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Normas sobre as Indulgências

Escrito por Manual das Indulgências   
1. Indulgência é a remissão, diante de Deus, da pena temporal devida pelos pecados já perdoados quanto à culpa, que o fiel, devidamente disposto e em certas e determinadas condições, alcança por meio da Igreja, a qual, como dispensadora da redenção, distribui e aplica, com autoridade, o tesouro das satisfações de Cristo e dos Santos. ( Indulgentiarum Doctrina, Norma 1)

2. A indulgência é parcial ou plenária, conforme liberta, em parte ou no todo, da pena temporal devida pelos pecados. (Ib.norma 2)

3. Ninguém pode lucrar indulgências a favor de outras pessoas vivas. (Ib. norma 3)

4. Qualquer fiel pode lucrar indulgências parciais ou para si mesmo ou aplicá-las aos defuntos como sufrágio.(Ib. norma 5)

5. O fiel que, ao menos com o coração contrito, faz uma obra enriquecida de indulgência parcial, com o auxílio da Igreja, alcança o perdão da pena temporal, em valor correspondente ao que ele próprio já ganha com sua ação. (Cf. cân. 994, CDC)

6. A divisão das indulgências em pessoais, reais e locais já não se usa, para mais claramente constar que se enriquecem as ações dos fiéis, embora sejam atribuídas às vezes as coisas e lugares. (Ib. norma 12)

7. Além da autoridade suprema da Igreja, só podem conceder indulgências aqueles a quem esse poder é reconhecido pelo direito ou concedido pelo Romano Pontífice.( Cf. cân. 995, 1, CDC)

8. Na Cúria Romana, só à Sagrada Penitenciária se confia tudo o que se refere à concessão e uso de indulgências; excetua-se o direito da Congregação para a Doutrina da Fé de examinar o que toca à doutrina dogmática sobre as indulgências. (Cf. Const. Apost. Regiminae Ecclesiae Universae, 15/08/1967, n. 113: AAS 59, p. 113)

9. Nenhuma autoridade inferior ao Romano Pontífice pode conferir a outros o poder de conceder indulgências, a não ser que isso lhe tenha sido expressamente concedido pela Sé Apostólica. (Cf. cân. 995, 2, CDC)

10. Os Bispos e os equiparados a eles pelo direito, desde o princípio de seu múnus pastoral, têm os seguintes direitos:

1º Conceder indulgência parcial aos fiéis confiados ao seu cuidado.

2º Dar a benção papal com indulgência, segundo a fórmula prescrita, cada qual em sua diocese, três vezes ao ano, no fim da missa celebrada com especial esplendor litúrgico, ainda que eles próprios não a celebrem, mas apenas assistam, e isso em solenidade ou festas por eles designadas.

11. Os Metropolitas podem conceder a indulgência parcial nas dioceses sufragâneas, como o fazem na sua própria diocese.

12. Os patriarcas podem conceder a indulgência parcial em cada um dos lugares do seu patriarcado, mesmo isentos, nas igrejas de seu rito fora dos confins do patriarcado e, em qualquer parte, para os fiéis do seu rito. O mesmo podem os Arcebispos Maiores.

13. O Cardeal goza do direito de conceder a indulgência parcial em qualquer parte, mas só aos presentes em cada vez.

14. Parágrafo 1. Todos os livros, opúsculos, folhetos etc., em que se contém concessões de indulgências, não se editem sem licença do ordinário ou jerarca local. Parágrafo 2. Requer-se licença expressa da Sé Apostólica para imprimir em qualquer Iíngua a coleção autêntica das orações ou das obras pias a que a Sé Apostólica anexou indulgências. (Cf. cân. 826, 3, CDC)

15. Os que impetraram do Sumo Pontífice concessões de indulgências para todos os fiéis são obrigados, sob pena de nulidade da graça recebida, a mandar exemplares autênticos das mesmas à Sagrada Penitenciária.

16. A indulgência, anexa a alguma festa, entende´se como transferida para o dia em que tal festa ou sua solenidade externa legitimamente se transfere.

17. Para ganhar a indulgência anexa a algum dia, se é exigida visita à igreja ou oratório, esta pode fazer-se desde o meio-dia do dia precedente até a meia noite do dia determinado.

18. O fiel cristão que usa objetos de piedade (crucifixo ou cruz, rosário, escapulário, medalha) devidamente abençoados por qualquer sacerdote ou diácono, ganha indulgência parcial. Se os mesmos objetos forem bentos pelo Sumo Pontífice ou por qualquer Bispo, o fiel ao usá-los com piedade pode alcançar até a indulgência plenária na solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, se acrescentar alguma fórmula legítima de profissão de fé. (Indulg. Doctr., norma17)

19. Parágrafo 1. A indulgência anexa à visita a igreja não cessa-se o edifício se arruine completamente e seja reconstruído dentro de cinqüenta anos no mesmo ou quase no mesmo lugar e sob o mesmo título.
Parágrafo 2. A indulgência anexa ao uso de objeto de piedade só cessa quando o mesmo objeto acabe inteiramente ou seja vendido.

20. Parágrafo 1. Para que alguém seja capaz de lucrar indulgências, deve ser batizado, não estar excomungado e encontrar-se em estado de graça, pelo menos no fim das obras prescritas.
Parágrafo 2. O fiel deve também ter atenção, ao menos geral, de ganhar a indulgência e cumprir as ações prescritas, no tempo determinado e no modo devido, segundo o teor da concessão. (Cf. cân. 996, CDC)

21. Parágrafo 1. A indulgência plenária só se pode ganhar uma vez ao dia.
Parágrafo 2. Contudo, o fiel em artigo de morte pode ganhá-la, mesmo que já a tenha conseguido nesse dia.
Parágrafo 3. A indulgência parcial pode-se ganhar mais vezes ao dia, se expressamente não se determinar o contrário. (Ind. Doctr., norma 6 e 18)

22. A obra prescrita para alcançar a indulgência, anexa à igreja ou oratório, é a visita aos mesmos: neles se recitam a oração dominical e o símbolo aos apóstolos (Pai- nosso e Creio), a não ser caso especial em que se marque outra coisa (Ib. norma 16)

23. Parágrafo 1. Para lucrar a indulgência, além da repulsa de todo o afeto a qualquer pecado até venial, requerem-se a execução da obra enriquecida da indulgência e o cumprimento das três condições seguintes: confissão sacramental, comunhão eucarística e oração nas intenções do Sumo Pontífice.(Ib. normas 7,8,9,10)
Parágrafo 2. Com uma só confissão podem ganhar-se várias indulgências, mas com uma só comunhão e uma só oração alcança-se uma só indulgência.
Parágrafo 3. As três condições podem cumprir-se em vários dias, antes ou depois da execução da obra prescrita; convém, contudo, que tal comunhão e tal oração se pratiquem no próprio dia da obra prescrita.
Parágrafo 4. Se falta a devida disposição ou se a obra prescrita e as três condições não se cumprem, a indulgência será só parcial, salvo o que se prescreve nos nn. 27 e 28 em favor dos “impedidos”.
Parágrafo 5. A condição de rezar nas intenções do Sumo Pontífice se cumpre ao se recitar nessas intenções um Pai-nosso e uma Ave-Maria, mas podem os fiéis acrescentar outras orações conforme sua piedade e devoção.

24. Com a obra, a cuja execução se está obrigado por lei ou preceito, não se podem ganhar indulgências, a não ser que em sua concessão se diga expressamente o contrário. Contudo, quem executa a obra que é penitência sacramental e é por acaso indulgenciada, pode ao mesmo tempo satisfazer a penitência e ganhar a indulgência. (Ib. norma 11)

25. A indulgência anexa a alguma oração pode ganhar-se em qualquer língua em que se recite, desde que a tradução seja fiel, por declaração da Sagrada Penitenciária ou de um dos ordinários ou jerarcas locais.

26. Para aquisição de indulgências é suficiente rezar a oração alternadamente com um companheiro ou segui-la com a mente, enquanto outro a recita.

27. Os confessores podem comutar a obra prescrita ou as condições, em favor dos que estão legitimamente impedidos ou impossibilitados de as cumprir por si próprios.

28. Os ordinários ou jerarcas locais podem além disso conceder aos fiéis que são seus súditos segundo a norma do direito, e que se encontrem em lugares onde de nenhum modo ou dificilmente possam se confessar e comungar, para que também eles possam ganhar a indulgência sem a atual confissão e comunhão, contanto que estejam de coração contrito e se proponham aproximar-se destes sacramentos logo que puderem.

29. Tanto os surdos como os mudos podem ganhar as indulgências anexas às orações públicas, se, rezando junto com outros fiéis no mesmo lugar, elevarem a Deus a mente com sentimentos piedosos, e tratando´se de orações em particular, é suficiente que as lembrem com a mente ou as percorram somente com os olhos.

Observações do Autor

Vale a pena destacar aqui a indulgência plenária que se pode ganhar uma vez por dia, para si mesmo ou para as almas; realizando uma das seguintes obras:

1 - adoração ao Santíssimo Sacramento pelo menos por meia hora (concessão n. 3);

2 - leitura espiritual da Sagrada Escritura ao menos por meia hora (concessão n. 50);

3 - piedoso exercício da Via Sacra (concessão n. 63);

4 - recitação do Rosário de Nossa Senhora na igreja, no oratório ou na família ou na comunidade religiosa ou em piedosa associação (concessão n. 63). Para se lucrar a indulgência plenária, a cada dia, além de cumprir uma dessas quatro obras acima citadas, são também necessárias aquelas exigidas para todas as formas de indulgências plenárias: confissão sacramental, comunhão eucarística e oração pelo Papa (Pai-Nosso e Ave-Maria, no mínimo). Além disso, é preciso, por amor a Deus, ter repúdio a todo pecado, mesmo venial, e ter a intenção de ganhar a indulgência plenária.
Um belo e santo costume é oferecer a Nossa Senhora esta indulgência plenária para que ela a aplique à alma do purgatório que ela desejar. É importante que se leia cuidadosamente as Normas que regem o uso das indulgências, bem como o Manual das Indulgências; pois, além de serem riquíssimos, mostram os pontos principais da piedade cristã. Note como a Igreja, com a sua bondade de Mãe, tendo as “chaves do céu”, confiadas a Pedro e seus sucessores, quer abrir largamente o caminho para que os seus filhos possam se livrar das penas temporais dos seus pecados.
Se de um lado se ensina que as almas sofrem no purgatório, por outro lado, a Igreja nos oferece este meio valioso e simples de livrar deste sofrimento tanto elas como a nós mesmos. Se tivermos de sofrer no purgatório antes de entrar no céu, podemos dizer que isto será duplamente por culpa nossa; pois, as indulgências plenárias são numerosas e as obras e orações são tão fáceis de serem cumpridas que, só mesmo por preguiça espiritual, ou por se duvidar do “tesouro da Igreja”, é que deixaremos de fazê-lo.
A Igreja tem, segundo os teólogos, autoridade direta sobre os seus membros vivos, então podemos ter certeza dos efeitos das indulgências, desde que todas as exigências sejam cumpridas com a devida disposição interior. A Igreja não tem autoridade direta sobre as almas do purgatório, assim, as indulgências que oferecemos por elas são a título de sufrágio, isto é, tem o valor de petição à misericórdia de Deus pela alma. Por isso, a Igreja pemite que ofereçamos mais de uma indulgência plenária a uma mesma alma, por não se ter certeza absoluta do seu sufrágio.
Extraídas do Manual das Indulgências aprovado pela Santa Sé e publicado em 1990 pela CNBB (Edições Paulinas, SP, 1990, pag. 15´19). 

A Doutrina das Indulgências

Escrito por Felipe Aquino   
“ Quanto deves ao meu Senhor?’
Cem medidas de azeite’. ‘Toma a tua conta, senta´te depressa e escreve cinquenta’ (Lc, 16,6). As Normas sobre as Indulgências, que acompanham a Constituição Apostólica do Papa Paulo VI, A Doutrina das Indulgências, ensina o que é a indulgência: “Indulgência é a remissão, diante de Deus, da pena temporal devida aos pecados já perdoados quanto à culpa, que o fiel, devidamente disposto e em certas e determinadas condições, alcança por meio da Igreja, a qual, como dispensadora da redenção, distribui e aplica, com autoridade, o tesouro das satisfações de Cristo e dos Santos”. (Norma 1) É preciso entender bem esta conceituação do que seja a indulgência. Em primeiro lugar, é “remissão”, isto é, livra, liberta, da “pena temporal” devida aos pecados já perdoados. Todo pecado tem duas consequências: o da culpa e o da pena, devido à desordem causada pela culpa. Então, para que alguém fique totalmente redimido do pecado é preciso que obtenha de Deus o perdão da culpa, mediante o sacramento da Reconciliação, e restaure a ordem violada pelo pecado, cumpra a pena. Se alguém difamou uma pessoa, não basta que peça desculpa do seu erro à pessoa ofendida, e seja perdoado, é preciso também restaurar a honra e o bom nome da pessoa. Ora, isto é uma exigência natural da justiça. Cientes disso, os primeiros cristãos, até a idade média, infligiam a si mesmos severas penas (jejum de muitos dias até o pôr do sol, flagelações, longas peregrinações, etc.) mesmo após o perdão dos pecados, para cumprir a pena devida ao pecado. 

O Papa Paulo VI assim explica: 

“Assim nos ensina a revelação divina que os pecados acarretam como consequência penas infligidas pela santidade e justiça divina, penas que devem ser pagas ou neste mundo, mediante os sofrimentos, dificuldades e tristezas desta vida e sobretudo mediante a morte, ou então no século futuro...”(DI, 2) Paulo VI lembra os ensinamentos de Santo Agostinho e de São Tomás de Aquino sobre o assunto. Santo Agostinho afirma que: “toda iniquidade, pequena ou grande, deve ser punida, ou pelo próprio homem penitente, ou então por Deus ...” (Com. Salmos LVIII 1,13; DI, ref. 1). 

São Tomás de Aquino também ensina que: 
“Sendo o pecado um ato desordenado, é evidente que todo o que peca, age contra alguma ordem. E é portanto decorrência da própria ordem que seja humilhado. E essa humilhação é a pena” ( S. Th. 1´2, q. 87, a.1; DI, ref. 3)

O Papa explica com clareza o efeito das penas temporais: 

“Essas penas são impostas pelo julgamento de Deus, julgamento a um tempo justo e misericordioso, a fim de purificar as almas, defender a integridade da ordem moral e restituir à glória de Deus a sua plena majestade. Todo pecado, efetivamente, acarreta uma perturbação da ordem universal, por Deus estabelecida com indizível sabedoria e caridade infinita, e uma destruição de bens imensos, quer se considere o pecador como tal quer a comunidade humana.” (DI, 2) O Catecismo da Igreja nos ensina o que é esta “pena temporal devida aos pecados já perdoados”: “Para compreender esta doutrina e esta prática da Igreja, é preciso admitir que o pecado tem dupla consequência. O pecado grave priva´nos da comunhão com Deus e, consequentemente, nos torna incapazes da vida eterna; esta privação se chama pena eterna do pecado. Por outro lado, mesmo o pecado venial, acarreta um apego prejudicial às criaturas que exige purificação, quer aqui na terra quer depois da morte, no estado chamado purgatório. Esta purificação liberta da chamada “pena temporal” do pecado. Essas duas penas não devem ser concebidas como uma espécie de vingança infligida por Deus do exterior, mas antes como uma consequência da própria natureza do pecado.” (CIC, 1472) Portanto, fica claro que o pecado, além da “pena eterna”, que é perdoada diante de Deus pelos méritos da Paixão de Cristo, especialmente no Sacramento da Reconciliação, acarreta também a “pena temporal”, que permanece mesmo após a remissão da pena eterna. São as consequências que o pecado deixou na alma do pecador, a desordem que promoveu no plano de Deus e a ofensa à Sua majestade. É importante relembrar aqui o que ensina a Igreja sobre o perdão dos pecados: “A confissão individual e integral seguida da absolvição continua sendo o único modo ordinário pelo qual os fiéis se reconciliam com Deus e com a Igreja, salvo se uma impossibilidade física ou moral dispensar desta confissão” (Ordo Poenitentiae, 31; CIC, 1484) Como a justiça de Deus é perfeita, toda violação deve ser reparada, pois Ele é Pai, mas não é paternalista. Deus não é conivente com o mal e nem “passa por cima das suas consequências”, como se não as tivesse notado. Qualquer pai, mesmo perdoando ao filho os seus erros, não deixa, no entanto, de corrigi´lo para que abandone o erro e repare os seus estragos. Nos primórdios da Igreja, quando a penitência dos pecados ainda era pública, os penitentes muitas vezes recorriam aos Confessores, isto é, àqueles que tinham heroicamente testemunhado a fé, enfrentando o risco do martírio, para obter, através deles, o perdão de suas penas. Parece esta a primeira prática vivida na Igreja e que inspirou as indulgências. É preciso lembrar que a expiação das faltas não quer dizer castigo de Deus, mas é exigida para apagar as sequelas do pecado deixadas na alma do pecador. Isto liberta o pecador das suas paixões e aumenta na sua alma o amor a Deus, que o faz rejeitar todo pecado. Assim, são arrancadas as raízes do pecado que ainda permanecem após o perdão das culpas. O amor a Deus em nós, nesta vida, ainda não é suficientemente forte para apagar todo o resquício de pecado na alma. Essa concupiscência desordenada, que faz o homem voltar ao pecado, por não ter ainda um amor tão grande a Deus, pode ser vencida nesta vida ou no purgatório. O Concílio de Trento (1545´1563) examinou cuidadosamente a doutrina das indulgências, por causa da Reforma protestante. Na Sessão XXV, no Decretum de Indulgentiis, afirmou: “Tendo recebido de Cristo o poder de conferir indulgências, já nos tempos antiquíssimos usou a Igreja desse poder, que divinamente lhe fora doado...”(DS, 1935; DI, ref. 1). 

Na Sessão VI, cânon 30, afirmou:

“Se alguém disser que a todo pecador penitente, que recebeu a graça da justificação, é de tal modo perdoada a ofensa e desfeita e abolida a obrigação à pena eterna, que não lhe fica obrigação alguma de pena temporal a pagar, seja neste mundo ou no outro, purgatório, antes que lhe possam ser abertas as portas para o reino dos céus ´ seja excomungado.”(DS 1580,1689,1693; DI, ref. 8 ) O Concílio de Lião II (1274), na Sessão IV, confirmou a doutrina relativa ao purgatório, fala das almas dos defuntos que “verdadeiramente penitentes deixaram esta vida na caridade de Deus, antes de terem satisfeito suas ofensas e omissões por justos frutos de penitência” (DS, 856), e que são após a morte purificadas pelas penas purgatórias.(DI, ref.9) O Concílio de Trento, analisou cuidadosamente a doutrina das Indulgências porque Martinho Lutero, em 1517, apresentou as suas 95 Teses divergindo da Igreja ´ afixando´as nas portas da igreja de Wittenberg, na Alemanha ´ com base principalmente na questão das indulgências. Esse Concílio, que foi o mais longo da História da Igreja, e demorou 18 anos porque foi interrompido várias vezes, em nada revogou a doutrina sobre as indulgências, mas apenas disciplinou melhor a sua aplicação. Falando das “penas temporais” dos pecados, afirmou: “Uma conversão que procede de uma ardente caridade pode chegar a uma total purificação do pecador, não subsistindo mais nenhuma pena”. (DS 1712´1713;1820) 

O Catecismo da Igreja continua ensinando:

“O perdão do pecado e a restauração da comunhão com Deus implicam a remissão das penas eternas do pecado. Mas permanecem as penas temporais do pecado. O cristão deve esforçar´se, suportando pacientemente os sofrimentos e as provas de todo tipo e , chegada a hora de enfrentar serenamente a morte, aceitar como uma graça essas penas temporais do pecado; deve aplicar´se, através de obras de misericórdia e de caridade, como também pela oração e diversas práticas de penitência, a despojar´se completamente do “homem velho” para revestir´se do “homem novo” (Ef 4, 24)”. (CIC, 1472) Algumas passagens da Sagrada Escritura mostram as consequências dos pecados, mesmo após o perdão de Deus. “Disse o Senhor a Moisés e a Aarão: ‘Porque faltastes a confiança em mim e não glorificastes a minha santidade aos olhos dos filhos dos israelitas, não introduzireis esta assembléia na terra que lhe destino’.” (Nm 20,12) “Depois de a teres visto, serás reunido aos teus, como o teu irmão Aarão, porque, no deserto de Sin, na contenda da assembléia, fostes rebelde à minha ordem, não manifestando a minha santidade diante deles na questão das águas”. (Nm 27, 13´14) Sabemos que Moisés, por causa desta falta, não introduziu o povo de Deus na terra prometida, o que coube a Josué. Deus perdoou Moisés, mas corrigiu´o com esta pena. O mesmo aconteceu com Davi, por causa do pecado cometido ao enviar o general Urias à frente da batalha para ser morto, afim de tomar a sua esposa: “Davi disse a Natan: ‘Pequei contra o Senhor’. Natã respondeu´lhe: ‘O Senhor perdoou o teu pecado; não morrerás. Todavia, como desprezaste o Senhor com esta ação, morrerá o filho que te nasceu.’ ”(2Rs 12,13´14) 

OUTRAS RAZÕES QUE JUSTIFICAM AS INDULGÊNCIAS

1. O Papa Paulo VI explica ainda que a realidade das indulgências mostra o peso e a gravidade do pecado, e que por nossas próprias forças não podemos nos livrar dos males que com eles afligimos a nós mesmos e à Igreja: “Para brevemente relembrar os principais benefícios, a usança salutar das indulgências ensina “como é triste e amargo ter abandonado o Senhor Deus” (Jr 2,19). Pois, os fiéis, quando se empenham em ganhar as indulgências, compreendem que por suas próprias forças não podem expiar o prejuízo que se infligiram a si mesmos e a toda a comunidade, e por isso são excitados a uma salutar humildade.”(DI, 9)“Além disso, diz Paulo VI, o uso das indulgências ensina com que íntima união em Cristo estamos ligados uns aos outros e que ajuda a vida sobrenatural de cada um poder trazer aos outros, a fim de mais fácil e estreitamente se unirem ao Pai. Assim, o uso das indulgências inflama eficazmente a caridade e de modo excelente a exerce quando se leva um auxílio aos irmãos adormecidos em Cristo.”(idem) O uso das indulgências dá´nos confiança e esperança na reconciliação total com Deus, como ensina o Papa: “A prática das indulgências eleva igualmente à confiança e à esperança da total reconciliação com Deus Pai; contanto, evidentemente, que ela se desenvolva sem dar margem a nenhuma negligência nem diminuir a preocupação de se dispor devidamente a plena comunhão com Deus. Com efeito, embora sejam as indulgências benefícios gratuitos, não só concedidas tanto a favor dos vivos como dos defuntos a não ser que se cumpram as condições requeridas para sua obtenção. Duma parte devem ser cumpridas as boas obras prescritas, doutra parte deve o fiel apresentar as disposições exigidas, isto é, que ame a Deus, deteste os pecados, tenha confiança nos méritos de Cristo e firmemente creia na grande utilidade que para ele mesmo representa a comunhão dos Santos.” (DI, 10) 

2. Por outro lado, a crença no valor das indulgências, faz´nos também, acreditar e nos submetermos aos Pastores da Igreja, que receberam o “poder das chaves” de Jesus: “Não se deve deixar em silêncio que, adquirindo as indulgências, os fiéis docilmente se submetem aos legítimos Pastores da Igreja, e particularmente ao sucessor de São Pedro, que tem as chaves do céu, aos Pastores que o próprio Salvador mandou apascentar e conduzir sua Igreja.” (DI,10) 

3. Outra razão de ser das indulgências, como mostra o Papa Paulo VI, é a de instaurar mais depressa o Reino de Deus, e a de preparar a Esposa do Cordeiro para as Bodas (Ap 19, 7): “A salutar instituição das indulgências contribui, assim, por sua parte, para que a Igreja se apresente a Cristo sem mancha nem ruga, mas santa e imaculada (Ef 5,27) admiravelmente unida em Cristo pelo elo da caridade sobrenatural. De fato, por meio das indulgências são os membros da Igreja padecente mais rapidamente agregados à Igreja triunfante. Daí resulta que por essas mesmas indulgências o Reino de Cristo se instaura muito mais rapidamente até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e de pleno conhecimento do Filho de Deus, à idade de homem perfeito, à medida da estatura que convém ao complemento de Cristo (Ef 4,13)”. (DI, 9). 

4. Paulo VI incentiva o uso das indulgências, e explica que elas não diminuem a importância dos outros meios que a Igreja nos põe à disposição para a busca da santidade e da perfeição cristã: “Assim, apoiando´se nessas verdades, nossa santa Mãe igreja ainda uma vez recomendando aos fiéis o uso das indulgências, que foi tão caro ao povo cristão por tantos séculos e o é ainda, como o prova a experiência, não quer tirar nada às outras formas de santificação, em primeiro lugar ao santíssimo sacrifício da missa e aos sacramentos, sobretudo ao sacramento da Penitência, e em seguida aos abundantes socorros agrupados sob o nome de sacramentais, assim como as obras de piedade, de penitência e de caridade. Todos esses meios têm isto em comum: operar a santificação e a purificação com tanto maior eficácia quanto mais estreitamente estiver o fiel pela caridade unido a Cristo´Cabeça e à Igreja´Corpo. A preeminência da caridade na vida cristã é até confirmada pelas indulgências. Pois não podem estas ser adquiridas sem uma sincera metanóia e sem união com Deus, a que visa o cumprimento das obras. É portanto mantida a ordem da caridade, esta ordem na qual se insere a remissão das penas pela distribuição do tesouro da Igreja. Enfim, exortando seus fiéis a não abandonarem ou subestimarem as santas tradições de seus pais, mas a religiosamente aceitá´las como um precioso tesouro da família cristã e a segui´las, deixa a Igreja contudo cada um usar dos meios de purificação e de santificação com a santa e justa liberdade dos filhos de Deus; doutra parte ela sempre de novo vem lembrar´lhes o que deve ser colocado em primeiro lugar nos meios ordenados à salvação, isto é, os que são necessários, os melhores e mais eficazes.” (DI,11) E neste sentido, o Papa relembra as palavras de São Tomás de Aquino: “...ainda que tais indulgências muito valham para a remissão da pena, contudo outras obras de satisfação são mais meritórias sob o ponto de vista do prêmio essencial; o que vem a ser infinitamente melhor do que a remissão da pena temporal”. (S. Th. Suppl., q. 25, ad 2; DI, ref. 47) 

5. O mesmo Papa Paulo VI ensina que a intenção da autoridade da Igreja ao conceder as indulgências, não é apenas ajudar os cristãos a pagarem as penas que devem à justiça divina, mas também, motivá´los a praticar obras de fé e piedade.

“A Igreja vai ao encontro dos cristãos que, levados pelo espirito de penitência, buscam atingir esta metanóia, com o fito de reencontrar, após o pecado, aquela santidade de que foram inicialmente revestidos em Cristo pelo batismo. Distribui indulgências, assim como a mãe, terna e cuidadosa, ampara os filhos fracos e doentes. O que de forma alguma significa ser a indulgência um caminho mais fácil, que nos permitisse evitar a indispensável reparação dos pecados. Bem ao contrário. É uma ajuda que todo fiel, reconhecendo com humildade a própria fraqueza, encontra no Corpo Místico de Cristo, o qual todo inteiro “concorre para sua conversão pela caridade, pelo exemplo e pela prece” ( Lumen Gentium, cap. 2, n. 11)”. (DI, ref. 39) 

CONCEDIDAS PELA IGREJA

Outro ponto que a conceituação de indulgência afirma, na (Norma 1), é que ela é “alcançada por meio da Igreja”, que é a “dispensadora da redenção”. É ela, e somente ela, que “distribui e aplica por sua autoridade o tesouro das satisfações de Cristo e da Igreja”. Portanto, só a Igreja, que é o “Sacramento universal da salvação da humanidade” (LG, 48), por vontade expressa do Pai e do Filho, pode conceder as indulgências. À Mãe Igreja, receptáculo do “Dom de Deus”, como disse Santo Ireneu (†202), distribui aos seus filhos os méritos de Cristo e dos santos. Este é o “tesouro da Igreja”. Talvez possa parecer a alguém que, através das indulgências, seja “fácil ou cômodo”se livrar das penas dos pecados. Mas é preciso lembrar que a Igreja é Mãe amorosa, que quer o bem dos seus filhos. Certa vez, o Cardeal Journet, falando das indulgências, contou uma passagem da vida do Cura d’Ars, São João Vianney: “Um grande pecador tinha recebido do Santo Cura d’Ars a absolvição de seus pecados. Ele estava disposto a fazer fosse o que fosse para reparar as culpas cometidas. Mas impôs´se´lhe apenas uma penitência moderada, que ele considerou inadequada e o deixou perplexo. O santo Cura deu´lhe então uma resposta muito simples, mas profunda: ‘não temais, farei eu aquilo que falta’”. ( Do livro Coração Indulgentíssimo de Jesus, de Hugo Ferreira Pinto, Ed. Vozes, 1998, Petrópolis, p. 45) É exatamente isso que a Mãe Igreja faz pelo seu filho pecador penitente, deveras arrependido e desejoso de reparar as suas faltas por amor a Deus; Ela, com os méritos de Cristo ‘faz aquilo que falta’ para a salvação do filho. Isto explica as indulgências. Antes de subir para o céu, Jesus disse aos Apóstolos: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28,18), e esta autoridade Ele a conferiu à Sua Igreja. Jesus deu autoridade aos apóstolos para ensinar e agir em Seu próprio nome: “Quem vos ouve a Mim ouve, quem vos rejeita a Mim rejeita; e quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou”. (Lc 10,16) A Pedro (Papa), conferiu, pessoalmente, um poder especialíssimo na Igreja, para chefiar, o “poder das chaves”, de “ligar e desligar” com autoridade divina: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar´te´ei as chaves do Reino dos céus: tudo que ligares na terra, terá sido ligado nos céus; e tudo que desligares na terra, terá sido desligado nos céus.”(Mt 16, 18´19) É importante notar que Jesus disse essas palavras a Pedro, sem colocar nenhuma condição ou excessão; e portanto, deu à Igreja o direito de remir a pena temporal dos seus filhos. O mesmo poder de “ligar e desligar”, Cristo deu ao Colégio dos Apóstolos, sem condições ou excessões: “Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra, terá sido ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra, terá sido desligado no céu”. (Mt 18, 18) É usando desse poder “das chaves”, que a Igreja aprovou as indulgências. E, se ela ligou na Terra, Cristo ligou também no céu. O dogma da infalibilidade da Igreja e do Papa, nos ensina que Jesus não pode ligar nada errado no céu; logo, não permite à Sua Igreja ligar nada errado na Terra, em termos de doutrina (fé e moral), como ensina o Catecismo da Igreja: “Para manter a Igreja na pureza da fé transmitida pelos apóstolos, Cristo quis conferir à sua Igreja uma participação na sua própria infalibilidade, ele que é a Verdade. Pelo “sentido sobrenatural da fé”, o Povo de Deus “se atém indefectivelmente à fé”, sob a guia do Magistério vivo da Igreja (LG, 12; DV, 10)”. (CIC, §889) “O ofício pastoral do Magistério está assim ordenado ao cuidado para que o povo de Deus permaneça na verdade que liberta. Para executar esse serviço, Cristo dotou os pastores do carisma da infalibilidade em matéria de fé e de costumes.” (CIC,§ 890)

Afirma o nosso Catecismo, sobre as indulgências que:

“A indulgência se obtém pela Igreja que, em virtude do poder de ligar e desligar que Cristo Jesus lhe concedeu, intervém em favor do cristão, abrindo´lhe o tesouro dos méritos de Cristo e dos santos para obter do Pai das misericórdias as remissões das penas temporais devidas aos seus pecados. Assim a Igreja não só vem em auxílio do cristão, mas também o incita a obras de piedade, de penitência e de caridade”(CIC, 1478). O Papa Sixto IV (1471´1484), na encíclica Romani Pontificis, assim se expressou: “... Nós, a quem foi do alto atribuída a plenitude do poder, desejando levar do tesouro da igreja Universal constante dos méritos de Cristo e de seus Santos, auxílio e sufrágio às almas do purgatório...”(DS 1406; DI, ref. 20). O Papa Clemente VI (1342´1352), na bula jubilar Unigenitus Dei Filius, afirmou: “O Filho unigênito de Deus adquiriu um grande tesouro para a Igreja Militante... Esse tesouro... quis ele fosse distribuído aos fiéis para sua salvação por são Pedro, portador das chaves do céu, e por seus sucessores, seus vigários na terra, e fosse, por motivos particulares e razoáveis, a fim de remir ora completamente a pena temporal devida ao pecado, misericordiosamente aplicado, em geral ou em particular, como diante de Deus se julgasse mais útil, aos que, verdadeiramente penitentes se tivessem confessado. Sabe´se que os méritos da Bem´aventurada Mãe de Deus e de todos os eleitos contribuem para a riqueza desse tesouro”. (DI, ref. 36) Paulo VI confirma o papel ímpar da Igreja, ao administrar as indulgências, pelo poder que Cristo lhe deu: “Com efeito, na indulgência, usando de seu poder de administradora da redenção de Cristo Senhor, a Igreja não se contenta com rezar, mas por sua autoridade abre ao fiel convenientemente disposto o tesouro das satisfações de Cristo e dos Santos pela remissão da pena temporal.” (DI,8) Na epístola Sacrosancta Portiunculae, ele ensina que: “A indulgência, concedida pela Igreja aos que fazem penitência, é uma manifestação desta maravilhosa comunhão dos santos, que misticamente une, pelo único laço da caridade de Cristo, a Bem´aventurada Virgem Maria, os cristãos triunfantes no céu, os que estão no purgatório e os que ainda não terminaram sua peregrinação pela terra. A indulgência, dada por intermédio da igreja, diminui pois e até suprime a pena que impede de algum modo a mais íntima união do homem com Deus. Aquele que faz penitência acha portanto nessa forma singular da caridade eclesial, auxílio para lançar fora o velho homem e revestir o novo “que foi renovado no conhecimento conforme a imagem daquele que o criou” (Cl 3, 10)” (AAS 59 [1966], pp. 633´634; DI, ref. 38).

A COMUNHÃO DOS SANTOS E O “ TESOURO DA IGREJA “

Com a sua Encarnação e Paixão, Jesus adquiriu um Tesouro infinito de graças para a humanidade, diante de Deus, e confiou este Tesouro à Sua Igreja. A chave deste Tesouro foi dada a Pedro e seus sucessores. Santa Catarina de Sena, nos “Diálogos”, escreveu esta palavra do Pai: “Foi na dispensa da hierarquia da Igreja que eu guardei o Corpo e o Sangue do meu Filho”. Não só o tesouro da Eucaristia, mas todos os méritos de Cristo foram confiados à Igreja. Falando deste “tesouro da Igreja”, o Catecismo ensina que eles são os bens espirituais da comunhão dos santos, “que não é uma soma de bens comparáveis às riquezas materiais acumuladas no decorrer dos séculos, mas é o valor infinito e inesgotável que tem junto a Deus as expiações e os méritos de Cristo nosso Senhor, oferecidos para que a humanidade toda seja libertada do pecado e chegue à comunhão com o Pai. É em Cristo, nosso redentor, que se encontram em abundância as satisfações e os méritos de sua redenção”. (cf. Hb 9, 11´22; 7, 23´25)

Paulo VI nos ensina também que:

“Pertence além disso a esse tesouro o valor verdadeiramente imenso e incomensurável e sempre novo que tem junto a Deus as preces e as boas obras da Bem´aventurada Virgem Maria e de todos os santos que, segundo as pegadas de Cristo Senhor, por sua graça se santificaram e totalmente acabaram a obra que o Pai lhes confiara; de sorte que operando a própria salvação, também contribuíram para a salvação de seus irmãos na unidade do corpo místico”. (ID, 5) O fundamento da doutrina das indulgências está portanto baseado no dogma da Comunhão dos Santos. Ainda o nosso Catecismo ensina que: “A união dos que estão na terra com os irmãos que descansam na paz de Cristo, de maneira alguma se interrompe; pelo contrário, segundo a fé perene da Igreja, vê´se fortalecida pela comunicação dos bens espirituais” (CIC, §955; LG, 49)

Na Constituição Apostólica sobre as Indulgências, o Papa Paulo VI ensina que:

“Por insondável e gratuito mistério da divina disposição, acham´se os homens unidos entre si por uma relação sobrenatural. Esta faz com que o pecado de um prejudique também os outros, assim como a santidade de um traga benefícios aos outros. Assim se prestam os fiéis socorros mútuos para atingirem o seu fim eterno. O testemunho desta união é evidente no próprio Adão, pois seu pecado passa a todos os homens por propagação hereditária. Mas o mais alto e mais perfeito princípio, o fundamento e o modelo dessa relação sobrenatural, é o próprio Cristo, no qual Deus nos chamou a ser inseridos” (DI, 4) Jesus deixou esta verdade bem clara ao dizer: “Eu sou a videira, vós sois os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto”(Jo 15,5). São Paulo ensina a verdade da comunhão dos santos: “Ora, vós sois o corpo de Cristo e cada um de sua parte é um de seus membros”(1Cor 12,27). “Nós, embora sejamos muitos, formamos em Cristo um só corpo, e cada um de nós somos membros uns dos outros”.(Rm 12,5) Todas essas passagens, e muitas outras (1 Cor 1,9 e 10,17; Ef 1, 20´23 e 4,40), confirmam a realidade da união dos batizados no único Corpo de Cristo. Na Encíclica Mystici Corporis, o Papa Pio XII (1939´58), ensinou claramente que: “Desta mesma comunicação do Espírito de Cristo segue´se que ... a Igreja vem a ser como o complemento e plenitude do Redentor; e Cristo como se completa na Igreja... que é na terra como outro Cristo e faz as suas vezes”. “ A vida de cada um dos filhos de Deus em Cristo se acha unida por admirável laço à vida de todos os outros irmãos cristãos na sobrenatural unidade do corpo místico de Cristo, como uma única pessoa mística.” (ID, 5) Ensina Paulo VI, que na comunhão dos santos: “existe certamente entre os fiéis já admitidos na pátria celeste, os que expiam as faltas no purgatório e os que ainda peregrinam na terra, um laço de caridade e um amplo intercâmbio de todos os bens”. ( idem) Desta forma, ensina o Catecismo que: “O cristão que procura purificar´se de seu pecado e santificar´se com o auxílio da graça de Deus não está só.”(CIC,1474) A realidade e a beleza da comunhão dos fiéis no corpo místico de Cristo, garante que “cada um se beneficia da santidade dos outros, bem para além do prejuízo que o pecado de um possa ter causado aos outros. Assim, o recurso à comunhão dos santos permite ao pecador contrito ser purificado, mais cedo e mais eficazmente, das penas do pecado”. (CIC, §1475) Portanto, garante a Igreja que podemos auxíliar os nossos irmãos falecidos: “Uma vez que os fiéis defuntos em vias de purificação também são membros da mesma comunhão dos santos, podemos ajudá´los obtendo para eles indulgências, para libertação das penas temporais devidas por seus pecados.”(CIC, §1479) Ao falar do dogma da comunhão dos santos, o Papa Leão XIII (1878´1903) disse, na encíclica Mirae Caritatis: “A comunhão dos santos não é outra coisa senão a comunhão de auxílio, de expiação, de preces, de benefícios entre os fiéis já na pátria celeste ou ainda entregues ao fogo purificador ou peregrinando ainda na terra, construindo todos uma só cidade, cuja cabeça é Cristo, cuja forma é a caridade”. (DI, ref. 18) Pio XII, na Mystici Corporis ensina que: “De tal maneira Cristo sustenta a Igreja que ela é como uma segunda personificação de Cristo”. (DI, ref. 19) Lembra o mesmo Papa que, de tal forma Cristo se identificou com a Igreja, o Seu Corpo, que quando Paulo a perseguia, Ele gritou do céu: “Saulo, Saulo, por que Me persegues?”(At 9, 4). O Papa Leão X (1513´1521), no decreto Cum Postquam, a Caetano de Vio, legado papal, fala também de “... dispensar o tesouro dos méritos de Jesus Cristo e dos Santos... “(DS 1448; cf. DS 1467 e 2641; DI, ref. 20). O Concílio Vaticano II também deixou bem claro o mistério da comunhão dos santos: “Com efeito, todos os que são de Cristo, por terem recebido seu Espírito, se acham unidos numa só Igreja e nele aderem uns aos outros (cf. Ef 4, 16). A união dos viajores com os irmãos adormecidos na paz de Cristo, longe de se romper, pelo contrário, se acha reforçada pela comunicação dos bens espirituais, conforme a imutável crença recebida na Igreja. Do fato de sua íntima união com Cristo, mais ainda confirmam os bem´aventurados na santidade a Igreja inteira... e de várias maneiras contribuem na crescente obra de sua edificação (cf. 1Cor 12, 12´27). De fato, uma vez acolhidos na pátria celeste e permanecendo junto ao Senhor (cf. 2Cor 5, 8), por ele, com ele e nele não cessam de interceder por nós junto ao Pai, oferecer os méritos que na terra adquiriram, graças a Cristo Jesus, único Mediador, entre Deus e os homens (cf. 1Tm 2, 5), servindo ao Senhor em tudo e acabando o que falta às tribulações de Cristo em sua carne a favor de seu Corpo que é a Igreja (cf. Cl 1, 24). Eis portanto uma ajuda muito preciosa que sua fraternal solicitude traz à nossa fraqueza”. (LG, 49) Paulo VI, ao falar da penitência da Igreja, ensina que “em tudo isto, entretanto, não se pensava que cada um dos fiéis operasse apenas com os próprios recursos pela remissão dos pecados dos outros irmãos; cria´se de fato que a Igreja, como um corpo, unida a Cristo seu chefe, satisfazia em cada um de seus membros. (DI, 6) Tertuliano de Cartago (†202), no século II, já registrava este ensinamento: “Não pode o corpo se alegrar com o sofrimento de um só membro; é necessário que todo ele se doa e colabore para a cura. Num e noutro estão a Igreja, já que a Igreja é Cristo. Portanto quando te ajoelhas junto ao irmão abraças a Cristo, suplicas a Cristo. De modo semelhante quando eles choram sobre ti é Cristo que suplica ao Pai. O filho sempre alcança facilmente o que pede”( DI, ref. 30).

INSPIRADAS PELO ESPÍRITO SANTO

A aplicação das indulgências, foi aos poucos sendo entendida pelos Pastores da Igreja, com a assistência do Espírito Santo. Afirma Paulo VI que: “A convicção existente na Igreja de que os Pastores do rebanho do Senhor podem por meio da aplicação dos méritos de Cristo e dos Santos libertar cada fiel dos restos de seus pecados introduziu aos poucos no correr dos séculos, pelo sopro do Espírito Santo que sempre anima o Povo de Deus, o uso das indulgências; uso pelo qual se efetuou um progresso, não uma mudança, na doutrina e na disciplina da Igreja, e da raiz que é a Revelação brotou um novo bem para a unidade dos fiéis e de toda a Igreja. Pouco a pouco se propagou o uso das indulgências e se tornou um fato notório na história da lgreja desde que os Pontífices Romanos decretaram que certas obras favoráveis ao bem geral da Igreja “poderiam ser imputadas ao título de uma penitência total ”; e aos fiéis “verdadeiramente penitentes, que tivessem confessado seus pecados” e realizassem tais obras esses mesmos Pontífices “pela misericórdia de Deus e... confiando nos méritos e na autoridade dos apóstolos”, “na plenitude do poder apostólico” concediam “o perdão não só pleno e abundante, mas até o mais cabal, de todos os seus pecados”. (DI,7) O Concílio de Clermont (1095), que incentivou as Cruzadas, no cânon 2, concedeu indulgências aos que partissem para a Terra Santa, afim de libertar o santo sepulcro : “Todo aquele que só por devoção, não para obter honra ou dinheiro, partir para libertar a Igreja de Deus em Jerusalém, considerar´se´á essa viagem como uma penitência plena”. (DI, ref. 34) O Papa Bonifácio VIII (1294´1303), na bula Antioquorum Habet, concedeu indulgências aos que visitassem a basílica de São Pedro em Roma: “De acordo com fiel relação dos antigos, os que chegam à venerável basílica do Príncipe dos Apóstolos em Roma obtém grandes remissões e indulgências dos pecados. Nós portanto... essas indulgências e remissões, todas e cada uma, ratificamos e de bom grado aceitamos, confirmando´as e aprovando´as com autoridade apostólica... Nós, confiados na misericórdia de Deus onipotente e nos méritos e autoridade dos próprios Apóstolos, a conselho de nossos irmãos e pela plenitude do poder apostólico a todos... os que vêm a essas basílicas com reverência, verdadeiramente penitentes e confessados... no ano corrente e em qualquer dos do futuro século não só plena e mais ampla, senão pleníssima absolvição de todos os seus pecados concederemos e concedemos...”(DS 868; DI, ref. 35). Também o Papa Leão X (1513´1521), no decreto Cum Postquam, afirmou que: “... a Igreja romana, a quem as demais devem seguir como a mãe, ensina que o Pontífice Romano, sucessor de Pedro, o portador das chaves e vigário de Cristo na terra, pelo poder das chaves que permite abrir o reino dos céus tirando aos fiéis de Cristo os impedimentos (a culpa e a pena devida pelos pecados atuais, a culpa mediante o sacramento da penitência, a pena temporal, devida segundo a divina justiça pelos pecados atuais, mediante a indulgência eclesiástica), pode por motivos razoáveis conceder indulgências aos mesmos fiéis de Cristo, unidos pela caridade como membros a Cristo, quer se achem nesta vida, quer no purgatório, pela abundância dos méritos de Cristo e dos Santos. E concedendo tanto para os vivos como para os defuntos, por apostólica autoridade, a indulgência, acostumou´se a dispensar o tesouro dos méritos de Jesus Cristo e dos Santos, e a conferir a mesma indulgência a modo de absolvição, ou a transferir a modo de sufrágio. E por isso todos, tanto vivos como defuntos, que verdadeiramente alcançaram essas indulgências, são livres de tanta pena temporal, devida segundo a justiça divina por seus pecados atuais, quanto foi a indulgência concedida e adquirida, equivalentemente”(DI, ref. 37). Pio XI (1922´1939), na promulgação do Ano Santo Extaordinário Quod Nuper, afirmou: “... no Senhor misericordiosamente concedemos e repartimos uma pleníssima indulgência de toda a pena que devem pagar por seus pecados, tendo obtido de antemão para isso a remissão e o perdão de todos eles” (DI, ref. 40). Pio XII (1939´1958), na promulgação do Jubileu universal de 1950, na Iubilaeun Maximum, ensinou: “No decurso deste ano de expiação, a todos os... cristãos, que devidamente purificados pelo sacramento da Penitência e alimentados com a santa Eucaristia... visitarem piedosamente... as Basílicas e... recitarem orações... no Senhor, misericordiosamente concedemos e repartimos uma pleníssima indulgência e remissão de toda a pena que devem pagar pelos pecados” (DI, ref. 40). Por todas essas citações vemos que a prática das indulgências é antiquíssima na Igreja, confirmadas pelos Papas e pelos Concílios, e inspiradas pelo Espírito Santo.

É MERITÓRIO APLICÁ´LAS ÀS ALMAS

É extremamente meritório e caritativo transferir as indulgências para os mortos. Paulo VI afirma que: “Se os fiéis transferem as indulgências a favor dos defuntos, exercem então de maneira excelente a caridade e, elevando seu pensamento para as realidades celestes, tratam as coisas terrestres do modo mais correto. O Magistério da Igreja expôs e defendeu esta doutrina em diversos documentos.” (DI, 8) Entre outros documentos do Magistério, o Papa cita a bula jubilar Unigenitus Dei Filius e a epistola Super Quibusdam, do Papa Clemente VI (1342´1352); a bula Inter Cunctas, de Martinho V (1417´1779); a bula Exsurge Domine, de Leão X (1513´1521); a bula Salvator Noster e a carta encíclica Romani Pontificis Provida, de Sisto IV (1471´1484), que diz : “Nós, desejosos de atalhar tais escândalos e erros... por breves nossos... escrevemos aos prelados, para que digam aos fiéis cristãos, havermos nós concedido a indulgência plenária pelas almas do purgatório a modo de sufrágio, não para que esses fiéis, por causa da mencionada indulgência, se afastassem das obras pias e boas, mas para que ela a modo de sufrágio fosse de proveito à salvação das almas. E assim aquela indulgência aproveitaria, tal como se recitassem devotas orações e se oferecessem piedosas esmolas pela salvação daquelas almas... E pois que as orações e as esmolas têm o valor de sufrágios feitos às almas, nós, a quem do alto foi conferida a plenitude do poder, desejoso de levar ajuda e sufrágio às almas do purgatório, tirando do tesouro da Igreja universal, constituído dos méritos de Cristo e de seus Santos, concedemos a mencionada indulgência...” (DI,8). Leão X (1513´1521), na bula Exsurge Domine, condenou as heréticas teses de Lutero e dos reformadores, sobre as indulgências: “A proposição afirmando ‘que a indulgência, segundo sua exata noção, não é nada mais que a remissão de parte daquela penitência estatuída pelos cânones ao pecador’; como se a indulgência, fora a mera remissão da pena canônica, não valesse igualmente para a remissão da pena temporal devida pelos pecados atuais, ante a divina justiça: ´ é falsa, temerária, injuriosa aos méritos de Cristo, já há muito condenada no art. 19 de Lutero (Prop. 40)”.(DI, ref. 40) “Da mesma forma, no que acresce ‘que os escolásticos inchados com suas sutilezas introduziram um mal compreendido tesouro dos méritos de Cristo e dos Santos, e à clara noção da absolvição da pena canônica substituíram a confusa e falsa da aplicação dos méritos’, como se os tesouros da Igreja, donde o papa dá as indulgências, não fossem os méritos de Cristo e dos Santos: ´ é falsa, temerária, injuriosa aos méritos de Cristo e dos Santos, já há muito condenada no art. 17 de Lutero (Prop. 41)”. (idem) “Da mesma forma, no que acresce: ‘mais triste ainda é que esta quimérica aplicação se pretendeu aplicar aos defuntos’ : ´ é falsa, temerária, ofende aos ouvidos pios, injuria aos Romanos Pontífices, e à praxe e ao sentir da Igreja universal, induz ao erro de sabor herético de Pedro de Osma, outra vez condenado no art. 22 de Lutero (Prop. 42)”.(ibidem) Paulo VI reconhece que às vezes houve abusos no uso das indulgências, mas isto não anula o seu valor e a sua necessidade para os fiéis e para a Igreja: ´ Aconteceu às vezes, é verdade, introduzirem´se abusos no uso das indulgências, quer “por concessões injustificadas e supérfluas ” tivesse sido aviltado o poder das chaves que a Igreja possui e enfraquecida a satisfação penitencial (IV Concílio de Latrão ´1215), quer como conseqüência de “proveitos ilícitos” fosse desonrado o próprio nome das indulgências”. Mas, retificando e corrigindo os abusos, a Igreja “ensina e ordena que o uso das indulgências, particularmente salutar ao povo cristão e aprovado pela autoridade dos santos concílios, seja conservado na Igreja, e fere com o anátema aos que afirmam serem inúteis as indulgências e negam à Igreja o poder de as conceder”(Decreto sobre as Indulgências, Concílio de Trento)”.(DI, 8) E o Papa Paulo VI, sem receios, assim como fizeram os demais Papas, incita o povo cristão ao uso bom e correto das indulgências: “Ainda hoje convida a Igreja todos os seus filhos a considerarem e a meditarem na vantagem que pode oferecer o uso das indulgências, para favorecer a vida de cada um deles bem como a de toda a comunidade cristã.”(DI, 9)

DO LIVRO ´OQUE SÃO AS INDULGÊNCIAS´ do Prof. Felipe Aquino

O que são as indulgências?

Antes de explicar o que são as indulgências, vamos mostrar que a Igreja ensina esta doutrina sem hesitação.
O Catecismo da Igreja (CIC) afirma que:

“Pelas indulgências, os fiéis podem obter para si mesmos e também para as almas do Purgatório, a remissão das penas temporais, sequelas dos pecados.” (CIC, 1498) O Papa Paulo VI (1963-1978), na Constituição Apostólica Doutrina das Indulgências (DI), ensina com clareza toda a verdade sobre esta matéria. Começa dizendo que: “A doutrina e o uso das indulgências vigentes na Igreja Católica há vários séculos encontram sólido apoio na Revelação divina, a qual vindo dos Apóstolos “se desenvolve na Igreja sob a assistência do Espírito Santo”, enquanto “a Igreja no decorrer dos séculos, tende para a plenitude da verdade divina, até que se cumpram nela as palavras de Deus (Dei Verbum, 8)”. ( DI, 1) Assim, fica claro que as indulgências têm base sólida na doutrina católica (Revelação e Tradição) e, como disse Paulo VI, “se desenvolve na Igreja sob a inspiração do Espírito Santo”.

A ORIGEM DAS INDULGÊNCIAS
O uso das indulgências teve sua origem já nos primórdios da Igreja. Desde os primeiros tempos ela usou o seu poder de remir a pena temporal dos pecadores. Sabemos que na Igreja antiga dos primeiros séculos, a absolvisão dos pecados só era dada aos penitentes que se acusassem dos próprios pecados e se submetessem a uma pesada penitência pública; por exemplo, jejum de quarenta dias até o pôr do sol, trajando-se com sacos e usando o silício, autoflagelação, retirada para um convento, vagar pelos campos vivendo de esmolas, etc., além de ser privado da participação na Liturgia eucarística e na vida comunitária. Isto era devido ao “horror” que se tinha do pecado e do escândalo. Aquele que blasfemasse o nome de Deus, da Virgem Maria, ou dos santos, ficava na porta da igreja, sem poder entrar, sete domingos durante a missa paroquial, e, no último domingo ficava no mesmo lugar sem capa e descalço; e nas sete sextas- feiras precedentes jejuava a pão e água, sem poder neste período entrar na igreja. Aquele que rogasse uma praga aos pais, devia jejuar quarenta dias a pão e água.
Essas pesadas penitências, e outras, tinham o objetivo de extinguir no penitente os requícios do pecado e as más inclinações que o pecado sempre deixa na alma do pecador, fazendo-o voltar a praticá-lo. Na fase das perseguições dos primeiros séculos, quando era grande o número de mártires, muitos cristãos ficavam presos e aguardando o dia da própria execução. Surgiu nesta época um belo costume: os penitentes recorriam à intercessão dos que aguardavam presos a morte. Um deles escrevia uma carta ao bispo pedindo a comutação da pesada penitência do pecador; eram as chamadas “cartas de paz”. Com este documento entregue ao bispo, o penitente era absolvida da pesada penitência pública que o confessor lhe impusera, e também da dívida para com Deus; a pena temporal que a penitência satisfazia. Assim, transferia-se para o pecador arrependido, o valor satisfatório dos sofrimentos do mártir.
Desta forma começou o uso da indulgência na Igreja.
Muitas vezes os penitentes não tinham condições de saúde suficiente para cumprir essas penitências tão pesadas; e isto fez com que a Igreja, com o passar do tempo, em etapas sucessivas e graduais, fosse abrandando as penitências. Na idade média, a Igreja, com a certeza de que ela é a depositária dos méritos de Cristo, de Nossa Senhora e dos Santos, o chamado “tesouro da Igreja”, começou a aplicar isto aos seus filhos pecadores. Inspirados pelo Espírito Santo, os Papas e Concílios, a partir do século IX, entenderam que podiam aplicar esses méritos em favor dos penitentes que deviam cumprir penitencias rigorosas. Assim, surgiram as “obras indulgenciadas”, que substituíam as pesadas penitencias. O jejum rigoroso foi substituído por orações; a longa peregrinação, por pernoitar em um santuário; as flagelações, por esmolas; etc.. A partir daí, a remissão da pena temporal do pecado, obtida pela prática dessas “obras indulgenciadas”, tomou o nome de “indulgência”. Nos exemplos das pesadas penitências públicas citadas acima, elas eram substituídas, respectivamente, por uma indulgência de sete semanas e por uma indulgência de 40 dias; por isso as indulgências eram contadas em dias, semanas e meses, porque assim, eram também contadas as penitências públicas.
Com a reza do Terço, por exemplo, em qualquer dia do mês de outubro, se ganhava a indulgência de sete anos. No século IX, os bispos já concediam indulgências gerais, isto é, a todos os fiéis, sem a necessidade da mediação de um sacerdote. Assim, os bispos estipularam que realizando certas obras determinadas, os fiéis poderiam obter, pelos méritos de Cristo, a remissão das penas devidas aos pecados já absolvidos. É preciso compreender que esta prática não se constituía em algo mecânico; não, o penitente, ao cumprir a obra indulgenciada devia trazer consigo as mesmas disposições interiores daquele que cumpria no passado as pesadas penitências, isto é, profundo amor a Deus e repúdio radical de todo pecado. Sem isto, não se ganharia a indulgência. Com o passar do tempo, e principalmente por causa da “questão das indulgências” no tempo de Martinho Lutero (explicado adiante), no século XVI, as indulgências foram ofuscadas e tornaram-se objeto de críticas.
No entanto, após o Concílio Vaticano II (1962-65), o Papa Paulo VI reafirmou todo o seu valor, na Constituição Apostólica Indulgentiarum Doctrina, onde quis claramente mostrar o sentido profundo e teológico das indulgências; incitando os católicos ao espírito de contrição e penitência que deve movê-los ao realizar as obras indulgenciadas, removendo toda a aparência de mecanicismo espiritual que no passado aconteceu.

Comunhão dos Santos

Escrito por D.Estevão Bettencourt   
Reproduzimos, abaixo, o documento conhecido como Declaração de Malta, assinado por um grupo de teólogos católicos, ortodoxos, luteranos, calvinistas e anglicanos, em 15 de setembro de 1.983, ao final do Congresso de Malta, realizado entre os dias 8 e 15 de setembro do mesmo ano: ´Em prosseguimento dos cinco Congressos Mariológicos Internacionais precedentes, o Congresso de Malta (8´15 de setembro de 1983) permitiu a um grupo de teólogos anglicanos, luteranos, reformados e ortodoxos reunir´se com um grupo de teólogos católicos para refletir sobre a Comunhão dos Santos e sobre o lugar que Maria ali ocupa. Reconhecidos ao Senhor pelos encontros precedentes, e pelas convergências que surgiram, acreditam poder apresentar ao Congresso as conclusões do seu diálogo. 

1. Todos reconhecemos a existência da Comunhão dos Santos como comunhão daqueles que na terra estão unidos a Cristo, como membros vivos do seu Corpo Místico. O fundamento e o ponto central de referência desta comunhão é Cristo, o Filho de Deus feito homem e Cabeça da Igreja (Ef 4,15´16), para nos unir ao Pai e ao Espírito Santo. 

2. Esta comunhão, que é comunhão com Cristo e entre todos os que são de Cristo, implica uma solidariedade que se exprime também na oração de uns pelos outros; esta oração depende daquela de Cristo, sempre vivo para interceder por nós (cf. Hb 7,25). 

3. O fato mesmo de que, no céu, à direita do Pai, Cristo roga por nós, indica´nos que a morte não rompe a comunhão daqueles que durante a própria vida estiveram pelos laços da fraternidade unidos em Cristo. Existe, pois, uma comunhão entre os que pertencem a Cristo, quer vivam na terra, quer, tendo deixado os seus corpos, estejam com o Senhor (cf. 2Cor 5,8; Mc 12,27). 

4. Neste contexto, compreende´se que a intercessão dos Santos por nós existe de maneira semelhante à oração que os fiéis fazem uns pelos outros. A intercessão dos Santos não deve ser entendida como um meio de informar Deus das nossas necessidades. Nenhuma oração pode ter este sentido a respeito de Deus, cujo conhecimento é infinito. Trata´se de uma abertura à vontade de Deus por parte de si mesmo e dos outros, e da prática do amor fraterno. 

5. No interior desta doutrina, compreende´se o lugar que pertence a Maria, Mãe de Deus. É precisamente a relação a Cristo que, na Comunhão dos Santos, lhe confere uma função singular de ordem cristológica. Além disso, a oração de Maria por nós deve ser considerada no contexto cutual de toda a Igreja celeste descrito no Apocalipse, ao qual a Igreja terrestre quer unir´se na sua oração comunitária. Maria ora no seio da Igreja como outrora o fez na expectativa do Pentecostes (cf. At 1,14). Por outro lado, quaisquer que sejam as nossas diferenças confessionais, não há razão alguma que impeça unir a nossa oração a Deus no Espírito Santo com a da liturgia celeste e, de modo especial, com a da Mãe de Deus. 

6. Esta inserção de Maria no culto ao redor do Cordeiro imolado (aspecto cristológico), associada a toda a liturgia celeste (aspecto eclesiológico), não pode dar lugar a alguma interpretação que venha atribuir a Maria uma honra que é devida só a Deus. Além disso, nenhum membro da Igreja saberia acrescentar qualquer coisa à obra de Cristo, que é a única fonte de salvação; não é possível passar senão por Ele, nem recorrer a uma via ´mais cômoda´ que a do Filho de Deus, para se chegar ao Pai. Ao mesmo tempo, é claro que Maria tem o seu lugar na Comunhão dos Santos. 

Ao término destas reflexões, nós desejamos dar um testemunho público da fraterna experiência vivida nestes dias. Ela não se limita à atmosfera em que o diálogo se realizou, mas estende´se a todas as atividades do Congresso e à mentalidade religiosa do povo maltês que, no fervor da sua oração com Maria, nos acompanhava. Conscientes de que há muitos problemas teológicos aos quais o diálogo deverá ainda levar, nós declaramos a nossa vontade de continuar as nossas reflexões no Nome do Senhor. 

Não é supérfluo recordar, como se fez ao término do Congresso de Saragoça em 1979, que os signatários, como membros da Comissão Ecumênica do Congresso, não querem senão empenhar´se, bem que tenham trabalhado com a preocupação constante de exprimir a fé das suas respectivas Igrejas. 

Malta, 15 de setembro de 1.983. 

Wolfgag Borowske, luterano
Henry Chavannes, reformado
John de Satge, anglicano
Johannes Kalogirou, ortodoxo
John Milburn, anglicano
Howard Root, anglicano
John Evans, anglicano
Franz Courth, SAC
Theodore Koehler, SM
Charles Molette, Sac
Enrique Llamas, OCD
Stefano de Fiores, SMM
Pierre Masson, OP ´ secretário

Parusia - A Segunda Vinda de Cristo


Papa João Paulo II 

“Não devemos esquecer que o “éschaton”, isto é, o evento final, entendido de maneira cristã, não é só uma meta posta no futuro mas uma realidade já iniciada com a vinda histórica de Cristo... Sabemos, por outro lado, que as imagens apocalípticas do discurso escatológico [de Jesus, Mt 26, 64] a propósito do fim de todas as coisas, devem ser interpretadas na sua intensidade simbólica. Elas exprimem a precariedade do mundo e o soberano poder de Cristo, em cujas mãos está posto o destino da humanidade. A história caminha rumo à sua meta, mas Cristo não indicou qualquer prazo cronológico. Ilusórias e desviantes são, portanto, as tentativas de previsão do fim do mundo. Cristo só nos assegurou que o fim não acontecerá antes que a Sua obra salvífica tenha alcançado uma dimensão universal através do anúncio do Evangelho:


“Esta Boa Nova do Reino será proclamada em todo o mundo para dar testemunho diante de todos os povos. E então virá o fim” (Mt 24,14). Jesus diz estas palavras aos discípulos preocupados por conhecer a data do fim do mundo. Eles teriam sido tentados a pensar numa data próxima. Jesus faz com que conheçam que muitos eventos e cataclismos devem acontecer antes e serão apenas “o princípio das dores” (Mc 13, 8). Portanto, como diz Paulo, toda a criação “geme e sofre nas dores do parto” aguardando com impaciência a revelação dos filhos de Deus (cf.Rom 8,19´20). A obra evangelizadora do mundo comporta a profunda transformação das pessoas humanas sob a influência da graça de Cristo. Paulo indicou a finalidade da história no desígnio do Pai de “reunir sob a chefia de Cristo todas as coisas que há no Céu e na Terra” (Ef 1, 10). Cristo é o centro do universo que atrai todos a Si para lhes comunicar a abundância da graça e da vida eterna. A Jesus o Pai deu “o poder de julgar porque é o Filho do Homem” (Jo 5, 27).

Se o juízo prevê obviamente a possibilidade da condenação, ele contudo é confiado Àquele que é “Filho do Homem”, isto é, a uma pessoa plena de compreensão e solidária com a condição humana. Cristo é um juíz divino com um coração humano, um juíz que deseja dar a vida. Só o enraizamento obstinado no mal pode impedir´lhe fazer este dom, pelo qual Ele não hesitou enfrentar a morte.” 

A Doutrina do Purgatório

O Catecismo da Igreja ensina que:
“A Igreja chama de purgatório esta purificação final dos eleitos, purificação esta que é totalmente diversa da punição dos condenados. A Igreja formulou a doutrina da fé relativa ao Purgatório principalmente nos Concílios de Florença (1438-1445) e de Trento (1545-1563)” (§ 1031). “Este ensinamento baseia-se também sobre a prática da oração pelos defundos de que já fala a Escritura Sagrada: ‘Eis porque Judas Macabeus mandou oferecer este sacrifício expiatório em prol dos mortos, a fim de que fossem purificados de seu pecado’ (2 Mac 12,46). Desde os primeiros tempos a Igreja honrou a memória dos defuntos e ofereceu sufrágios em favor dos mesmos, particularmente o sacrifício eucarístico, a fim de que, purificados, possam chegar à visão beatífica de Deus.
A Igreja recomenda também as esmolas, as indulgências e as obras de penitência em favor dos defuntos”(§1032). Devemos notar que o ensinamento sobre o Purgatório tem raízes já na crença dos próprios judeus, cerca de 200 anos antes de Cristo, quando ocorreu o episódio de Judas Macabeus. Narra-se aí que alguns soldados judeus foram encontrados mortos num campo de batalha, tendo debaixo de suas roupas alguns objetos consagrados aos ídolos, o que era proibido pela Lei de Moisés. Então Judas Macabeus mandou fazer uma coleta para que fosse oferecido em Jerusalém um sacrifício pelos pecados desses soldados. O autor sagrado, inspirado pelo Espírito Santo, louva a ação de Judas: “Se ele não esperasse que os mortos que haviam sucumbido iriam ressuscitar, seria supérfluo e tolo rezar pelos mortos. Mas, se considerasse que uma belíssima recompensa está reservada para os que adormeceram piedosamente, então era santo e piedoso o seu modo de pensar. Eis porque ele mandou oferecer esse sacrifício expiatório pelos que haviam morrido, afim de que fossem absolvidos do seu pecado”. (2 Mac 12,44s) Neste caso, vemos pessoas que morreram na amizade de Deus, mas com uma incoerência, que não foi a negação da fé, já que estavam combatendo no exército do povo de Deus contra os inimigos da fé. Todo homem foi criado para participar da felicidade plena de Deus (cf. CIC, §1), e gozar de sua visão face-a-face. Mas, como Deus é “Três vezes Santo”, como disse o Papa Paulo VI, e como viu o profeta Isaías (Is 6,8), não pode entrar em comunhão perfeita com Ele quem ainda tem resquícios de pecado na alma. A Carta aos Hebreus diz que: “sem a santidade ninguém pode ver a Deus” (Hb 12, 14). Então, a misericórdia de Deus dá-nos a oportunidade de purificação mesmo após a morte. Entenda, então, que o Purgatório, longe de ser castigo de Deus, é graça da sua misericórdia paterna.
O ser humano carrega consigo uma certa desordem interior, que deveria extirpar nesta vida; mas quando não consegue, isto leva-o a cair novamente nas mesmas faltas. Ao confessar recebemos o perdão dos pecados; mas, infelizmente, para a maioria, a contrição ainda encontra resistência em seu íntimo, de modo que a desordem, a verdadeira raíz do pecado, não é totalmente extirpada. No purgatório essa desordem interior é totalmente destruída, e a alma chega à santidade perfeita, podendo entrar na comunhão plena com Deus, pois, com amor intenso a Ele, rejeita todo pecado. Com base nos ensinamentos de São Paulo, a Igreja entendeu também a realidade do Purgatório. Em 1Cor 3,10, ele fala de pessoas que construíram sobre o fundamento que é Jesus Cristo, utilizando uns, material precioso, resistente ao fogo (ouro, prata, pedras preciosas) e, outros, materiais que não resistem ao fogo (palha, madeira). São todos fiéis a Cristo, mas uns com muito zelo e fervor, e outros com tibieza e relutância. E Paulo apresenta o juízo de Deus sob a imagem do fogo a provar as obras de cada um. Se a obra resistir, o seu autor “receberá uma recompensa”; mas, se não resistir, o seu autor “sofrerá detrimento”, isto é, uma pena; que não será a condenação; pois o texto diz explicitamente que o trabalhador “se salvará, mas como que através do fogo”, isto é, com sofrimentos. O fogo neste texto tem sentido metafórico e representa o juízo de Deus (cf. Sl 78, 5; 88, 47; 96,3). O purgatório não é de fogo terreno, já que a alma, sendo espiritual, não pode ser atingida por esse fogo. No purgatório a alma vê com toda clareza a sua vida tíbia na terra, o seu amor insuficiente a Deus, e rejeita agora toda a incoerência a esse amor, vencendo assim as paixões que neste mundo se opuseram à vontade santa de Deus. Neste estado, a alma se arrepende até o extremo de suas negligências durante esta vida; e o amor a Deus extingue nela os afetos desregrados, de modo que ela se purifica. Desta forma, a alma sofre por ter sido negligente, e por atrasar assim, por culpa própria, o seu encontro definitivo com Deus. É um sofrimento nobre e espontâneo, inspirado pelo amor de Deus e horror ao pecado.
Pensamentos Consoladores sobre o Purgatório
O grande doutor da Igreja, São Francisco de Sales (1567-1655), tem um ensinamento maravilhoso sobre o purgatório. Ele ensinava, já na idade média, que “é preciso tirar mais consolação do que temor do pensamento do Purgatório”. Eis o que ele nos diz:
1 - As almas alí vivem uma contínua união com Deus.
2 - Estão perfeitamente conformadas com a vontade de Deus. Só querem o que Deus quer. Se lhes fosse aberto o Paraíso, prefeririam precipitar-se no inferno a apresentar-se manchadas diante de Deus.
3 -Purificam-se voluntariamente, amorosamente, porque assim o quer Deus.
4 - Querem permanecer na forma que agradar a Deus e por todo o tempo que for da vontade Dele.
5 - São invencíveis na prova e não podem ter um movimento sequer de impaciência, nem cometer qualquer imperfeição.
6 - Amam mais a Deus do que a si próprias, com amor simples, puro e desinteressado.
7 - São consoladas pelos anjos.
8 - Estão certas da sua salvação, com uma esperança inigualável.
9 - As suas amarguras são aliviadas por uma paz profunda.
10 - Se é infernal a dor que sofrem, a caridade derrama-lhes no coração inefável ternura, a caridade que é mais forte do que a morte e mais poderosa que o inferno.
11 - O Purgatório é um feliz estado, mais desejável que temível, porque as chamas que lá existem são chamas de amor.
( Extraído do livro O Breviário da Confiança, de Mons. Ascânio Brandão, 4a. ed. Editora Rosário, Curitiba, 1981)

As bem-aventuranças evangélicas

Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho
Professor no Seminário de Mariana (MG)

As bem-aventuranças são máximas de vida promulgadas por Jesus Cristo e que retratam, com propriedade, aqueles que possuem a felicidade advinda de uma prática conducente à mesma. São o tocante exórdio, ou seja, o começo do Sermão da Montanha. O relato de Lucas (6,20-26) difere do texto de Mateus (5,1-13). É que ambos registram aspectos verídicos da pregação de Jesus, mas segundo a finalidade que têm em vista e, assim sendo, quer o preâmbulo, quer todo o referido discurso de Cristo foram artificialmente dispostos. O estilo de ambos também é diferente, pois São Lucas aprecia os contrastes e, deste modo, após falar nos felizes, ele acrescenta os malditos, sendo que em Mateus os "ais", ou imprecações, aparecem no capítulo 23, versículo 12 de sua narrativa e não neste proêmio. Seja como for, ambos nos passaram uma doutrina realmente pregada pelo Filho de Deus.


As mensagens transmitidas por Cristo, via São Lucas, aqui analisadas, oferecem, em conseqüência, pábulo valiosíssimo para a existência cristã. O escritor e filósofo pagão Marco Túlio Cícero chamou feliz "aquele que, sem padecer mal algum, reúne o conjunto de todos os bens". Jesus vem então nos ensinar quais são os verdadeiros bens. Em primeiro lugar, a pobreza ou desapego de tudo que se possui. Trata, portanto, do conceito exato que se deve ter das coisas terrenas. Estas precisam estar a serviço do crescimento interior do ser racional. Com efeito, o próprio esforço por melhorar a qualidade de vida é uma virtude, mas só será venturoso aquele que não endeusa o que venha a ter e está sempre disposto a ajudar o próximo dentro de suas possibilidades. É o oposto da ganância e da avareza, não deixando, entretanto, que se resvale para o comodismo e a indolência. Deus então se torna o maior de todos os bens, o único válido tesouro. Tanto isto é verdade que é bem-aventurado o que tem fome, porque será saciado. Isto significa a postura daquele que, embora fazendo todo empenho para ter uma melhor condição humana, se conforma com as privações por que tem que passar e dá uma aplicação transcendental às mesmas. Tal atitude faz então o cristão se repletar de merecimentos para a eternidade. Trata-se também daqueles que passam fome por mortificação e se entregam com discernimento ao jejum penitencial.

São ditosos ainda os que choram não com lágrimas que jorram na face humana pela perda das riquezas, dos parentes ou amigos, mas os que lamentam a perda dos bens espirituais, pranto santo que se opõe aos que riem e se rejubilam com as prosperidades mundanas, com os prazeres terrenos. Lamento sagrado dos pecados próprios e alheios. Queixa benéfica das desordens e revoltas contra a vontade divina. O Todo-Poderoso, um dia, consolará com delícias eternas os que assim procedem. São também afortunados aqueles que ficam fiéis a Jesus quando são odiados e amaldiçoados por causa do Evangelho plenamente vivido, dado que grande será a recompensa deles no céu.

Em nossos dias sobretudo, quem condena o descalabro moral reinante, quem execra o reinado de Satanás que se manifesta nas drogas, na imoralidade, nos crimes mais hediondos, é objeto de chacota porque não está de acordo com o que o mundo oferece. Ai, então, dos ricos, isto é, dos adoradores do deus-dinheiro, daqueles que têm cifrão nos olhos, porque já possuem neste exílio sua falsa consolação. Ai dos que vivem na fartura ignorando os pobres, porque no outro mundo passarão eternamente fome da ventura perene. Ai dos que riem no meio de falsas alegrias, uma vez que prantearão os seus desmandos no fogo que não se extingue. Ai daqueles que confiam nos elogios humanos, pois não agiram em função de Deus, mas de si mesmos, de sua vaidade.

Quanta lição, quantos elementos válidos para a reflexão do discípulo de Jesus! Estes, sim, possuem a felicidade neste mundo e a terão ainda, por todo sempre, na Jerusalém celeste!
Disponibilizado pela CNBB em 9/2/04

O fim dos tempos


A Escatologia pode ser definida como um termo moderno que indica a parte da teologia que considera as fases 'finais' ou 'extremas' da vida humana ou do mundo: morte, juízo universal, pena ou castigo extraterrenos e fim do mundo. Os filósofos usam às vezes esse termo para indicar a consideração dos estágios finais do mundo ou do gênero humano (ABBAGNANO, Nicola, Dicionário de Filosofia, 1999) Ela está inserida na Antropologia Teológica que trata do Homem à partir da visão do Deus. Diante disso, é óbvio que ocupa uma segunda posição em relação à Teologia, que deve ser primeiramente Teocêntrica e Cristocêntrica.
Todavia, a escatologia se reveste de importância quando pretende responder ao questionamento básico de todos os seres humanos: "o que há depois da morte?" Porém, toda e qualquer reflexão filosófica é insuficiente para explicar ou mesmo entender tudo o que Deus tem para o homem.
Mas, como está escrito, o que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que o amam. (I Cor 2,9)
Qual é, então, o desejo de Deus para o homem? Segundo o Catecismo da Igreja Católica, em seu número 01: Deus, infinitamente Perfeito e Bem-aventurado em si mesmo, em um desígnio de pura bondade, criou livremente o homem para fazê-lo participar de sua vida bem-aventurada. Ou seja, o ser humano tem uma finalidade que supera a sua natureza, assim, todos os homens são chamados por Deus para participar de Sua natureza divina.
Desta forma, a Escatologia estuda a natureza humana e o seu destino divino, dado por Deus gratuitamente. É por isso que somente por meio da Revelação divina é que se pode estudar a escatologia vez que o assunto supera o entendimento e a capacidade humana de compreensão. A esperança humana do novo céu e da nova terra será a realização definitiva do projeto de Deus de reunir, sob um só chefe, Cristo, todas as coisas, as que estão no céu e as que estão na terra. Neste universo novo, a Jerusalém celeste, Deus terá uma morada entre os homens. (...) Para o homem, esta consumação será a realização última da unidade do gênero humano, querida por Deus desde a criação e da qual a Igreja peregrinantes era como o sacramento. (...) A visão beatífica, na qual Deus se revelará de maneira inesgotável aos eleitos, será fonte inexaurível de felicidade, de paz e de comunhão mútua.(CIC 1043, 1044, 1045)
Portanto, o objetivo desse curso será estudar a escatologia propriamente dita, que trata das realidades últimas e também a escatologia intermediária, que trata das realidades transitórias, anteriores ao fim dos tempos, fornecendo juntamente com os ensinamentos da Igreja um caminho seguro para que todos possam chegar um dia à Jerusalém celeste.