota. O seu Filho permanece sinal de contradição e ela é mantida até o fim na dor da contradição, no sofrimento da maternidade messiânica”22.
Na imagem de Nossa Senhora das Dores, da Mãe sofredora, que tem o Crucificado nos seus braços, “nesta mãe compadecida os sofredores de todos os tempos viram a imagem mais pura da compaixão divina, que é a única verdadeira consolação. Pois toda a dor, todo o sofrimento é, na sua essência última, solidão, perda de amor, felicidade destruída pelo inaceitável. Só o ‘com’ da com-paixão pode curar a dor. […] Deus não pode padecer, mas pode compadecer-se”23. Há uma paixão muito íntima em Deus, que é a sua própria natureza: o amor. Por ser Amor, não é estranho a Deus o sofrimento sob a forma de compaixão. Nesse sentido, “a Cruz de Cristo é a compaixão de Deus pelo mundo”24.
No Antigo Testamento, a compaixão de Deus se expressa em hebraico pela palavra rahamim, que significa “seio materno”. Esta palavra hebraica exprime o estar “com” o outro, a aptidão humana de estar presente com o outro, recebê-lo, sustentá-lo, dar-lhe vida enquanto ser assumido. “Com uma palavra da linguagem do corpo, o Antigo Testamento diz-nos como Deus nos acolhe e nos sustenta com um amor de compaixão. […]. A imagem da Pietá, a mãe que chora o filho morto, tornou-se, na tradução viva desta palavra: nela se torna manifesto o sofrimento maternal de Deus”25.
Assim, na imagem da Mãe lacrimosa, imagem da rahamim de Deus, a imagem da cruz se cumpre inteiramente, porque a cruz é assumida, a cruz é compartilhada no amor que nos permite, na sua compaixão maternal, experimentar a compaixão de Deus. “A dor da mãe é dor pascal que já opera a abertura da transformação da morte à presença salvífica do amor”26. A alegria da anunciação está presente no mistério da cruz, pois a verdadeira alegria nos permite ousar o êxodo do amor até o íntimo da santidade ardente de Deus. Esta alegria verdadeira não é destruída pelo sofrimento, mas é levada por este à sua plena maturidade. Tal maturação possibilita uma nova maternidade. Esta “’nova maternidade de Maria’ […] gerada pela fé, é fruto do ‘novo’ amor, que nela amadureceu definitivamente aos pés da cruz, mediante a sua participação no amor redentor do Filho”27.
Nossa Senhora das Dores, rogai por nós!

É preciso ser misericordioso para seguir Jesus

A homilia do Santo Padre enfatizou o ensinamento do amor sem limites deixado por Jesus no Evangelho

Somente com um coração misericordioso é possível seguir Jesus, disse o Papa Francisco durante a Santa Missa presidida por ele nesta quinta-feira, 11, na Casa Santa Marta. O Pontífice destacou que a vida cristã não é autorreferencial, mas é doação até o fim, sem egoísmo. Somente assim será possível amar os inimigos, como Deus nos pede.
Francisco desenvolveu sua homilia a partir do Evangelho segundo Lucas, no qual Deus indica o caminho do amor sem limites. E destacou que Jesus pede que os homens rezem por aqueles que os tratam mal e colocou em ênfase os verbos utilizados pelo Senhor: “amai, façais o bem, bendizei, rezai, não rejeitais”.

“É justamente dar a si mesmo, dar o coração justamente para aqueles que nos querem mal, que nos fazem mal, para os inimigos. Esta é a novidade do Evangelho”, recordou o Santo Padre, lembrando que os cristãos são chamados a amar os seus inimigos, a fazer o bem sem esperar nada em troca.
Sua Santidade ressaltou que o Evangelho é uma novidade difícil de levar adiante, mas esse é o caminho cristão. E para seguir as vias indicadas por Jesus, fazendo o que Deus aconselha, é preciso ser misericordioso. “A vida cristã não é autorreferencial; é uma vida que sai de si mesma para dar-se aos outros. É um dom, é amor, e o amor não volta para si mesmo, não é egoísta: se dá”.
E recorda que a misericórdia é um pedido de Jesus, que também pede aos homens que não julgem uns aos outros, não condenem e saibam perdoar-se mutuamente. “Esta é a vida cristã”, resumiu o Santo Padre. “Pode parecer uma insensatez, disse, mas a vida cristã é, em certo sentido, insensata. É renunciar àquela astúcia do mundo para fazer tudo aquilo que Jesus nos pede para fazer”.
Este é o caminho de Jesus: o da magnanimidade, da generosidade, da doação de si mesmo. Francisco reconheceu que ser cristão não é fácil; é algo que só se pode conseguir com a graça de Deus, não com as forças humanas.
“E aqui aparece esta oração que devemos fazer todos os dias: ‘Senhor, dá-me a graça de me tornar um bom cristão, uma boa cristã, porque eu não faço isso. […] Peçamos ao Senhor a graça de entender o que é ser cristão e que Ele nos faça cristãos, porque nós não podemos fazer isso sozinhos”, conclui.

QUINTA-FEIRA, 11 DE SETEMBRO DE 2014, 7H29

Sem a Mãe Igreja, não se pode seguir adiante, diz Papa.

Papa Francisco destacou o caminho de sofrimento, aprendizado e obediência percorrido por Maria e pela Igreja, a exemplo de Jesus
Da Redação, com Rádio Vaticano
Assim como sem Maria não haveria Jesus, sem a Igreja não é possível seguir adiante. Essa foi a reflexão proposta pelo Papa Francisco na Missa desta segunda-feira, 15, na Casa Santa Marta, dia em que a Igreja celebra a memória de Nossa Senhora das Dores.
Francisco disse que a liturgia, depois de mostrar a Cruz gloriosa (Festa da Exaltação da Santa Cruz celebrada ontem), mostra a Mãe humilde e mansa. Na Carta aos Hebreus, São Paulo destaca três palavras fortes: diz que Jesus aprendeu, obedeceu e sofreu. Jesus humilhou-se, fez-se servo, destacou o Papa, e esta é a glória da Sua Cruz.
“Jesus veio ao mundo para aprender a ser homem e, sendo homem, caminhar com os homens. Veio ao mundo para obedecer, e obedeceu. Mas aprendeu esta obediência pelo sofrimento. Adão saiu do Paraíso com uma promessa, a promessa que seguiu adiante durante tantos séculos. Hoje, com esta obediência, com este aniquilar a si mesmo, humilhar-se, de Jesus, aquela promessa se torna esperança. E o povo de Deus caminha com esperança certa. Também a Mãe, ‘a nova Eva’, como Paulo chama, participa deste caminho do Filho: aprendeu, sofreu e obedeceu. E se tornou Mãe”.
SEGUNDA-FEIRA, 15 DE SETEMBRO DE 2014

A Maternidade Divina de Maria

O primeiro dos quatro dogmas marianos é o da maternidade divina de Maria. Primeiro, historicamente. Primeiro, como razão de todos os outros. O dogma que declara verdade de fé que Maria é Mãe de Deus foi proclamado pelo Concílio de Éfeso, no ano 431. Maria recebeu o nome de "Theotokos", palavra grega que diz exatamente "Mãe de Deus", e foi julgado insuficiente o título de "Christotokos", ou seja "Mãe de Cristo". 

A controvérsia era chefiada, de um lado, pelo Patriarca de Constantinopla, Nestório, bispo famoso como orador sacro, como líder e organizador, como conhecedor das Escrituras; por outro lado, o Patriarca de Alexandria, Cirilo, também exímio pregador, teólogo refinado, excelente bispo. Ambos tinham seguidores bispos, padres, leigos. Nestório ensinava que Maria era só mãe do Cristo-homem, porque lhe parecia absurdo uma criatura ser mãe do criador. Cirilo contestava com veemência, afirmando que não podia haver dois Cristos, um homem e outro Deus. E havendo um Cristo só, embora com duas naturezas inseparáveis, Maria era mãe do Cristo-homem e mãe do Cristo-Deus, portanto sua maternidade era tão divina quanto humana, ela era verdadeiramente "Theotokos", Mãe de Deus. O Concílio deu razão a Cirilo e declarou herética a posição de Nestório que, humildemente, se retirou da vida pública e voltou à vida que levava antes de ser bispo e patriarca, a vida de monge. 

Na carta encíclica "Fulgens Corona", com que o Papa Pio XII comemorou os cem anos do dogma da Imaculada Conceição, vem lembrado que a maternidade divina de Maria constitui a mais alta missão, depois da que recebeu o Cristo, na face da terra, e que esta missão exige a graça divina em toda a sua plenitude. Continua o Papa: "Na verdade, desta sublime missão de Mãe de Deus nascem, como duma misteriosa e limpidíssima fonte, todos os privilégios e graças, que adornam, duma forma admirável e numa abundância extraordinária, a sua alma e a sua vida. Por isso, com razão declara Santo Tomás de Aquino que a Bem-Aventurada Virgem Maria, pelo fato de ser Mãe de Deus, recebe do bem infinito, que é Deus, uma certa dignidade infinita" (n.10). 

Depois de Cristo, a maior e mais excelsa missão na terra; por causa de Cristo, revestida de uma certa dignidade infinita: mais não se pode dizer de uma criatura, privilegiada, plena da graça divina, mas sempre criatura, sempre mulher de carne e sangue. A partir do Concílio de Éfeso, a maternidade divina de Maria é doutrina constante e unânime na Igreja. Repete-a o Concílio Vaticano II, na Constituição Lumen Gentium: "A Virgem Maria, que na Anunciação do anjo, recebeu o Verbo de Deus no coração e no corpo e trouxe ao mundo a Vida, é reconhecida e honrada como verdadeira Mãe de Deus e do Redentor" (n. 53). 

Acrescenta a Lumen Gentium: "Unida a Cristo por um vínculo estreito e indissolúvel, é dotada da missão sublime e da dignidade de ser Mãe do Filho de Deus, e, por isso, filha predileta do Pai e sacrário do Espírito Santo. Por este dom de graça exímia supera de muito todas as outras criaturas, celestes e terrestres" (n. 53). São Francisco, em sua singela e belíssima oração, intitulada "Saudação à Mãe de Deus", expressa a mesma verdade, com palavras embebidas de ternura: "Salve, ó Senhora santa, Rainha santíssima, Mãe de Deus, ó Maria, que sois virgem feita igreja, eleita pelo santíssimo Pai celestial, que vos consagrou por seu santíssimo e dileto filho e o Espírito Santo Paráclito! Em vós residiu e reside toda a plenitude da graça e todo o bem!". 

Lucas, o Evangelista mariano, procurou contar em palavras humanas o momento estupendo e inefável da Encarnação de Deus no seio de Maria. O dogma da maternidade divina de Maria está estreitamente ligado ao dogma da Encarnação do Filho de Deus. A partir daquele momento, o mistério e a missão de Cristo - Deus-homem e homem-Deus - une-se para sempre ao mistério e à missão de Maria de Nazaré. O mistério e a missão de Maria, porém, só têm sentido no mistério e na missão de seu Filho. Jesus, autor da Graça, toma carne daquela que ele plenificara de Graça já antes da Anunciação. Criaturas humanas e criaturas angelicais olham extasiadas o fato inimaginável: uma mulher ser genitora de seu genitor e a saúdam como filha de seu filho. 

Maria é chamada pelo anjo de "cheia de graça", porque "a Encarnação do Verbo, a união hispostática do Filho de Deus com a natureza humana se realiza e se consuma precisamente em Maria" (João Paulo II, encíclica Redemptoris Mater, n. 9). 

São Bernardo, num de seus sermões sobre a Anunciação, demora-se em observar Maria no exato momento de seu sim à maternidade divina, um sim que mudaria os rumos da história, que recriaria o mundo, que possibilitaria uma nova e eterna comunhão entre Deus e as criaturas. Transcrevo um trecho: "Ó Virgem piedosa, o pobre Adão, expulso do paraíso com sua mísera descendência, implora a tua resposta. Implora-a Abraão, implora-a Davi; e os outros patriarcas, teus antepassados... suplicam esta resposta. Toda a humanidade, prostrada a teus pés, a aguarda. E não é sem razão, pois do teu consentimento depende o alívio dos infelizes, a redenção dos cativos, a libertação dos condenados, a salvação de todos os filhos e filhas de Adão, de toda a tua raça. Responde depressa, ó Virgem! Pronuncia, ó Senhora, a palavra esperada pela terra, pelos infernos e pelos céus. O próprio Rei e Senhor de todos, tanto quanto cobiçou a tua beleza, deseja agora a tua resposta afirmativa, porque por ela decidiu salvar o mundo. Agradaste a ele pelo silêncio, muito mais lhe agradarás pela palavra ... Se tu lhe fizeres ouvir a tua voz, ele te fará ver a nossa salvação". 

Este trecho não só é retoricamente bonito, mas também nos ensina como Deus respeitou a liberdade de Maria. Não lhe impôs a maternidade divina. Predestinou-a, mas lhe pediu o consentimento. Elegeu-a desde antes da criação do mundo, ornou-a com todas as bênçãos e graças, mas aguardou seu sim, sua disponibilidade. 

O sim de Maria veio acompanhado de uma declaração de humildade: "Sou a serva do Senhor" (Lc 1,38). Volto a citar São Bernardo: "Que sublime humildade é esta que não soube ceder às honras e não sabe orgulhar-se na gloria! É escolhida para ser a Mãe de Deus e se proclama a serva. É certamente sinal de grande humildade não se esquecer de ser humilde quando é oferecida tamanha glória. Não é grande coisa mostrar-se humilde quando se é desprezado; ao contrário, é virtude insigne e rara ser humilde quando se é honrado". 

Com o sim de Maria, o Filho de Deus assumiu a carne humana; "subsistindo na condição de Deus, não se apegou à sua igualdade com Deus, ... tornou-se solidário com os seres humanos e apresentou-se como simples homem" (Fl 2,6-7). A paternidade de Deus une-se para sempre à maternidade da jovem Maria de Nazaré. O "faça-se" de Deus ao criar o universo soma-se ao "faça-se" de Maria para recriar, em seu Filho, todas as coisas na face da terra. Em Jesus Cristo, Messias e Salvador, não se separam mais a paternidade de Deus, que fecundou Maria mediante o Espírito Santo, e a maternidade de Maria, que acreditou no convite.

O "faça-se" de Maria encerra o tempo da espera; as criaturas, tendo à frente o Filho de Deus concebido no seio virginal de uma mulher, entram na "plenitude dos tempos" (Gl 4,4): "pelo ingresso do eterno no tempo, do divino no humano, o próprio tempo foi redimido e, tendo sido preenchido pelo mistério de Cristo, se torna definitivamente tempo de salvação" (Redemptoris Mater, 1). Maria tornou-se assim, como diz o Prefácio da festa da Imaculada, o início, as primícias da Igreja. 

Estamos diante de vários mistérios unidos, que perfazem o grande e inaudito mistério da salvação. É estupendo, mas verdadeiro. É inédito e acima de qualquer inteligência humana, mas é obra, graça e vontade de Deus e, como afirmou o anjo na hora da Anunciação, "para Deus, nada é impossível" (Lc 1,37). 

Embevecido diante do mistério da maternidade divina de Maria, São Boaventura (+1274), compôs um longo hino de louvor à maneira do Te Deum. Destaco alguns versos:

"Os coros dos anjos, com vozes incessantes, te proclamam: santa, santa, santa, ó Maria, Mãe de Deus, mãe e virgem ao mesmo tempo! Os céus e a terra estão cheios da majestade vitoriosa do Fruto do teu ventre! O glorioso coro dos apóstolos te aclama Mãe do Criador! Celebram-te todos os profetas, porque deste à luz o próprio Deus! A imensa assembléia dos santos mártires te glorifica como Mãe do Cristo. A multidão triunfante dos confessores prostra-se diante de ti, porque és o Templo da Trindade!".

Os Segredos de Fátima

1º segredo – A visão do inferno: Muitas pessoas não acreditam que existe… Contudo, as crianças videntes ao vê-lo, ficaram impressionadas e apavoradas. Viram homens e mulheres, jovens e velhos, se debatendo num mar incandescente, devorados pelas chamas eternas. Davam gritos terríveis e vociferavam abomináveis imprecações.
A propósito da forte impressão que o Inferno lhe causou, irmã Lúcia escreveu numa carta ao Bispo de Leiria: “Esta visão foi num momento, e graças à nossa boa Mãe Celeste, que antes nos tinha prevenido com a promessa de nos levar para o Céu. Se assim não fosse, creio que teríamos morrido de susto e pavor”. Ela explica na carta, que o Inferno é formado por um imenso mar de chamas onde os condenados flutuam e onde as suas almas pecadoras são devorados pelas labaredas eternas, queimando e elevando como fagulhas de um grande incêndio.
Também faz parte do Primeiro Segredo um aviso de Nossa Senhora sobre a Guerra: “A 1ª Grande Guerra Mundial vai acabar… todavia Deus quer a conversão da humanidade, caso contrário acontecerá uma outra guerra muito pior” (…).

2º segredo – É divido em duas partes:

2.1 – Instituição da devoção ao Imaculado Coração de Maria - Nossa Senhora revelou que DEUS quer a instituição da Devoção ao seu Imaculado Coração, através da Comunhão Reparadora. As pessoas em estado de graça, deverão comungar durante 5 (cinco) primeiros sábados de cada mês, seguidamente, rezar um Terço e fazer 15 minutos de adoração ao Santíssimo Sacramento, para consolo e desagravo de todas as maldade, ofensas e pecados que diariamente são cometidos contra o Imaculado Coração de Maria. Aqueles que acolherem a solicitação, não morrerão em pecado mortal e na hora da morte, receberão a visita consoladora da Mãe de Deus.
2.2 – Consagração da Russia ao Imaculado Coração - Ela pediu que todos os Bispos do mundo unidos ao Santo Padre, o Papa, fizessem a “Consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração”.
NOSSA SENHORA prometeu, se atenderem estes dois pedidos, a Rússia se converterá, muitos pecadores farão penitência e o mundo viverá um período de paz. Caso contrário, o mal crescerá, os dirigentes da nação comunista espalharão os seus erros e o materialismo ateu por todas as partes, crescerá a “apostasia” e nascerá a “impiedade”. Acontecerá uma devastadora Guerra Mundial (a Segunda) onde morrerão muitas pessoas e nações serão dizimadas.

3º segredo – A Íntegra do Terceiro Segredo de Fátima

Esta é a terceira parte do segredo revelado no dia 13 de julho de 1917 às três crianças na caverna de Iria, na cidade de Fátima, e transcrito pela Sóror Lucia no dia 3 de janeiro de 1944.
“Escrevo em obediência ao senhor, meu Deus, que me ordena fazê-lo por intermédio de Sua Excelência Reverendíssima, o Senhor Bispo de Leiria e da Santíssima Madre sua e minha”.
“Depois das duas partes que já expusemos, vimos, no lado esquerdo de Nossa Senhora, um pouco mais para o alto, um anjo com uma espada de fogo na mão esquerda; brilhando soltava chamas que pareciam incendiar o mundo; mas se apagavam no contato com o esplendor que Nossa Senhora irradiava com sua mão direita na direção do anjo, que disse, apontando para a terra com a sua mão direita: penitência, penitência, penitência!
E vimos uma imensa luz que é Deus: ‘algo semelhante a como as pessoas se veem quando passam diante de um espelho’. ‘Vimos um bispo vestido de branco e tivemos o pressentimento de que fosse o Santo Padre’.
Também vimos outros bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas subirem uma montanha íngreme, em cujo topo havia uma grande Cruz de madeira simples; o Santo Padre, antes de chegar até ela, atravessou uma grande cidade em ruínas, tremendo e com um passo vacilante, com um semblante pesado de dor e pena, rezando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegando no alto do monte, prostrado de joelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que dispararam vários tiros de arma de fogo e flechas; e do mesmo modo morreram, uns atrás dos outros, os bispos, os sacerdotes, os religiosos, as religiosas e diversas pessoas do povo, homens e mulheres de distintas classes e posições.
Sob os dois braços da Cruz, havia dois anjos, cada um deles com uma jarra de cristal na mão, com as quais recolhiam o sangue dos mártires, e com ele regavam as almas que se aproximavam de Deus.

Como Surgiram as Indulgências?

O uso das indulgências teve sua origem nos primórdios da Igreja. Desde os primeiros tempos ela usou o seu poder de remir a pena temporal dos pecadores.Sabemos que na Igreja antiga dos primeiros séculos, a absolvição dos pecados só era dada aos penitentes que se acusassem dos próprios pecados e se submetessem a uma pesada penitência pública; por exemplo, jejum de quarenta dias até o pôr do sol, trajando-se com sacos e usando o silício, autoflagelação, retirada para um convento, vagar pelos campos vivendo de esmolas, etc., além de ser privado da participação na Liturgia eucarística e da vida comunitária. Isto era devido ao “horror” que se tinha ao pecado e ao escândalo.

Aquele que blasfemasse o nome de Deus, da Virgem Maria, ou dos santos, ficava na porta da igreja, sem poder entrar, sete domingos durante a missa paroquial, e, no último domingo ficava no mesmo lugar sem capa e descalço; e nas sete sextas-feiras precedentes jejuava a pão e água, sem poder neste período entrar na igreja. Aquele que rogasse uma praga aos pais, devia jejuar quarenta dias a pão e água…

Essas pesadas penitências, e outras, tinham o objetivo de extinguir no penitente os resquícios do pecado e as más inclinações que o pecado sempre deixa na alma do pecador, fazendo-o voltar a praticá-lo.

Na fase das perseguições dos primeiros séculos, quando era grande o número de mártires, muitos cristãos ficavam presos e aguardando o dia da própria execução; eram os Confessores da fé. Surgiu nesta época um belo costume: os penitentes recorriam à intercessão dos que aguardavam presos à morte. Um deles escrevia uma carta ao bispo pedindo a comutação da pesada penitência do pecador; eram as chamadas “cartas de paz”. Com este documento entregue ao bispo, o penitente era absolvido da pesada penitência pública que o confessor lhe impusera e também da dívida para com Deus; a pena temporal que a penitência satisfazia. Assim, transferia-se para o pecador arrependido, o valor satisfatório dos sofrimentos do mártir.


Desta forma começou o uso da indulgência na Igreja.

Muitas vezes os penitentes não tinham condições de saúde suficiente para cumprir essas penitências tão pesadas; e isto fez com que a Igreja, com o passar do tempo, em etapas sucessivas e graduais, fosse abrandando as penitências.

cpa_o_que_sao_as_indulg_nciasNa idade média, a Igreja, com a certeza de que ela é a depositária dos méritos de Cristo, de Nossa Senhora e dos Santos, o chamado“tesouro da Igreja”, começou a aplicar isto aos seus filhos

pecadores. Inspirados pelo Espírito Santo, os Papas e Concilios, a partir do século IX, entenderam que podiam aplicar esses méritos em favor dos penitentes que deviam cumprir penitências rigorosas. Assim, surgiram as “obras indulgenciadas”, que substituíam as pesadas penitências. O jejum rigoroso foi substituído por orações; a longa peregrinação, por pernoitar em um santuário; as flagelações, por esmolas; etc… A partir daí, a remissão da pena temporal do pecado, obtida pela prática dessas “obras indulgenciadas”, tomou o nome de “indulgência”.

Nos exemplos das pesadas penitências públicas citadas acima, elas eram substituídas, respectivamente, por uma indulgência de sete semanas e por uma indulgência de 40 dias; por isso as indulgências eram contadas em dias, semanas e meses, porque assim, eram também contadas as penitências públicas.

Com a reza do Terço, por exemplo, em qualquer dia do mês de outubro, se ganhava a indulgência de sete anos.

No século IX, os bispos já concediam indulgências gerais, isto é, a todos os fiéis, sem a necessidade da mediação de um sacerdote. Assim, os bispos estipularam que realizando certas obras determinadas, os fiéis poderiam obter, pelos méritos de Cristo, a remissão das penas devidas aos pecados já absolvidos.

É preciso compreender que esta prática não se constituía em algo mecânico, não; o penitente, ao cumprir a obra indulgenciada devia trazer consigo as mesmas disposições interiores daquele que cumpria no passado as pesadas penitências, isto é, profundo amor a Deus e repúdio radical de todo pecado. Sem isto, não se ganharia a indulgência.

Com o passar do tempo, e principalmente por causa da “questão das indulgências” no tempo de Martinho Lutero, no século XVI, as indulgências foram ofuscadas e tornaram-se objeto de críticas. No entanto, após o Concílio Vaticano II (1962-65), o Papa Paulo VI reafirmou todo o seu valor, na Constituição Apostólica Indulgentiarum Doctrina, em que quis claramente mostrar o sentido profundo e teológico das indulgências; incitando os católicos ao espírito de contrição e penitência que deve movê-los ao realizar as obras indulgenciadas, removendo toda a aparência de mecanicismo espiritual que no passado aconteceu.